O PROJECTO

Contribuições, insultos, projectos de execução, mas principalmente donativos chorudos para:

blog_oprojecto@hotmail.com (com minúsculas)

sábado, julho 31, 2004

 

Aceitam-se sugestões

«Preciso de um arquitecto que seja um bom comunicador, que cative desde a juventude até à terceira idade, e que tenha um discurso (e trabalho) que faça a ponte com a ciência.» Acrescento que o arquitecto devia ser «um dos grandes» e português. A verdade é que ficámos todos a olhar uns para os outros, sem saber o que responder, lançado nomes sem convicção: «esse não, esse também não».

 

sem sal

Pois, Lutz, mas há aí muito boa gente que apenas apregoa o «valor nutritivo» da sua obra, acrescentando que ela «não provoca indigestão». E dizem-no alto, para todos ouvirem.

 

Quando se juntam dois ou três

Ontem, já a madrugada ia alta, discutia-se, os ânimos exaltavam-se, as vozes sobrepunham-se, berrava-se, lançavam-se impropérios, trocavam-se insultos. Os lados extremaram-se. O sangue corria quente. A voz falhava de rouquidão. Mais dois minutos e acabava tudo à estalada. O motivo? Siza, e os terraços de bragança (mas também o Chiado, o Pavilhão de Portugal, a Malagueira, Marco de Canavezes, Leça, etc...)

quinta-feira, julho 29, 2004

 

A máquina de emocionar

Le Corbusier apelidou em tempos, durante um ataque de loucura ainda hoje por explicar, a casa como uma «máquina de habitar». É claro que a contradição dos génios faz perdoar todos os devaneios, pois quando definiu o Purismo a máquina já não se habitava: a máquina emocionava. Aqui penso que esteve mais perto da questão que interessa. Se pensarmos bem não há outro objectivo que o arquitecto persiga. Tudo com jogos de cintura para fazer acreditar que é a satisfação do cliente a meta a atingir. Nada disso, como sabemos. Todas as paredes traçadas; todos os vãos abertos; todos os ângulos previstos só têm como finalidade a emoção primitiva do futuro utilizador. Aliás, chamar utilizador ao habitante é um bom espelho do estado da arquitectura actual. O utilizador, como em user, e então Corbusier poderá ter tido razão antes de tempo. Voltando ao cerne de toda a problemática: um edifício que não emocione não serve. Não me serve, mas perdoem esta minha obsessão de observar o mundo através dos meus olhos. Em vez de «utilizador» deveríamos usar a palavra «espectador». Politicamente incorrecto, levantaram-se já as vozes da razão. A arquitectura não se vê, vive-se. O truque consiste em tornar a «vida» num fenómeno inteiramente estético. Como? Transformando algo tão bruto e agressivo como a construção em momentos de verdadeira revelação, quando a respiração nos atraiçoa e o batimento cardíaco perde o passo.

 

Dizem-me que lá fora o sol brilha (5)



(o azul e branco, os desenhos apresentados como se de folhas grandes e soltas se tratassem, a falta de ordem na disposição: tudo uma tentativa de viver na ilusão de outro tempo, o tempo que ainda habita a minha ideia)

 

A caricatura e o subtil

Uma criança quer do mundo o contraste e o exagero, daí o fascínio pelo palhaço rico e pelo palhaço pobre. Mais tarde a criança já não gosta tanto dos palhaços e prefere o ilusionista. Em adulto, o ilusionista já não produz o mesmo efeito balsâmico: o cinismo toma conta do seu espírito. Desenvolve-se uma relação com a subtileza. Prefere o sorriso à gargalhada. Mas para aí chegar precisou de educação. A nossa relação com a arquitectura ainda se baseia no palhaço rico e no palhaço pobre. A ironia e a subtileza não são apreciadas. Venham as caricaturas.

 

mea culpa

Há já algum tempo que percebi a minha tendência para complicar. Eu diria atracção pela complexidade, mas isso seria apresentar um defeito como virtude.

 

so it seems

Entretanto correm rumores que passarei a partir de amanhã a ver o sol brilhar.

 

e=mc2

O desespero apodera-se facilmente de uma mente minimamente sã quando se percebe que tudo poderia ser diferente.

quarta-feira, julho 28, 2004

 

É tudo a mesma coisa

Afinal, foi um "lapso" de Pedro Pinto. O casino vai afinal para o Pavilhão do Futuro. Já agora, Mário Assis Ferreira, continuam com a ideia dos "jogos de água"?

 

O Pavilhão da Realidade Desvirtuada



Lembro-me que já tinha ouvido falar na demolição do Pavilhão da Realidade Virtual. Uma das poucas obras de Manuel Vicente em Portugal, é um edifício com uma história cicatrizada. Começado a construir muito tarde, sobre um projecto também ele sem o devido tempo, deixou pelo caminho a ideia de um «betão transparente», pois não estava homologado. Ainda assim, é um objecto intrigante e divertido. Arrisca uma expressão arquitectónica pouco consensual, gestos de gosto nada ocidental (as «bolas» que pontuam a aresta). Mal acabou a exposição começou a ser maltratado. O seu interior todo alterado à revelia do projectista. Talvez não seja assim tão grave, já que o pavilhão sempre foi uma «caixa» para pôr lá alguma coisa dentro. No caso da exposição, a coisa era um equipamento de diversão, que chegou em caixotes pronto a montar. A obra estava esquecida, como esquecido está o seu autor. A hipótese de demolição apagaria um dos poucos vestígios da obra de um dos mais singulares arquitectos portugueses em território nacional. Mas, e considerando bem a alternativa, seria a saída mais nobre. A instalação do casino destroi sem demolir. Não deixa de ser irónico: o casino acaba (será?) num edifício desenhado por alguém «de Macau». Estou para ver as «obras de adaptação».


terça-feira, julho 27, 2004

 

Dizem-me que lá fora o sol brilha (4)


 

efv

Novo link: «Estou aqui, sozinho, a querer escrever alguma coisa.»
 

