O PROJECTO

Contribuições, insultos, projectos de execução, mas principalmente donativos chorudos para:

blog_oprojecto@hotmail.com (com minúsculas)

sexta-feira, abril 30, 2004

 

cidades

Quando Miguel Sousa Tavares escreve um artigo chamado «Cidades», temos leitura assegurada. MST fala de Amsterdão, numa bela prosa de elogio à vida urbana. Chega a uma triste conclusão: Portugal é irremediavelmente menos civlizado do que a Holanda. Bom, pelo meio chega nos arquitectos. Porque apelidam o centro de Amsterdão como "pastiche". E porque (alguns) querem construir umas torres no rio, em Lisboa. MST assume-se como porta-voz do povo. Congratula-se com a sua participação no derrube do Pozor. Eu não conheço Amsterdão. Mas pergunto a MST: o centro oferece condições mínimas de habitabilidade? Se sim, está tudo explicado. Não se pode comparar com o centro histórico de Lisboa (esse "pastiche"). Quanto às torres, mais uma vez fica a pergunta: o que corre o risco de ser "descaracterizado" naquela zona de Alcântara? Um pouco de seriedade. LAC
 

desgovernado

Hoje: mais uma pista sobre a minha misteriosa atracção por edifícios. É o controlo. Num desenho mandamos em tudo. Pomos e dispomos. Somos deuses num microcosmos. A liberdade é quase infinita. Tudo é ao nosso jeito. Porque é que isto me atrai? Porque na vida, caríssimo leitor, é exactamento o oposto. LAC

quinta-feira, abril 29, 2004

 

googlado

É sempre divertido observar o que o Google nos reserva. Nunca tínhamos feito, mas é mesmo divertido:

- religião dentro da obra o alto de são lourenço
- video do arquitecto taveira (não temos e não sabemos do que se trata)
- Como Organizar uma Festa Campera (Este é o meu personal favorite. Mas o que raio é uma "festa campera"?)

Continuem. LAC


 

luso-português

O arquitecto português continua o mesmo de sempre. Genial, inovador, inventivo, contemplativo, sereno, único, artista, romântico, optimista, orgulhosamente só, impressivo, revolucionário, elitista, educado, regionalista, bom contador de histórias. Possui um ateliê. Não tem sócios, só colaboradores. Ele inventa e manda fazer. É admirado. Tem um dote invulgar para o desenho. Conhece toda a gente. É boémio. Foi boémio. Vai ao cinema, vai ao teatro. Pinta nas horas vagas. Não quer saber do dinheiro, não é capitalista, mas recebe mal, e sabe que recebe mal. Queixa-se do estado da paisagem urbana do seu país. Queixa-se do seu país. É absolutamente francófono. Conhece a europa. Já foi ao Oriente. Despreza a política. Despreza os políticos, menos os que são amigos, esses admira-lhes o sentido de sacrifício. Não conhece a cultura pop. Não lhe interessa a cultura pop. É sarcástico. É religioso não praticante. Trata por tu os seus poetas de eleição. Cita filósofos que lhe convêm. Tem uma admiração pelo interior do país, marca genética do Inquérito. É urbano q.b.. Gosta do campo. É de esquerda. Diz-se feliz. É severamente anti-globalização. É culturalista. Lê revistas da especialidade. Critica-as. Já foi publicado. Diz cobras e lagartos da administração autárquica. Está habituado a ver os seus projectos chumbados. Faz telefonemas. Os seus projectos são aprovados. Os projecto são sempre seus. O cliente é o pretexto. Às vezes, quando tem sorte, aparece-lhe um cliente excepcional. O que quer dizer uma coisa: orçamento com um zero a mais. É extraordinariamente culto. É complexo. Dorme pouco. Mexe-se pouco. Sempre que vai à obra zanga-se. Gosta dos engenheiros. Domestica os engenheiros. Ainda fala em “engenheiros”. Dá aulas “pelo prazer”. Desenha. Desenha sempre. Não gosta do computador. Desconfia. Usa-o. Não vive sem ele. Uma relação amor-ódio. Poucos o compreendem. LAC
 

dias

Portugal -2; Suécia -2; este vosso amigo - 0. LAC

quarta-feira, abril 28, 2004

 

Terra da alegria

Uma entrada directa para os favoritos: terra da alegria: «A força da Palavra é demasiado grande face às fraquezas da sua Igreja.» LAC
 

erase them all

A manter este frenético ritmo, no fim da semana a Charlotte terá eliminado todo o dicionário de língua portuguesa. E depois? Como saberemos de frenético se escreve fernético ou frenético? LAC
 

O bom Frampton

Introdução ao Estudo da Cultura Tectónica. Cadernos de Arquitecura, 1998, publicação parcial

