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quarta-feira, julho 16, 2003

 

Lapa

Sabem quem é Albérico Fernandes? Pois ficam a saber que é o director de um jornal semanal com uma tiragem de 240 000 exemplares. Ah pois. Surpreendidos? Qual é o misterioso jornal? É o simpático Jornal da Região que todos lemos naquela área íntima da nossa casa. Ora, normalmente os artigos desta publicação entram por um ouvido e saem por outro (se a situação intestinal for mais complicada damos mais atenção). Na edição desta semana (Lisboa - Sul) há um artigo sobre o Bairro da Lapa. Até aqui tudo bem. Pensava eu que ia ler mais uma página num tom de guia turístico, sem qualquer cunho pessoal do colunista, e deparo-me com uma prosa bastante vincada (misturada, como não podia deixar de ser, com parágrafos de guia turístico). O nosso relator António Mendes Nunes (assim é assinada a crónica) começa dizendo que concorda o o "ilustre olissipógrafo Noberto de Araújo", quando este diz que " (...) a Lapa não possui tradições. A história de Lisboa não depende da Lapa que nos daria, quanto muito, uma série de crónicas, sem curtinas de fundo erudito (...)" What's that? A Lapa não possui tradições? Mas o nosso amigo continua: "Nesta Lapa de palácios e palacetes acaba por não ser muito agradável passear, especialmente se se leva uma máquina fotográfica, ou um bloco de apontamentos e um lápis na mão." Mas há mais. "Há um monte de embaixadas e residências de diplomatas e corremos o risco de ser olhados (ou até interpelados) como perigosos agentes de uma internacional de terrorismo, perparando um qualquer ataque, quando tomamos qualquer nota. É ridículo mas é verdade." Se o cronista acha que uma embaixada não deve viver preocupada com malta a tiraar fotografias, tudo bem isso á lá com ele. Saberá contudo de certeza que é ilegal tirar fotografias seja a que edifício for sem expressa autorização. Mas aos poucos a crónica vai-se compondo. "As casas onde esses consulados (...) estão instalados são normalmente as mais interessantes e as que mais bonitos jardins possuem, o que deixa o visitante ainda mais desgostoso... Adiante." Pronto. Aqui fazemos mais uma paragem. Isto está a compôr-se. Então o visitante viga desgostoso. Estou mesmo a ver o nosso amigo num bairro de uma cidade estrangeira e procurar a embaixada Portuguesa e a ficar muito contente por esta se ter instalado num edifício degradante, que não tem jardins bonitos. Isto sim é uma atitude de louvar! Mas prossigamos que os meus comentários são supérfluos. Começa então a falar da "Lapa Aristocrática". Ouçamos então. "Destingue-se bem de tudo o resto, esta Lapa dos poderosos" Está dado o mote. "Á direita, imponente como não podia deixar de ser, está residência do Embaixador dos Estados Unidos ad América, vigiada por mil câmaras e por Marines postados no interior, com cara de poucos amigos. Um pouco mais abaixo fica a Embaixada da Bulgária" Cá estamos. Tinha que ser referida a "cara de poucos amigos" dos jovens americanos. Estava-se mesmo a ver, não era? Presume-se que pela omissão de qualquer referência a embaixada da Bulgária não tenha câmaras, e quem está à porta é um conjunto muito amável de jovens búlgaras, distribuindo flores a quem passa. Mas a pérola ainda não acabou." Todos estes edifícios guardam uma evidente distância do passado, longinquos, um pouco hostis, até." Hostis? Está bem. E remata com "Não foi destruído o património e pode ser gozado (ainda que a troco de muitos euros) por quem tiver posse para isso." Agora estou baralhado. Mas então não havia sido dito que não era agradável passear na Lapa? Então qual a razão dos muitos euros? Mas então este património pode ser gozado ou não? Não percebo. Será que o nosso amigo defende a ocupação popular? Ou uma expropriaçãozita por parte da câmara, para impedir que os visitantes fiquem "desgostosos", abrindo os jardins ao público.

Isto é revelador de uma certa mentalidade, que tem dificuldades em aceitar a propriedade privada, especialmente quando é património. É claro que o conceito de cidade é um conceito de integração. Daí a minha repulsa pelos condomínios privados (futuro post, prometo). Mas esta hostilidade face a um sítio extradordinário de Lisboa, apenas (aparentemente) justificada pelo seu carácter privado ou aristocrático vai uma grande distância.

Enfim, apeteceu-me partilhar a minha leitura sanitária do dia. LAC
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