«In place of a hermeneutics we need an erotics of art»

«None of us can ever retrieve that innocence before all theory when art knew no need to justify itself, when one did not ask of a work of art what it said because one knew (or thought one knew) what it did. From now to the end of consciousness, we are stuck with the task of defending art. We can only quarrel with one or another means of defense. Indeed, we have an obligation to overthrow any means of defending and justifying art which becomes particularly obtuse or onerous or insensitive to contemporary needs and practice.»


Susan Sontag, Against Interpretation (1966)

 

O belo e o sublime

são, obviamente, o que de mais impronunciável pode existir.

 

Impronunciável

Folheio revistas e publicações da especialidade. Vejo imagens de sedução, de mero prazer, de manipulação da côr, de paredes sem sentido. A ser objectivo, dir-se-ia que tudo não passa de «arquitectura de revista», onde o sonho cabe no formato editorial. Mas continuo a passar os olhos por estas páginas e não consigo evitar um «porque não?» Não encontro razão para que a arquitectura não seja feita de caprichos e manias incontroláveis, de desejos sem explicação, que ficarão sempre por explicar à falta de palavras. Talvez seja esta a questão: nos últimos anos a arquitectura colou-se demais às palavras, ao argumentos, ao raciocício, à lógica. Pretendo um regresso à arquitectura impronunciável. Se possível que radicalize posições. No fundo, o que pretendo é o fim da crítica. Que não seja possível escrever sobre arquitectura. Que não seja possível manter um blogue sobre arquitectura. Que não seja possível capturar através da fotografia as sombras que se projectam nas superfícies brancas. Declaro o fim de toda a argumentação espacial. É melhor parar por aqui, mais cinco minutos disto e declaro o fim do blogue. E isso é que não pode ser.

segunda-feira, julho 26, 2004

 

off

A alternativa são paredes grossas, com uma elevada enércia térmica. Desajustada mesmo. Como a Igreja do Sagrado Coração de Jesus (Teotónio Pereira com Nuno Portas). A diferença de temperatura é tal que o arrepio deixa dúvidas sobre a sua origem. Isto não se transmite pela fotografia. O corpo é que paga. Graças a Deus.

 

on

Nestes dias de calor imagino os trabalhadores daqueles edifícios que, por desejo e capricho do arquitecto, são «todos em vidro». E o ar condicionado bufa, e bufa, e bufa.

 

O outro e os outros

O outro é o cliente. O outro porque é estranho e exterior. De outro mundo, desconhecido, fala outra linguagem. Os outros são os outros, os pares, os mesmos, os semelhantes. Se é para o outro que se trabalha, é para os outros que se projecta. Mas o que o outro pretende não agrada aos outros. E o que os outros pretendem o outro não paga. Gregos e Troianos? Não. É muito mais difícil agradar ao outro e aos outros.

 

recado

A arquitectura de qualidade surge quando percebemos que há algo mais do que a «organização dos espaços», a «definição das circulações», a «articulação do programa». Se percebermos isto, percebemos tudo.
 

largo do rato



Entretanto, chegou também à redação do blogue a divulgação deste projecto (que não conhecia) de Frederico Valsassina com Francisco Aires Mateus para o largo do Rato. Duas notas: (1) parece-me bastante mais Aires Mateus do que Valsassina; (2) isto interessa-me porque é ao lado de casa. Por isso, força. Fico à espera.

domingo, julho 25, 2004

 

Está bonito, está

O Vital Moreira vai de férias e logo se aproveita o Luís Filipe Borges para pôr gajas no Causa Nossa. Ó Luís Filipe, não queres passar também pelo Abrupto?

 

grandes males,

Quando vejo este tipo de coisas (ver abaixo, sff) apetece-me rapar o cabelo, deitar todos os sapatos pela janela, tornar-me vejetariano, e ir habitar um minimal qualquer do Mies.

 

foda-se, isto é mesmo mau



Pois, err... bom, o que eu quero dizer é que... isto é, na perspectiva de que não... não é bem isto, esperem, é só que... não, eu sei que ele é maçon, mas acho que não tem a ver... o que eu quero dizer é que a arquitectura... pois, mas qual arquitectura?... sim, qual arquitectura... bom a análise não se deve basear unicamente na imagem... por certo há aqui parâmetros de qualidade que não saltam imediatamente à vista... isto é, tem de haver não é? não é?... é do Troufa Real, eu sei, não se deve esperar muito, sim... mas há limites, ou pelo menos eu acho que há limites... se isto é uma merda? é um modo de pôr a questão, mas não sei se será o mais indicado... o Troufa é pateta? não, nem pensar... mas é um modo de abordar a coisa, sim... é cómico? humor? talvez haja espaço para uma arquitectura de humor... ou talvez não... o meu mal deve ser sono... coitado, deve ter tido boa vontade... só tenho pena dos fiéis do restelo...

sábado, julho 24, 2004

 

Terei eu lido bem?

«Regressamos agora.» Parece que sim. E o panamá dá jeito para esta onda de calor. Quarenta graus à sombra. Puta do Saara.

 

Massive attack

A arquitectura deve ser divulgada e criticada nos grandes meios de comunicação? A resposta é óbvia. Sendo a mais pública das artes, a arquitectura é no entanto a que menos atenção recebe por parte dos media. O relatório de 2001 levado a cabo pelo National Arts Journalism Program, THE ARCHITECTURE CRITIC, A Survey of Newspaper Architecture Critics in America, fez o levantamento da situação americana para chegar a algumas conclusões interessantes. Vale a pena dar uma olhada. Percebe-se que a sociedade não tem a possibilidade de acompanhar regularmente a crítica de arquitectura. É claro que, como diz Tschumi no relatório, há dois tipos de crítica: a crítica para arquitectos, erudita e codificada, e a crítica para os mass-media, mais popular e acessível. Ainda assim, sendo a arquitectura uma actividade pública, não se percebe que não haja nos jornais uma aposta séria na sua divulgação. Em Portugal a situação é o que é. Que me lembre, só o Público (Jorge Figueira, Ricardo Carvalho, e Ana Vaz Milheiro) e o Expresso (Manuel Graça Dias e José Manuel Fernandes) oferecem, semanal ou quinzenalmente, crítica e divulgação arquitectónica. É muito pouco para uma arte que se quer em paz com a sociedade. E esta falta de discussão leva, como também alerta Tschumi, para uma simplificação excessiva, levando tudo para o campo da aparência e do estilo. Pois.