«Apesar de toda a sua marginalidade a cultura tectónica possui ainda um resistente núcleo residual (...)», começa assim Kenneth Frampton (o bom professor, como lhe chama Paulo Martins Barata no prefácio) o epílogo do seu Studies in Tectonic Culture: The Poetics of Construction in the Nineteenth and Twentieth Century. Desde que Schmarsow afirmou «a arquitectura é arte na medida em que o projecto do espaço se sobrepõe ao projecto do objecto», em 1897, a cultura tectónica foi sendo empurrada para essa marginalidade. A «pura visualidade» de Corbusier, o movimento, a acção. Pelo caminho fica a ideia («insustentável para alguns», diz PMB) de que «o edifício é antes e acima de tudo algo de construído e só posteriormente um discurso abstracto sobre superfície, volume e plano.» Num tempo onde a evolução tecnológica empurrou a arquitectura para um sentido colectivo e de trabalho de equipa, onde o grande esforço é conseguir que nada saia do controlo, torna-se fundamental olhar para a construção pelos olhos da cultura tectónica. «Não pedimos para ser seres eternos. Pedimos apenas que as coisas não percam o seu significado.» Esta citação de Saint Exupéry abre a publicação portuguesa da «introdução e epílogo» desta obra de Frampton, iniciativa de Paulo Martins Barata com a Ordem dos Arquitectos. Mais de 300 páginas ficam pelo caminho, à espera que um «editor decida viabilizar a tradução da obra completa». Frampton «constroi talvez um dos últimos “grandes sistemas” de interpretação da história da arquitectura moderna neste final de século», afirma PMB. E é uma interpretação polémica. Tão polémica que no referido epílogo o bom professor arrisca afirmar: «Não há talvez arquitecto que melhor demonstre o potencial da prática reflexiva que Renzo Piano (...)», rematando a obra com uma citação do engenheiro de Piano, Peter Rice. Um dos dos últimos “grandes sistemas” termina com palavras de engenheiro? Heresia, heresia... LAC

terça-feira, abril 27, 2004

 

gostar

João: gosto do logotipo, não gosto do background. LAC
 

25 de Abril

O ensaio de Vasco Pulido Valente publicado no Domingo, é um daqueles textos que devia constar em todos os manuais de história. Detalhado, direito ao assunto, chamando as coisas pelos nomes. Obrigado, companheiro Vasco. LAC
 

o terceiro éfe

Mais uma vez, o Pedro Mexia diz aquilo que eu gostava de ter dito:

«Passemos a Fátima. O que mudou? Fátima continua um fenómeno, arrasta multidões, permanece atracção turística. Mas, alargando um pouco o conceito de «Fátima», temos de reconhecer que o catolicismo continua invulgarmente beneficiado para o que seria normal num Estado laico. Transmissões na TV pública, bispos nas inaugurações, padres nas instituições estatais, católicos sobrerrepresentados nas matérias «éticas», e muito mais. Isso, paradoxalmente, com o catolicismo cada vez mais em crise, em todos os índices e indícios. Não podemos pois escamotear que nos encontramos atrasados em matéria de laicidade. Com excepção de apoios e benefícios em matérias de interesse público, como a saúde, a acção social e o ensino, o domínio religioso devia pertencer apenas à «sociedade civil», sem nenhum nexo especial com a esfera pública. A religião é, por natureza, dos indivíduos, e só tem trazido maus resultados a sua promoção ou cooptação pelo poder. Esperemos que a revisão da Concordata e outros acertos afastem definitivamente o Estado português do modelo salazarista (aliança com a religião) mas também do modelo francês (contra a religião). Porque nos trinta anos que levamos de democracia o factor a que, por simplicidade, chamamos «Fátima», mudou menos do que seria lógico.»

P.S: Neste artigo, PM usa uma palavra belíssima, que descreve bem o estado do nosso país: questiúncula. LAC

segunda-feira, abril 26, 2004

 

Ao Salmoura:

A frase «ideologicamente» à deriva era uma (ingénua, pensei eu) provocação. Precisamente por ser comunista. Se há atitude que se reconhece nos militantes do partido é a sua coerência. Cunhal teve uma carreira política marcada por essa palavra. Acontece que eu não sou comunista (tal como o Salmoura) embora não esteja assim tão longe da direira que nos governa. E dizer que o comunismo é a única ideologia que se «conhece» nos dias de hoje não é, felizmente, verdade. Dizer que um comunista está «à deriva» é talvez um contra-senso. Como diz o Salmoura, um comunista tem «referências seguras», tem «bússola» e «conhece o Norte». No entanto, e numa visão de quem não vê nada de socialmente justo ou politicamente correcto no comunismo, esse «Norte» não é o mesmo que o meu. E por isso, segundo o meu referencial, qualquer comunista está à deriva. Quis separar a ideologia da obra. Porque a obra, essa, é sublime. Mas não tenho ilusões. A história da arquitectura moderna está marcada por «ideologias» socialistas. Para o bem e para o mal.