sexta-feira, julho 23, 2004

 

E já agora gostava de ver isso construído

Caro João,

A referência ao Manuel Vicente era inevitável. Não a fiz para não ser repetitivo. É dele a atitude anti-propaganda, o elogio do genuíno, desse mundo nada liso, nada branco, nada limpinho. A sua arquitectura é forte por isso.  Falo por experiência própria: a primeira reacção que tive às piscinas, através de uma fotografia do Expresso, foi de repulsa. As da Outurela, que bem conheces. Vi a pequena foto do edifício torcido côr de salmão e não me atraiu. Depois li «Manuel Vicente» e li o texto do Graça Dias. Voltei a olhar para a fotografia e já o fiz com outros olhos. É a grande vitória da arquitectura, quando o segundo olhar surpreende. Essa arquitectura de revista, das «projecções 3D», esgota-se no primeiro olhar. Escusado será dizer que quando visitei o edifício o fascínio foi completo. Mas adiante que o assunto não é este. Admiro essa tua atitude e reconheço que não conseguirei igualá-la. Escolho o caminho mais fácil. Sei que as imagens devem ser limpinhas. Tento que isso não atrapalhe nem condicione. Dizes que as maquetes são «(a)bstractas para quem não conhece nem o projecto nem o processo». Mas João, quem para além de ti conhece o projecto e o processo? Quem o conhece verdadeiramente? Temo que a nossa envolvência num projecto nunca seja partilhada. E então, at the end of the day, o que se comunica é sempre parcialmente mentira. Essas maquetes rejeitam essa mentira e dizem, de pulmões abertos, o que são. Quem gosta, gosta, quem não gosta, não gosta. E acabou. Nesse sentido são hARDcORE. Oh, se são.

P.S.: É claro que já tinha percebido que o blogue serve para impressionar as miúdas. Julgas que ando a dormir? Também tenho um blogue, sei bem o que a casa gasta.

 

O meu encontro com Carlos Paredes

Foi por acaso, como a maior parte das coisas que nos ficam na memória. Andava pelos corredores do lar, em Campo de Ourique, por entre velhos que só precisam de um ouvido para onde falar. Uns mais excêntricos, outros mais recatados. «Querem visitar o Carlos Paredes?», disse a enfermeira que nos acompanhava. Até esse momento, não sabia que ele lá estava, não sabia qual a sua condição, não sabia que estava vivo. Carlos Paredes era um nome, um nome que se tinha deslocado da pessoa para a guitarra. Nesse dia estive junto à cama de Carlos Paredes. Deitado de barriga para cima, muito direito, imóvel. Olhos fechados, um nariz enorme, uma pose intimidatória. Estava vegetal. Não reagia a nenhum estímulo. Apenas um pequeno rádio, que tocava conformado, como quem cumpre uma rotina necessária. «É a única coisa a que ela reage», dizia sobre Carlos Paredes. Naquele momento ficou a dúvida sobre a veracidade da afirmação. No fundo todos queríamos acreditar que o Carlos Paredes não se tinha tornado indiferente à música, a sua vida, apesar de tudo. Parecia sereno. Foi difícil ver alguém que construiu uma fama merecida à custa de um talento físico, os dedos ágeis sobre os trastes, reduzido a um estado de imobilidade transcendente. Um mito à minha frente, vivo, doente. Frágil. É comum dizer-se nestas alturas que «não merecia». Então as atenções viram-se para o pequeno rádio. E lança-se um desejo. Que Carlos Paredes se tenha desprendido do seu corpo, deixado a sua carne e ossos deitada sobre a cama, e que tenha ido ter com o pequeno rádio, fundindo-se no ar com as ondas sonoras. Pura música, sem o cansaço do frágil corpo. Como sempre terá desejado. Naquele dia, há quatro anos (ou cinco talvez), saí do seu quarto convencido de que a música realmente se tinha apoderado totalmente de Carlos Paredes, roubando-o ao mundo.

quinta-feira, julho 22, 2004

 

What's he building in there?

As maquetes do João dão um belo post, pensei. Há na sua publicação on-line uma atitude surpreendente. As imagens que nos são oferecidas são a antítese da imagem arquitectónica. As maquetes não estão acabadas, são rudes, com traços de lápis que denunciam a linha de corte no cartão. São absolutamente abstractas, adivinham-se dois pisos, mas nem por isso a escala se denuncia. Vê-se arquitectura ali? Uma procura intensa pelo genuíno, mandando à fava tudo o resto, mandando realmente tudo a fava com a exposição total das fotos. São maquetes autistas, para serem vistas apenas por quem as fez, e que, num passo desconcertante, aparecem aos olhos de todos como um work-in-progress explícito. A cola escorre por sítios indevidos. Como os pensamentos que julgamos privados, como a gavetas das meias que nunca se arruma, aquelas maquetes são um instrumento, apresentadas como objecto, mas que ninguém se iluda. São o ventre do paciente eviscerado durante a cirurgia. Ao olhá-las afasto-me da arquitectura que representam e centro-me na sua essência. Ao olhá-las oiço a lâmina a furar o cartão e sinto a cola a escorrer nos dedos, a colar-me a ponta do indicador com a barriga do polegar. O que se quer expôr é o processo. Nunca é limpo. Nunca é bonito.


 

e ao terceiro dia...

Todos os dias há quem descubra esse fenómeno conhecido por blogosfera, infame agrupamento de diários virtuais. Todos os dias, alguém decide que «é desta». E abre um conjunto de sítios, aqueles que ouviu falar, mais mediáticos, mais conhecidos. Gosta, não gosta. A decisão de voltar não é tomada nesse instante, antes acontece uns dias depois, quando cresce a curiosidade pela falsa invasão de privacidade, num devassar da consciência de alguém que não se conhece. Todos os dias, a blogosfera conhece pessoas novas. Se possível, e ao contrário de Caná, o melhor servir-se-ia no início, para causar a melhor impressão possível, pois é sabido que uma primeira imagem errónea pode deitar tudo a perder. E se esse momento chegasse, quando um blogue serviria de cartão de visita selado em qualidade, usado de modo a mascarar todos os pecados de um mundo, eu sei onde mandaria quem a mim viesse pedir indicações. Serve este post para respirar de alívio. O Memória Inventada afinal não morreu (a ressuscitação é outra história.)