P.S.: Agradeço a expressão de «admiração» do Salmoura. Mas aviso-o: expressões dessas podem indicar sérios indícios de «deriva» no que respeita ao reconhecimento da qualidade. Um abraço. LAC

sábado, abril 24, 2004

 

o tal que santana quer para a catedral

A propósito de arquitectos ideologicamente à deriva: o Salmoura fala de Niemeyer. Mas ao bom Oscar tudo se perdoa. Niemeyer tem um talento que permite desenhar um edifício inteiro numa só linha. Curva, como só ele sabe. E graciosa. Simples e cativante. Houve poucos como ele. E haverá ainda menos. Porque o Oscar é um senhor, sempre o foi. De uma simpatia e paz admiráveis. Os grandes de hoje escolhem a arrogância. A história encarregar-se-à do seu lugar. LAC
 

Renzo



Gosto muito da obra de Renzo Piano. Invejo-o. Tem tudo aquilo que alguém pode desejar: uma carreira sólida, um local de trabalho fabuloso, uma equipa de amigos, dinheiro para poder sustentar os vícios (como os 4 barcos), e uma mulher mais nova (eer... ok, talvez não seja politicamente correcto dizer isto, mas que se lixe). O senhor diz-se de esquerda. Mas as contradições são muitas. Primeiro: os 4 barcos. Que raio de esquerdista tem 4 barcos? Não chegava um? Assim à pescador da Nazaré... Depois: a sua ferverosa defesa da cidade tradicional. Cheira-me a impulsos conservadores. Ainda: diz (a propósito da sua relutância inicial em concorrer ao Pompidou) que não acredita num centro de arte gerido pelo estado. Então o que defende? A arte promovida por particulares? Que grande capitalista me saiu este tipo. Ainda mais: o seu experimentalismo arquitectónico não tem reflexo num experimentalismo social, se quisermos. Diz abertamente que tenta inovar na arquitectura, mas que não quer mudar o mundo. E, meus amigos, chegamos ao bottom line: afirma-se (e quem o conhece confirma) um "não intelectual".Ora bem, arquitecto de esquerda que não é um "intelectual" trai a sua condição. Se não tivesse os barcos, bom, ainda se perdoava. Mas definitivamente os barcos deitam tudo a perder. LAC
 

Valmor

Entretanto, foram atribuídos os Prémios Valmor de 1997 a 2001. Uns são mais concensuais: Pavilhão de Portugal (Siza Vieira), Pavilhão do Conhecimento dos Mares (Carrilho da Graça), ou Departamento de Física e Química da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, ao Campo Grande (Gonçalo Byrne). Em relação a 1998, uma grande surpresa: Espaços Públicos da Expo (Manuel Salgado). É a primeira vez que é premiado um projecto de desenho urbano. Avé, ó ilustres membros do Júri. Mas eis que no melhor pano cai a nódoa: o prémio de 2001 vai para (cof... cof...) o Atrium Saldanha (João Paciência e Ricardo Boffil). Não dá perceber. Talvez tenha a ver com a intervenção dos manos Aires Mateus na Almedina. Sim, deve ser isso. LAC

sexta-feira, abril 23, 2004

 

soon, in a computer near you

Quando tiver tempo vou tentar criar uma extensão deste blogue para armazenar e partilhar aqueles textos que são estruturantes do meu (ainda não confirmado, mas há indícios) pensamento. Não são os grandes tratados, nem textos históricos. Serão aqueles ensaios, artigos, críticas, que pela sua capacidade de cativar torna-se imperativo divulgar. E, por favor, colaborem. Mandem os vossos textos-fetiche. Obrigado. LAC
 

Mala de Senhora

Clara Ferreira Alves lançou um livro de contos. O Pedro Mexia faz a sua avaliação. E, pelos vistos, está lá tudo que gostamos em CFA: «A visão do mundo é a de uma mulher madura, cansada e vagamente cínica, desgostada mas também fascinada com a celebridade, os ginásios, os liftings, o consumismo, o adultério, o divórcio, o cartão de crédito, a promiscuidade.» É correr para as estantes. LAC

quinta-feira, abril 22, 2004

 

e com este é o quinto

4 posts seguidos? Não devias estar a trabalhar? Sim, tu. Fosga-se. LAC
 

FPF

Moro perto das «Futuras Instalações» da Federação Portuguesa de Futebol. O edifício está por estrear, vazio. E se a operação «Apito Dourado» correr bem, assim continuará.

Nota: Fátima Felgueiras fez há dias 50 anos. Meio século a servir o povo. Parabéns. LAC
 

indecisões

Escrevi há um mês um texto longo (pelos parâmetros bloguísticos) sobre koolhaas. No dia seguinte reli-o e não gostei. Demasiada opinião, pouca objectividade. Não o postei. Ontem voltei a lê-lo. E, para minha surpresa, gostei do que tinha escrito. E o título era genial (modéstia à parte): R.E.M.. Se amanhã não tiver mudado de opinião, aqui o colocarei. LAC
 

optimismo / pessimismo

A humanidade divide-se em dois: pessimistas e optimistas. Está claro que um criador deve ser, em teoria, um optimista. Senão, cria para quê? É por isto que a arte é geralmente descrita como sendo de esquerda (e acabaram as referências políticas neste post, juro). Eu sou pessimista. Como cristão acho que não há remédio. O pessimismo antropológico tem dois mil anos. Caramba, se nós O matámos! Não tenho qualquer confiança em grupos e multidões. Quando vejo um aglomerado humano coerente desconfio. Pessimista, portanto. Mas, e a arquitectura? Pode um arquitecto ser pessimista? A arquitectura ainda é, como disse uma vez, um meio de nos redimirmos do mundo. Por isso não vou em cantingas: revoluções sociais deixo para outros. Faço as minhas escolhas: Frank Lloyd Wright em deterimento de Corbusier; Fernando Távora em determimento de Teotónio Pereira; Renzo Piano em deterimento de Koolhaas. Politicamente incorrecto? Obtuso? O que quiserem, mas quem não escolhe não sente. E se ambiciono agradar terceiros e tornar a sua vida um pouco melhor, isso nada tem a ver com optimismo. Chama-se humanidade. Mantermo-nos à tona de água. Respirar. Fomentar o sorriso. Porque se nos levarmos demasiado a sério começamos a reparar que o mundo é um sítio de merda. E ficamos rezingões, amargurados. E depois só resta «ir para cima de um monte com uma metrelhadora na mão e desatar aos tiros». Revoluções sociais: naah... LAC
 

geração quê?

Repararam no debate de ontem à noite na 2: sobre o 25 de Abril? Repararam? Repararam nos convidados, à direita e à esquerda? Repararam? Repararam no impecável civismo do Zé Mário Silva e do Pedro Lomba? Repararam? Repararam na postura dos representantes da «outra geração»? Repararam? E depois venham falar-me de geração rasca. LAC

terça-feira, abril 20, 2004

 

A régua e esquadro

O que será de nós agora? O arquitecto ainda é visto como alguém que possui um estirador. Sobre ele se debruça, de mangas arregaçadas, à procura de linhas paralelas, prependiculares, de intersecções. O braço é a medida do alcance. O ombro o centro da circunferência. É um processo extremamente físico, exigente. Ficamos com as costas doridas, com os dedos marcados. O gesto a traço gordo tudo motiva. Ofício de artesão. O som da grafite marca o ritmo.
É claro que pertenço a uma geração onde isto não passa de uma memória quase museológica. O som agora é outro. De percursão. O gesto fica reduzido à área do mousepad. Tudo tem de caber em 17 polegadas (ou 19, ou 21). Também o maquetismo, que ainda resiste e dá tanto prazer, ameaça ser mecanizado, com máquinas de “prototipagem rápida”. Onde nos levará isto? Se no tempo do racionalismo funcionalista do período heróico se reclamava um ser humano de linhas rectas, hoje reclama-se um ser humano sem corpo. Eu, que gosto de corpos (uns mais do que outros), fico apreensivo. E tudo no século XX parece tão rápido. E tão distante.
Estou a marimbar-me para as consequências sociais. Esta é uma perspectiva egoísta. Não sei se aguentarei uma vida ao monitor. Procuro uma solução para este drama. E olho para a “régua e esquadro”. Mas não vejo aí nada de redentor. Sei o que isso produz. Um grande desenho feito à mão é uma conquista fantástica, um motivo de orgulho. Faz parte da realização pessoal e humana. Uma crença nas nossas possibilidades. O que sai da plotter é instantâneo. Um copy/paste ou um delete, com muitos plots pelo caminho, é uma mentira. Ao menos no antigamente conquistávamos qualquer coisa. Hoje tudo está distorcido. Provavelmente para melhor, eu é que ainda não percebi. LAC

 

(não) vale o que vale

Ó Pedro, com votações dessas corres o risco de perder a crediblidade. Esse primeiro lugar é muito manhoso. Já agora, o sítio do silêncio já foi feito. Não sei quem foi o arquitecto. Provavelmente tinha um nome que hoje em dia o faria passar por dissabores em aeroportos. O sítio? A Mesquita de Córdoba. LAC

segunda-feira, abril 19, 2004

 