 

Prostituição de luxo

Passo por "novas moradias de luxo", com um nome qualquer que ninguém fixa, e vejo-as quase prontas. O cenário não surpreende. A qualidade é zero. De luxo os materiais; de luxo os acabamentos; de luxo a área; de luxo o preço; de lixo a arquitectura. Não questiono a questão do gosto. Dizem-me, convictamente, há quem goste. E o arquitecto, qual animal amestrado, responde pavlovianamente ao "gosto". Mas nestes casos não há arquitectura. Há arquitecto? Certamente, mas não há arquitectura. As pessoas têm uma mania incompreensível para achar que a arquitectura é tudo o que é feito por arquitectos. Mas porquê, senhores? Estas "moradias de luxo" não são mais do que pastiches sem vergonha. Reflectem uma apropriação de elementos de um modo pornográfico. Há um impulso (o "gosto") que é directamente satisfeito. O arquitecto torna-se num chulo. Vende-se e vende os outros. Pelo caminho fica, obviamente, a arquitectura. Não me altero. Sei que deve ser assim, para o bem de todos. Aliás, sou a favor da legalização da prostituição. Seria incoerente criticar estas "moradias de luxo".

quarta-feira, julho 21, 2004

 

"A Capital" não sabe o que diz

O jornal A Capital voltou a meter a pata na poça. Depois da triste figura sobre o anúncio da convocação de eleições antecipadas, que o jornal vendeu como certo, Luís Osório publica hoje uma notícia que não corresponde à verdade:

«O director de Comercialização da Parque Expo demitiu-se na sequência de um inquérito interno despoletado por uma notícia de A Capital que denunciou a colocação, no mercado livre, do Pavilhão de Portugal por uma mediadora imobiliária.»

Que fique bem claro: o director de Comercialização não apresentou a sua demissão devido a este facto, nem é sua a responsabilidade da colocação no mercado do Pavilhão de Portugal. Um pouco mais de vergonha, senhor Luís Osório.
 

geração (com uma lágrima no canto do olho)

Eram uma vez os três, os famosos moscãoteiros
do pequeno Dartacão sempre companheiros;
os melhores amigos são os três moscãoteiros,
quando em aventuras vão, são sempre os primeiros.

Quando eles vão combater já não há rival algum,
o seu lema é um por todos e todos por um.
O amor de Julieta é o Dartacão,
ela é a predilecta do seu coração.

Dartacão Dartacão
correndo grandes perigos
Dartacão Dartacão
persegues os bandidos
Dartacão Dartacão
e os três mocãoteiros, que longe vão chegar
Dartacão Dartacão
és tu e os teus amigos
Dartacão Dartacão
em jogos divertidos
Dartacão Dartacão
e os três moscãoteiros a lutar.


 

Digam-me que isto não é verdade

Assim que tomou posse, no sábado, o social-democrata rumou ao Bairro Alto, entrou no gabinete até então de Arlindo Cunha, e começou a colocar tudo o que dizia respeito ao Ambiente porta fora, isto é, para os corredores. Na segunda-feira, Nobre Guedes arriba à Rua do Século e descobre que tem de se amanhar com um dos gabinetes antes ocupados pelos secretários de Estado. Até ontem, estava sentado à secretária que já foi de José Eduardo Martins.

terça-feira, julho 20, 2004

 

shame on you

Há dias pus em causa a minha imagem perante estranhos ao insultar sem dó nem piedade Michael Moore em voz alta, argumentando que esse senhor partia de meios factos para os interpretar deturpadamente, chegando à conclusão que os EUA não são melhor do que o Iraque de Saddam. A minha vergonha continuou, pois do outro lado ouviu-se um «e às vezes são». Nesse momento percebi que me tomavam por um louco. E quando tentei explicar que os EUA são o país mais democrático do mundo, pois nunca viveram um segundo fora da democracia, ouviu-se do mesmo outro lado: «isso é um pouco fascista». Calei-me, vergado às evidências. Stupid white men.

 

Sing me something new

Debaixo das críticas do TC está também o concurso de ideias para selecção do projectista da Casa da Música - que viria a ser o holandês Rem Koolhaas - que não foi "legal nem transparente". É que, sustenta o relatório, o concurso não terá salvaguardado "os princípios da concorrência, igualdade e estabilidade das regras".



 

Popstar



E é isto que se ouve por estes lados. São três álbuns de estreia: Franz Ferdinand e o álbum homónimo; Maroon 5, Songs for Jane; e Scissor Sisters, também com um álbum homónimo. Qual é a grande coisa? Sempre que os oiço apetece-me dançar. Acreditem: isso é uma proeza. 

 

Corporativismo

Claro que concordo com estas palavras do Daniel. O Crítica de Arquitectura não acertou no tom. Quer ter graça mas não consegue. O problema é que já não percebo se querem mesmo ter graça ou simplesmente lançar provocações vazias. Vejamos: apesar do nome, não se leu ainda nenhuma crítica de arquitectura. Abordou-se muita coisa em pouco tempo: os arquitectos, as escolas, as atitudes corporativistas, os gémeos siameses. Mas, e a arquitectura? Porque a única motivação que vejo para que "leigos" fundem (será correcto o plural) um blog sobre arquitectura é a sua paixão pela coisa. Não um ressentimento qualquer pela classe, como parece transparecer. Ou uma vontade de contar piadas (como a ortografia dos nomes). Assim, um conselho: mostrem mais a vossa paixão pela arquitectura. Se é que a têm.
 

a ler

«Juventude», no Aviz. Obrigatório.

segunda-feira, julho 19, 2004

 

Porque não sou de esquerda:

Mesmo deplorando a atitude dos seguranças, totalmente descabida, sou incapaz de exibir um «sorrisinho sádico» ao ver um deles ser espancado quase até à morte. No blogue da Periférica já se tinha alertado para isto: o BdE anda mal. Este post nunca poderia ter sido escrito pelo José Mário Silva.

 

A função da pala

Nos cometários ao último post, «A cena», levantou-se uma discussão interessante. Podia participar com um comentário mas acho que merece um post. O post era sobre fotografia, não sobre arquitectura. Mas como abordava um dos símbolos arquitectónicos contemporâneos (o edifício e Siza também, que parece ser alvo fácil das críticas, nos dias que correm) a discussão centrou-se na arquitectura. São feitas duas críticas distintas: (1) o edifício não tem "função"; (2) e sobrevive à custa da pala, pois o resto não tem valor. Subscrevo o que disse o Nazgul por inteiro (vão lá ver). Só queria acrescentar uma coisa: o facto de o edifício estar desocupado nada tem a ver com a sua arquitectura. Aliás, Siza sempre alertou para o perigo de se estar a construir um edifício sem função definida, pois foi isso que lhe foi pedido. Quanto à pala, é óbvio e evidente que é o elemento preponderante do gesto. É um projecto de engenharia fabuloso e merece todo o destaque. A opção foi claramente construir um espaço público já que o programa era indefinido. E isso foi um sucesso. Basta ver as enúmeras cerimónias públicas que lá se desenrolaram.

sábado, julho 17, 2004

 

A cena

A lente deforma sempre. E quando não deforma, quando o material se apresenta "perfeito" pois não produz variações perspécticas, então deforma à mesma pois não produz um resultado natural. O olho humano deforma. A lente também. Mas de modos diferentes. A mudança de escala através da manipulação da perspectiva induz ao erro e ao preconceito. A perspectiva controlada contribui para o dramatismo de uma cena. De uma cena, pois é disso que se trata. A composição fotográfica é uma actividade cénica. Prepara com antecipação, estuda, respira calmamente.  Neste campo, a fotografia de arquitectura é específica. Não há o "instante decisivo". O acaso não é para aqui chamado. A fotografia de arquitectura é extremamente encenada.
O Pavilhão de Portugal, de Siza Vieira, foi o último grande monumento construído em Portugal. O grande símbolo da viragem do milénio. A sua imagem é "moderna"? Nem por isso. Este edifício faz-nos sentir pequenos, como qualquer monumento que se preze.  O salto de escala que dá reduz o homem. O enorme espaço coberto é quase impossível. E a fotografia facilmente empola o facto. Nesta imagem, através da peerspectiva e da insinuação do ponto de fuga, a exaltação do contraforte acentua o carácter de monumento. Acentua a vertente escultórica e abstracta. A sugestão metafísica do edifício é ajudada pelo céu. Raramente se publicam fotografias de arquitectura sem sol. O céu azul e a luz são condições quase obrigatórias. Neste caso isso é substituído por um céu ameaçador e carregado. Sente-se  a presença do "deus da chuva", ou de uma força do alto. O edifício estica-se, impõe-se, fica de pé. Luta com os céus. E lá ao fundo os homens parecem pequenos. Pequenos demais.
 





 

Nunca pensei

viver num país onde Nobre Guedes fosse ministro. Pronto, já disse. (E os meus amigos perguntarão porque maldigo a direita, quando na esquerda há muito pior? Eu respondo trazendo à baila um coisa chamada "exigência".)

sexta-feira, julho 16, 2004

 

Vou ali dar um mergulho

A teoria é simples e não tem nada que se lhe diga. Quais são, na Europa, as únicas capitais que distam da praia, digamos, uns poucos minutos de carro? Vá lá, não é difícil. E agora, quais são os dois países que disputam o lugar de "cauda da europa" (antes dos 25)? Está a falar-se dos mesmos países. Coincidência? Nem pensar. Evidência.

 

Desculpem, sempre quis fazer isto

Isto é uma taveirada completa.

 

O defeso

Agora já se pode escrever às cores aqui. Acho que isto não serve para nada, mas apeteceu-me experimentar. Ah, o título do post é sobre os novos ministros. Apresentados como se de star players se tratassem. «Só sei o que vem nos jornais, o meu empresário não falou comigo», parecem dizer os ministriáveis.

quarta-feira, julho 14, 2004

 

Monty quem?

O Gato Fedorento anunciou e está a cumprir. Um regresso em força. Benditos sejam.
 

Coça-me as costas

A arquitectura de facto morre. Ou renasce. Mas será certamente uma experiência diferente. A fotografia é como um adolescente irrequieto. Não é capaz de fazer aquilo que lhe pedem. É demasiado cheia de si. Pedem-lhe para capturar um edifício, para explicar uma obra. Ela, sorrateiramente, finge que é isso mesmo que faz. «Olha», parece dizer, «aqui está o edifício que me pediste». Mas o processo foi subversivo. Pegando na encomenda trasnforma-a para a sua glória. A fotografia tem de ser, antes de mais, uma obra de arte. Não cede a outra forma de arte, se a arquitectura pode ser assim chamada. No duelo entre rivais, a fotografia leva sempre a melhor. É isso que ela pensa, orgulhosa.
Mas não sabe que a arquitectura, mais velha e experiente, já cá anda há muito tempo. A arquitectura parece reduzir-se no positivo, na reprodução. A fotografia parece ganhar o pódio. Não é isso que se passa. A arquitectura manipula o fotógrafo. Este, ao descobrir um ângulo surpreendente com uma luz mágica, exclama em exaltação «eureka!». Como um rato que descobre o queijo na ratoeira. Como uma aranha, a arquitectura teceu a sua teia. A presa é fácil. O objectivo é atingido.
Os anos passam e tornam-se amigos. São hoje cúmplice no mesmo crime. Assumem isso, sem rodeios, como dois velhos que desistem de implicar um com o outro. Para fora vão dando sinais de algum desconforto mútuo. «A arquitectura subjuga-se à imagem», ouvem-se os velhos do restelo, bramindo contra a perda de autenticidade. «Não pode ser, a arquitectura corre risco de vida». No fundo já ninguém se escandaliza. Os níveis de exigência baixaram, baixam continuamente. A pobreza mascara-se e a fotografia redime-a. A arquitectura tornou-se preguiçosa. A fotografia reparte as culpas no cartório. Toda a gente assobia para o lado. «There is nothing to see, there is nothing to see.»
 

Rem, estás a ouvir?