A Adolescência

A propósito do Parque das Nações. Hoje ultrapassou já a infância, onde tudo é pequeno e controlado. Entrou na adolescência. Umas partes cresceram mais depressa que outras. Está desiquilibrado. Bonito, como os adolescentes sabem ser, mas disfuncional, como os adolescentes são. Quer dar nas vistas, mas faz muitos disparates. Daqui a uns anos tornar-se-á adulto. Mais experiente, menos bonito, com rugas, mas pleno. Esperemos é que nunca morra. LAC
 

Sinceridade

Uma das coisas que mais me merecem respeito numa pessoa é a franqueza na fragilidade. A dúvida sempre me pareceu mais honesta do que a certeza. Quando alguém expõe as suas hesitações capta-me a atenção. O oposto também é verdade.
O exercício da arquitectura encerra em si mesmo uma duplicidade assustadora. É certo e sabido que a elaboração de um projecto é um processo altamente frágil, volúvel. As coisas escapam-nos. Assim mesmo. Grande parte do fascínio reside nesse caminhar no fio da navalha. É uma lenta descoberta dum mundo interior oculto. As referências são sempre inconscientes. Sob o risco da obra se transformar num pastiche. O valor de uma obra reside nesse carácter único, que só pode nascer da sensibilidade humana.
Apesar disto, a arquitectura é também a arte do engano. O que não é tem de parecer. Pelos concursos, pelas apresentações, pela projecção pessoal. Não tenho dúvidas: o grande arquitecto é aquele que se pode dar ao luxo de expôr as suas angústias em público. Querem um exemplo? Manuel Salgado, ao Expresso deste Sábado, sobre o actual estado do Parque das Nações: «a situação revela uma incompetência generalizada e até a minha própria incompetência». Digo-vos: anseio pelo momento em que poderei dizer isto.
Os outros, mais novos, mais inexperientes, mais ambiciosos, só falam de conquistas e certezas. Apregoam a perfeição da sua obra mais recente. Para isso é necessário mascarar todas as dúvidas. O que não é difícil. O ensino da arquitectura baseia-se numa permissa dourada: se não acreditares no teu projecto, quem acreditará? Por isso o projectista é o primeiro a ser enganado. O primeiro que anseia ser enganado. E quando a verdade já não for visível, então o projecto está pronto.
Vi uma vez uma maldade: um aluno apresentava o seu trabalho. Continha uma rotação da malha. Essa rotação não era inteiramente “racional”, não se entendia à primeira. Mas também não comprometia. Funcionalmente o projecto não era afectado. Era assim porque o aluno queria. O problema é que esta verdade não pode ser dita. O professor perguntou a razão daquela rotação. Continuava: «Mas a rotação em vez de ser de ‘x’ graus pode ser de ‘y’?» Apanhado de surpresa o criador responde hesitantemente: «Acho que sim». O professor ria condescentemente, e deixava escapar: «Os alunos não mentem...»
Naquele momento tinha sido exposta uma fragilidade. Que devia ter sido mascarada de facto óbvio, de inevitabilidade, de certeza. E não era difícil fazer essa metamorfose do discurso. Mas a verdade é que aquela rotação era intrínseca. Mas há sempre um outro que precisa de acreditar. E o acreditar numa coisa nunca é objectivo. Contém sempre uma dose de ingenuidade. Que está à mercê para ser explorada. LAC

sexta-feira, abril 16, 2004

 

The Passion of the Gibson

(um texto para os meus amigos)

Um filme de Mel Gibson, depois de Braveheart

Ressalta no filme a sua vertente épica. Gibson não tem rodeios e puxa de todas as armas que tem ao seu dispor de modo a levar cada cena ao limite. A banda sonora é bastante má, pomposa, chegando mesmo em algumas cenas a assumir o protagonismo. Fácil. As já famosas cenas em slow motion são demasiadas. Repetem-se, e repetem-se, até à exaustão. A maior parte delas não funciona, não adiciona nada à narrativa. O beijo de Judas, por exemplo, ganharia muito mais se fosse filmado “a seco”, simples, cruel. E como este há muitos outros exemplos. Gibson parece uma criança que descobriu o manual de cinematografia no sótão lá de casa.

O trabalho de reconstituição de época é impecável. Os cenários escolhidos, as cores utilizadas (repararam na ausência de verde?), o guarda-roupa, tudo está no sítio. Somos, neste campo, transportados até ao início da nossa era.