«A great architect is not made by way of a brain nearly so much as he is made by way of a cultivated, enriched heart.» FLW

terça-feira, julho 13, 2004

 

O canto do cisne

A arrogância de quem se achava «sem dúvida o melhor arquitecto vivo». Uma figura altiva, distante, senhorial. A sua história de vida completamente louca. Dá a impressão que passou por tudo aquilo sempre de chapéu e sobretudo, de bengala na mão apontando nas obras. Esteve-se a marimbar para o «modernismo» de Corbusier, da abstracção e das formas puras. Em vez disso, agarrou-se à terra como faziam as suas casas da pradaria, e bebeu de todas as simbologias e texturas possíveis. Um dia um cliente telefonou-lhe, dizendo que chovia na mesa da sala de jantar. Wright não hesitou: «mude a mesa de lugar». Acusaram-no de não ser moderno, de não saber ser moderno. Comparavam-no a Corbusier nessas acusações. Sobre Corbusier ironizou: «Well, now that he's finished one building, he'll go write four books about it.» E com isto relativizou a propaganda.
O seu canto de cisne foi demolidor. Pressentindo a morte, decide "conceder" às críticas. E propõe-se a desenhar um "edifício moderno". Em 1959, apenas alguns meses após a sua morte, abre ao público o Guggenheim de Nova Iorque. Se Corbusier teve alguma decência, corou.



 

o ícone

O BE escolheu esta fotografia de Santana Lopes para a sua campanha. Repetiu-a até à exaustão. Transformou-a num ícone. A ideia não é nova, nem inocente. A imagem tem o poder de anular o significado, tomando ela própria o esse lugar. Neste caso, a imagem apresenta uma expressão da pessoa visada com uma expressão pouco segura, algo surpreendida, vulnerável. A repetição exaustiva desta imagem, posteriormente tratada graficamente com um aumento significativo do contraste e a sua redução ao preto e branco, tornou-se numa campanha de influência da opinião pública. A banalização da representação. O esvaziamento de Santana. A sua redução. Uma apresentação pop de um político. Nada de novo. Wahrol dá voltas no túmulo.


segunda-feira, julho 12, 2004

 

A novidade

é que tem comentários.
 

Santana: onde você estiver, está lá



(Novas instalações do Ministério da Agricultura, Santarém)
 

Alguém pode ir pedir ao gajo que não para de buzinar à minha janela para parar com essa merda?

É que dava jeito.

domingo, julho 11, 2004

 

opiniões esconsas

Descobri e gostei. Sem ironia, é o melhor que me poderiam dizer. Um blogue sobre arquitectura feito por leigos, que afirmam logo a abrir: «A igreja de Canavezes não só parece um quartel de bombeiros como em boa verdade parece um quartel de bombeiros dos anos 20.» Meus amigos, isto promete. No primeiro post, chama-se «pateta» a Siza. Fico com água na boca.

P.S.: Sem querer ser paternalista, o nome do «proto-rei» escreve-se com z. Continuem.

ACT (12.07): Li mal. O que é comum. Afinal, «pateta» é o D. Pio. Mas Siza continua a escrever-se com z. Dessa não abdico.
 

do Lat. ironia < Gr. eironía

Anda tudo muito sério, carrancudo e mal disposto. Mas que culpa tenho eu?

sábado, julho 10, 2004

 

Real ignorância



«Por vezes, os arquitectos insultam os gostos da generalidade das pessoas - e fazem, por exemplo, uma igreja que mais parece um quartel de bombeiros (como fizeram no Marco de Canavezes) ou um salão de congressos (como vão fazer em Fátima).» D. Duarte Pio, in Focus

Devo confessar que não sabia que o herdeiro da coroa portuguesa era um destacado crítico de arquitectura. Ainda assim, atrevo-me a discordar. Não me parece que a igreja de Marco de Canavezes se assemelhe a um quartel de bombeiros. É que não me parece mesmo. Mas não quero passar por imediatista, ou polemista. Quero fundamentar a minha arriscada opinião. Opinião essa, relembro, que não considera que a igreja de Marco de Canavezes seja parecida com um quartel de bombeiros, como o crítico e ensaísta D. Duarte aludiu. Assim, escolho um quartel de bombeiros ao acaso: por exemplo... a "Vitra Fire Station", de Zaha Hadid, na Alemanha. Foi assim a primeira que me veio à cabeça. Correndo o risco de fazer uma análise superficial baseada no sempre perigoso poder enganador da imagem, continuo a não fazer relacionar a igreja de Marco de Canavezes com um quartel de bombeiros. Mas, porque será? Reconheço que me faltam palavras para me justificar. Alguém que me ajude. Não consigo concordar com D. Duarte Pio. Estarei demente?
 

dúvida

Que credibilidade têm aqueles que atacam a falta de sentido de estado de Santana quando estão preparados para ter Ana Gomes como ministra dos negócios estrangeiros?
 

blasé

Segundo Simmel, esta minha atitude é blasé. Uma cápsula protectora contra a sobre-estimulação. Está bem.
 

Olhó passarinho

Aceitam-se sugestões para o tema: «A fotografia na definição da arquitectura moderna.» Ontem li uma frase daquelas: «O mundo foi fotocopiado até ao infinito.» E não é que foi mesmo?

sexta-feira, julho 09, 2004

 

Alusão literária totalmente descabida

Não sei se vou à FNAC porque tenho de lá ir, ou se vou pelo prazer de percorrer a pé a distância que me separa. Como nos romances de Paul Auster.
 

Triste Presidente

Sampaio, por VPV.
 

entrada directa

Esplanar: «ESPLANAR v.t. (lat. esplanare - ainda que não seja pacífico afirmar que as pastelarias do império romano tivessem esplanadas). Acção de contemplar o mundo a partir de uma esplanada; movimento de trazer à linguagem o que se vê debaixo de um guarda-sol. O mesmo que explanar, mas numa esplanada.»