Os actores: um bom casting. Jim Caviezel é um Cristo sem mácula. Tem uma cara de todos os dias, que lhe confere um anonimato conveniente. Não é o Cristo do nariz grande, nem o Cristo dos olhos azuis. Passa muito bem (no meu imaginário) por Cristo. Maria é competente. É talvez a personagem mais realista, mais depurada, mais simples. É-nos apresentada como mulher e mãe. Sofre mais do que ninguém. Maria Madalena é Monica Bellucci, e disso nunca nos chegamos a esquecer. Chegamos então à minha interpretação preferida: Pedro. Aliás, todos os apóstolos são apostas ganhas. Neles vemos a dúvida, a tristeza, a inquietação, o sofrimento. Pedro lidera. A cena da tripla negação é comovente. É em Pedro que nos vemos. Na sua angústia na negação.

Refira-se ainda uma personagem surpresa: o homem que ajuda Jesus a carregar a cruz (Simão Cireneu). Surpresa devido ao seu peso na narrativa. Uma personagem bastante complexa que contrasta com a unidimensionalidade vigente. Os Evangelhos condedem-lhe uma linha e meia. No filme Gibson trabalha muito bem este homem. Utiliza-o para centrar as atenções na fraqueza humana: primeiro a negação, depois o arrependimento. É o exemplo mais forte de como Jesus mudou a vida de quem tocou.

Quanto à violência há três momentos distintos: a flagelação, o carregar da cruz, e a crucificação. A cena mais conseguida é a da flagelação. Gibson tira-nos as legendas, mas o Latim dos romanos é perceptível. A contagem das agressões carrega um ódio puro. A crucificação perde por ser o último momento do filme. Ou seja, depois do que nos é mostrado, a crucificação (que qualquer espectador espera desde o início do filme) reduz-se a uma inevitabilidade evidente. O espectador já vai anestesiado. Quanto à cena do carregar da cruz, Gibson deita tudo a perder. Sempre que Jesus cai, cai em slow-motion. Era preciso?

Tudo isto faz, na minha opinião, um filme medíocre. Demasiado artificializado para comover. Apesar da violência. O que me surpreendeu. O sangue não dá origem a nada. Cai no chão de pedra para aí ficar.

O Evangelho segundo Gibson

Muitos me tinham dito, apoiados numa pretensa frase do Papa entretanto desmentida pelo Vaticano, que o filme “está como foi”. Que não se desvia um milímetro das escrituras. É verdade. Esse é o grande trunfo do filme: não se trai. Não cai em armadilhas que lhe poderiam valer o desrespeito. O carácter subjectivo e interpretativo. Neste caso, Gibson foi fiel. O problema está na brevidade das últimas 12 horas de Jesus nos evangelhos: tudo é relatado no essencial. Daí para a frente é preencher o vazio. E neste filme há demasiados vazios a serem preenchidos.

Começo com uma divergência de base: se fizesse (e tivesse os meios extraordinários para o fazer) um filme sobre Jesus, jamais seria sobre as últimas 12 horas. Não é esse o centro da Fé, da Sua mensagem (tirando a morte, obviamente). Um filme que dedica 15 minutos à flagelação (único momento onde as legendas desaparecem) e 30 segundos à Última Ceia (em flashback) é bastante honesto na sua pretensão: chocar. Gibson quis abanar a nossa suposta “Fé em adormecimento”. Pôr diante dos nossos olhos o sangue derramado. Mas reduz Cristo ao seu corpo e a umas quantas breves falas de esperança. É pouco.

Um dos aspectos que me afastam completamente da visão de Gibson são as representações do Diabo. Completamente figurativas e ridículas. A figura assexuada que vai fazendo súbitas aparições apela mais ao riso (que de facto presenciei na sala, um grupo de jovens divertidos) do que ao temor. Mas eu posso ser suspeito. O Diabo como pessoa é-me bastante indiferente e alheio. Nada, e sublinho a palavra nada, tem a ver com a minha fé. As outras duas representações de Belzebu são ainda mais patéticas: crianças demonizadas através do seu envelhecimento (que conduzem Judas ao seu suicídio, numa das cenas mais questionáveis de todo o filme); e uma figura animalesca que ruge no canto do ecrã durante um fragmento de segundo. A Tentação não está decididamente bem retratada.

O povo, Judeu e Romano, reduz-se neste filme a uma massa anónima. Sem profundidade, sem dúvida, sem complexidade. Uma voz única. Há, apesar disso, duas ou três manifestações que tentam mostrar a outra face de um Templo condenatório, ou de uma multidão sequiosa de sangue. Mas são desprezadas. Teologicamente desprezadas, pois “fomos nós que matámos Cristo”. E fomos. Mas volto a dizer que me senti mais próximo de Pedro do que de outro qualquer. Em Pedro encontramos uma humanidade tocante. Sendo Pedro a primeira pedra da Igreja, é reconfortante vê-lo bem retratado. A dúvida e a hesitação vêm desde a primeira hora. Simão Cireneu é uma boa descoberta de Gibson. Nos evangelhos, não é mais do que um homem obrigado a ajudar Jesus. No filme assume um protagonismo acertado. Este tem a frase mais fantástica e comovente de todo o filme (e que não se encontra nos Evangelhos). Quando é forçado a carregar a cruz exclama: “Sou um inocente que carrega a cruz de um condenado”. Imediatamente nos assola a verdade dessa cena. Aquilo que constitui a nossa Fé, aquilo que define a Paixão: afinal, somos todos condenados que carregamos a cruz de um inocente. E na morte do Inocente nos libertamos da condenação.

Como católico o filme nada me diz. Como arte religiosa (que afinal é do que se trata) há na História enúmeras representações da Paixão mais comoventes, mais interpelativas, mais fortes, que reduzem esta Paixão segundo Gibson a um objecto simplista. Que explora o corpo. E o mais angustiante é que essa exploração parece não ter objectivo. Mal Jesus sucumbe, Gibson desinteressa-se. Não há mais violência. Não vale a pena continuar a filmar. A audiência está ganha. Basta um close-up de Caviezel ressussitado e corre-se o pano. End of story.

Apesar da minha desilusão, não condeno Gibson. A minha opinião nada vale face a tantas outras que são opostas e que vêem no filme um objecto artístico importante. Fico contente que «The Passion of the Christ» tenha ajudado muitas pessoas na sua fé. A mim não ajudou. Mas isso não interessa realmente nada. Mesmo que Gibson insista nisso, uma produção de Hollywood nunca pode ser vista como um acto religioso. Porque este filme não se confunde com a religião católica. Exemplifico: este Domingo (de Ramos) o evangelho (S. Lucas) descreve este mesmo episódio. No momento da leitura em que Jesus morre, fez-se uma pausa. A assembleia silenciou-se totalmente durante uns segundos. Foi (é-o) uma experiência marcante e decisiva na minha fé; este filme não se aproxima dessa força. Mesmo agora, releio as passagens e não consigo colá-las ao filme. Mesmo que tente.

Conclusão: sinto-me reconfortado por um filme bíblico ter tocado tanta gente, ainda que seja um filme medíocre que contém alusões religiosas com as quais nada partilho. E deixo um pequeno recado aos mais distraídos: leiam o resto da história. É muito mais interessante. LAC

 

Comentários

Os comentários foram. O e-mail é o mesmo, vão dando notícias. LAC

quinta-feira, abril 15, 2004

 

abrandoa

Há nomes que carregam um significado misterioso. São escuros, obscuros, estranhos. Para um Lisboeta a Brandoa é um desses nomes. Onde fica? O que é? Eu já a visitei, numa investida carregada de curiosidade científica e sociológica. Na semana passada, na madrugada de quarta para quinta-feira, um idiota despistou-se no seu desportivo na minha rua e enfaixou-se num poste. Pelo caminho travou conhecimento com a minha estacionada viatura. Anteontem o carro foi levado para reparação numa oficina na Brandoa. O homem do reboque pergunta-me por direcções. Fui sincero: "não faço ideia". Há coisas que não se devem saber. LAC

quarta-feira, abril 14, 2004

 

Marco

O FMA deduziu que o meu post "uma igreja" era sobre Marco de Canavezes. Enganou-se, mas o facto é curioso. Releio agora o texto e talvez pudesse ser sobre a igreja do Siza. Na realidade, a igreja de que falava tem um contexto bastante diferente. Contudo, ao sair, o comentário que fiz foi: «apetece-me dizer o que o Souto Moura disse sobre Marco de Canavezes: tem luz a mais.» As nossas memórias constroem-se sempre sobre sedimentos. Mesmo sem ter visitado Marco de Canavezes a igreja pode ter influenciado o meu olhar. E isso é assustador. LAC
 

Indígenas

Confirma-se mais uma vez que os colaboradores do Independente aderem em força à blogosfera. Agora, e para nosso gáudio, chegou a vez do Paulo Pinto Mascarenhas. LAC
 