Quase Famosos: «Porquê este título? Porque soa bem. Ah, e também porque "Almoust Famous", de Cameron Crowe, diz alguma coisa a estas quatro melómanas criaturas (não, não é só a Kate Hudson). Atrás das carcaças de cada um dos elementos deste "gang of four", há uma combinação entre William Miller, o sonhador rapaz que agarra a hipótese de escrever um artigo para a "Rolling Stone", e Lester Bangs, o cínico crítico musical.»
 

no metro

Entre o reformado que lê o 24 Horas e o rapaz que segura nas mãos Miguel Esteves Cardoso (não sei qual, confundo as capas), há um mundo inteiro no meio.

quinta-feira, julho 08, 2004

 

Bagunça

Recebo um sms da minha mãe: «Vale e Azevedo libertado. Carlos Cruz fala na TV. Já começou a bagunça e os socialistas ainda nem ganharam.»
 

estado em que se encontra este blogue:

todo orgulhoso por este destaque.
 

Pois eu às vezes também deixo de fora o treinador, toma

«Às vezes deixo de fora o arquitecto e coloco o carregador, porque é ele que pode ajudar a equipa a atingir o objectivo.» Giovanni Trapattoni, em entrevista a A Bola.

Isto é inadmissível. Deixar de fora o arquitecto? Estas declarações são mais um exemplo da campanha concertada contra a revogação do 73/73. E o carregador? Que carregador é este? Terá ele a formação necessária? Não tem, sabemos bem que não tem. Não podemos ficar calados. Trapattoni tem de ser responsabilizado por estas declarações insultuosas para a classe.
 

Pensamento político do dia

O Louçã não pode chegar a ministro. Não pode. O Louçã? Ministro? Não pode. Imigro. Para longe, envergonhado. O Louçã? Ministro? O Bloco? Governo? Amanhã acordarei suado, sobressaltado, e descansado. TUdo não passou de um pesadelo. O Louçã? Ministro? Impossível. O homem não consegue dizer uma coisa positiva que seja. Não consegue. É o contrismo puro. O Louçã? Ministro?
 

Entre ti e o mundo, escolhe o mundo

O hARDbLOG está on-line há um ano. Parabéns, João. Anunciou-se com a (re)publicação de um texto que acabava assim:

«A prática da arquitectura com o inerente esforço crítico que compreende não pode ficar refém das contrariedades do meio em que se insere, mas partir deste para ser a interferência na máquina do complexo socio-cultural em que vivemos em benefício deste. Convocando os mestres-heróis do modernismo, a arquitectura pode concorrer para a transformação social. É aqui que reside a subversão generosa do sonho de querer ser arquitecto.»

Leiam-no.


terça-feira, julho 06, 2004

 

O melhor mail de sempre

Este é, provavelmente, o melhor mail que este blogue já recebeu. Uma declaração apaixonada sobre intenções arquitectónicas.

«Se eu quisesse uma casa com...
-um estúdio para um pintor, ilustrador, fanático dos programas gráficos(computadores, muitos computadores), tarado por sofás "chesters" (ou seja, tarado por umas boas sonecas e noites sem ir ao leito matrimonial, seguidas de discussões conjugais) e que não abdica de, ("mínimo!" com ar indignado) 50 m2 ("onde é que ponho as minhas telas gigantes?" -respondo intimamente "na minha sala não, por favor") e, pormenor delicioso, com sauna adjacente;
-uma mezzanine, refúgio absoluto de uma biblioteca sagrada, de um portátil muito discreto a um canto, e de uma jornalista em fuga da crise de nervos com revistas que nunca vai conseguir ler sem estarem, no mínimo, com uma semana de atraso na actualidade;
-três quartos (um com closet obrigatório, que a gaja lê mas também é loira: são muitos sapatos, malas, roupa que não veste há anos mas insiste em guardar "porque é lindíssima e custou um balúrdio" (abençoadas traças que nos fazem repensar o lixo que temos). Outro para criança. Outro para o que der. Ou antes, para quem der.
-Uma cozinha alarvemente grande (tem de dar para o espaço exterior. A dona da São Bernardo não se importa que o canídeo entre nesta área, mas gosta de a enxotar como se se importasse quando a apanha lá);
-uma sala que NUNCA pode ultrapassar os 40m2 (SEM lareira: mulher prática não limpa cinzas, não corta lenha e instala aquecimento central);
-uma sala das máquinas (nalgum lado tem a criatura de se fechar e esconder dos olhares do mundo para a humilhante sessão esclavagista da roupa semanal que há para passar a ferro e lavar);
-convém ter casas de banho. A paixão é pelos espaços abertos, onde o olhar abrange (quase) tudo.

O espaço: um terreno lindo, com declive acentuado (a proprietária anda a tirar a carta de Caterpillars mas a família quer dá-la como demente e contratar profissionais).

Agora, o tema do mail: ando em pesquisa. Quanto me custa "comprar" um projecto? Cobram mais a clientes difíceis, indecisos e volúveis? Cobram ao m2? Ou à dose de criatividade?

Agora, o teste: quantos pisos? que tipo de distribuição de espaços propõe? Em geral, que materiais sugere? Adoro testes para me decidir sobre decisões. Compro CD's pelo grafismo da capa...

Importam-se de responder? Ou já na terceira linha decidiram que a sanidade mental demonstrada está aquém de uma resposta plausível? Se decidiram isso, decidiram mal. Mas posso pedir um favor? Importam-se de me indicar sites onde me possa deliciar com projectos? É que já gastei mais do que o orçamento previa em bibliografia...»
(PN)

É muito boa esta ideia que os arquitectos pudessem cobrar "à dose de criatividade". Temo é que ficasse aí muito profissional a trabalhar de borla.
 

Memória

Acabou um dos melhores blogues portugueses. Depois da fuga dos ex-infames, esta é a pior notícia que podem dar a quem aprendeu a gostar de ler o que por aqui se escreve.

segunda-feira, julho 05, 2004

 

Assim estou

"Trim", mas porque é que o Nuno Gomes não jogou de início, "copy", "hacth, select scale", cabrão do Charisteas, ou lá o que é, "move", "trim", ai ai, tão perto, "line", "polyline", os cabrões dos gregos não jogam nada, f***-se, "fillet, radius=0", mas alguém me explica o que andou o Pauleta a fazer em campo?, "hatch, solid", e o árbitro alemão, pois pois, "offset".
 