Pouca coisa

Semana de poucos escritos. A próxima não se adivinha melhor. Mas este espaço continua, com o mesmo entusiasmo de sempre. Para os próximos dias fica prometido um texto sobre a Brandoa. Isso mesmo, a Brandoa. LAC

terça-feira, abril 06, 2004

 

uma igreja

Ontem visitei uma igreja. Atitude apropriada na semana que vivemos. Mas fui lá ver o edifício. Apresentava-me em traje desportivo, suado até ao tutano. Entrei com um amigo durante a celebração eucarística (tambem ele não estava apresentável). Mas que diabo, ver uma igreja sem saborear a sua luz interior é uma enorme desonestidade.
Desenhar uma igreja é tudo o que um arquitecto pode desejar. Pura manipulação do espaço. A escala, a luz, a materialidade, o silêncio, Deus. Tudo é livre e contudo tão condicionado. Desenhar uma igreja passa pela descoberta da solução para um belo enigma: como desenhar um espaço duplo? Por um lado terá de ser um local de festa, de reunião, de música, de comunidade; por outro tem de ser exactamento o contrário quando vazio: calmo, misterioso, interior, acolhedor. Deve poder oferecer cantos e recantos de oração; deve ser um espaço único e uno de adoração.
Esta igreja era branca. Quase totalmente branca. Expressiva e quieta ao mesmo tempo. Jogava de um modo sereno com os elementos arquitectónicos. A parede curva, o espaço que deixa a luz entrar, as simbologias. A entrada situava-se inteligentemente sob a torre sineira. Sim, porque tinha uma torre sineira, simples, icónica, chamativa.
Devido ao nosso mau aspecto não permanecemos lá dentro muito tempo. Uma fugaz espreitadela. Reagi dizendo que talvez houvesse luz a mais, talvez devido à brancura. Mas sou suspeito: gosto de igrejas escuras, onde a(s) luz(es) ganha(m) um protagonismo central. Nessa igreja o protagonismo era do vazio, o vazio celebrativo.
Foi uma visita apressada. Mas o suficiente para gravar aquela obra na memória. Uma obra-prima? Não, mas um bom sítio para ficar. E a isso deveria aspirar toda a arquitectura. Ser capaz de com apenas uma rápida passagem convidar à permanência. LAC
 

outros tempos (?)

Por uma conclusão bem natural, a ideia de Civilização, para Jacinto, não se separava da imagem de Cidade, de uma enorme cidade, com todos os seus vastos orgãos funcionando poderosamente. Nem este meu supercivilizado amigo compreendia que longe de armazéns servidos por três mil caixeiros; e de mercados onde se despejam os vergéis e lezírias de trinta províncias; e de bancos em que retine o ouro universal; e de fábricas fumegando com ânsia, inventando com ânsia; e de bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos séculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telégrafos, de fios de telefones, de canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante dos ónibus, tramways, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões de uma vaga humanidade, fervilhando, a ofegar, através da Polícia, na busca dura do pão ou sob a ilusão do gozo – o homem do século XIX pudesse saborear, plenamente, a delícia de viver!

A Cidade e as Serras, Eça de Queiroz, ed. Livros do Brasil (29ª edição), pág. 19, livro comprando numa banca de feira nas Amoreiras, 3€, páginas ligeiramente amareladas. LAC

segunda-feira, abril 05, 2004

 

Epifania

As preocupações ambientais serão determinantes neste século. No nosso século. Construir passará a ser uma responsabilidade ecológica. O consumo energético terá de ser controlado.
O Carrilho da Graça acaba de desenhar um edifício para a BRISA que tem uma fachada apresentando uns valentes painéis fotovoltaicos; no Público há uns dias, uma notícia revelava um facto alarmante: estamos a viver um período de extinções em massa. Só houve 4 ou 5 na história do planeta. Diziam uns invetigadores britânicos que no último século (ou década, ou anos, ou sei lá) desapareceram da terra 50 ou 60% das espécies (animais ou vegetais ou as duas também não me lembro); e vi um gráfico que dizia respeito aos edifícios classificados pelo LEED nos últimos 5 anos: em 1999 cerca de 5, em 2003 umas largas centenas.
Caminhamos para um ponto limite. Chega de agressões ao nosso planeta. É que, porra, em Marte faz muito frio. LAC

 

Bertrand da Garrett vs. FNAC do Chiado

K.O. no primeiro round.
Dirigi-me numa solarenga tarde para o Chiado. Ia à procura de qualquer coisa. Não sabia bem o quê, ela desvendar-se-ia. Entrei na Bertrand, percorri o espaço apertado até chegar à secção de arquitectura. É um canto metido lá ao fundo, com pouco espaço. Tirei um livro da estante, tirei uma revista. Dei por mim entalado rodeado por pessoas. Um indivíduo de cabelo amarelo-esverdeado encostou-me às boxes. Incomodei-me. Saí porta fora procurando oxigénio.
Passados uns minutos saía da FNAC com uma monografia da obra de Manuel Graças Dias e Egas José Vieira (24,79€), com um texto do Manuel Vicente a abrir. Uma coisa roxa, com um grafismo bastante banal, nada pretencioso.
Voltei a pé para casa. LAC

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