Ainda não me conformei com o facto de o árbitro ter acabado o jogo 20 segundos antes da hora

«Ancient Greek had 12 gods; Modern Greek has 11»

Inscrição no autocarro da selecção grega.

domingo, julho 04, 2004

 

Hellas



Que não haja dúvidas: este é o mais perfeito templo do mundo. É grego, e tem 2500 anos. A sua sublime geometria leva a acreditar que só uma força divina seria capaz de o eregir. Essa mesma força divina parece estar a carregar a selecção grega aos ombros, até à final. Mas como em todos os grandes épicos, a força divina abandona o herói no último acto, deixando-o só frente ao inimigo, ou seja, Portugal.
 

estabilidade

Obrigatório ler este texto do Francisco José Viegas.

sábado, julho 03, 2004

 

Jorge Figueira

Um Coliseu para a VCI
 

o módulo?

Sobre o humanismo. Conta-se que um dia Alvar Aalto recebeu um arquitecto vindo de não sei onde no seu atelier. O convidado olha em volta e pergunta: «Qual é o módulo?» Ao que Aalto diz: «O módulo? O módulo é o milímetro.»
 

O falso humanismo da arquitectura

A arquitectura só compreende, e só pode compreender, o ser humano em grupos. Grupos mais ou menos homogéneos com comportamentos mais ou menos espectáveis. Para o arquitecto ditador, o homem é um animal. O que faz sozinho não tem valor. O que interessa é o seu comportamento em manada. Ou então faz-se uma verdadeira arquitectura humanista. Fruto do gosto de quem a faz, das suas obsessões, das suas taras e manias, das suas escolhas. Mas isso só leva ao descrédito e ao esquecimento. Sim, Manuel Vicente é humanista. Sim, ninguém liga um charuto ao que ele (não) fez em Portugal. Humanismo? Nunca. O que está a dar é a arquitectura totalitária. Olhem para Koolhaas. E aprendam.

sexta-feira, julho 02, 2004

 

Sophia

Hoje morreu também. Que dia. Sophia só não volta a ser a preto e branco porque sempre o foi, o preto das letras sobre o branco do papel.
 

O velho Marlon

Marlon Brando foi responsável por uma revelação. Uma amiga confidenciava-me, por entre suspiros, que nunca tinha visto um homem tão bonito como Marlon Brando. Disse-mo depois de ter visto a sua imagem a preto e branco. Eu, que nasci depois do Apocalypse Now, tinha-me habituado a ver Marlon Brando como um velho gordo, com uma presença no ecran inconfundível, com aquela voz que associamos aos velhos gordos. De repente, e para choque do meu remediado corpo, fico a saber que aquele velho gordo foi, provavelmente, o homem mais bonito do mundo. E transformou-se no que se transformou. Hoje morreu. E com ele o fantasma da velhice. A partir de hoje, Marlon Brando voltou a ser a preto e branco. Eu um dia gostava de ser a preto e branco. Assim, lisinho, bonito. Mas sei que não chego lá.
 

post-it

Escrevi um memo para mim mesmo. Post: o falso humanismo da arquitectura. Provavelmente vai dar texto para amanhã. Lembrei-me disto no metro.
 

mansillõns



Em Portugal, e não sei porquê, a arquitectura espanhola não tem o merecido destaque. Talvez por ser ibérica, e como tal muito semelhante à nossa. Talvez porque faltem "estrelas" (Moneo resiste). Não sei. Mas a verdade é que os nossos vizinhos andam a produzir coisas que merecem a nossa atenção. Dos que conheço, os Mansillõns (nome porque é carinhosamente denominada por um grupo de amigos a dupla Luis Mansilla e Emílio Tuñón, linkados no post aqui em baixo, "Fenestrações") são os que prefiro. É do caraças. Uma obra marcada pelo rigor geométrico sem se reduzir a purismos estéreis (a laia de Campo Baeza, e lá vai o Lutz cair-me em cima), com espaço para a expressão, como é o caso dessa "fachada cúbica" em León. Marcada também pela manipulação inteligente das formas básicas (o cubo, o paralelipípedo). Pertencentes a uma geração que em portugal "deu" Souto Moura, Carrilho da Graça, Graça Dias, etc, etc, estes Mansillõns arrancam-me o aplauso. E viva la España.
 

Liar liar

Saddam Comparece em Tribunal e Acusa Bush de Ser "o Verdadeiro Criminoso"

O Bloco de Esquerda já reagiu: «Vêem, vêem, nós bem dizíamos, nós bem dizíamos, nunca ninguém nos liga e agora toma, tínhamos razão.»
 

Fenestrações


à esquerda: Auditorio Ciudad de Léon; à direita: Ronchamp

Ronchamp de Corbusier, tão forte no imaginário que a reconheço nesta "fachada cúbica" do Auditório da Cidade de Léon (Mansilla+Tunón). No meu imaginário e no imaginário desta dupla espanhola, ex-Moneo.

quinta-feira, julho 01, 2004

 

Nedved

Saiu lesionado a meio da primeira parte. Não conteve as lágrimas. Como todas as boas tragédias, a derrota da República Checa anunciou-se desde cedo.
 

Metaposting

Nos blogues colecivos, naqueles que são verdadeiras comunidades (com o saudoso Desejo Casar a encabeçar a lista), um bom blogger (inventem-me uma nova designação, por favor) corre o risco de não merecer o devido destaque. Por isso apetece-me dizer que é um prazer ler o que o Rui Branco escreve.
 

A obra abençoada

No final do dia, o que conta são as pessoas. O modo como decidem abraçar ou rejeitar o novo orgão faz lembrar o comportamento do corpo humano num transplante: o coração pode ser bom, mas se não for compatível nada feito. Os estádios do euro começaram, obviamente, mal. Ninguém percebia bem o investimento. As memórias que entretanto se sedimentaram sobre eles garantem, desde já, uma relação priviligiada com o público. O país senta-se e descalça-se, vai buscar uma cerveja ao frigorífico, gelada, e olha para tudo isto com satisfação, incapaz de mostrar vergonha pela falta de confiança demonstrada inicialmente. Infelizmente o futebol não esgota os nossos problemas. Infelizmente, em 2005 não haverá Euro, nem Expo, nem aquela-coisa-dos-barcos-que-queriam-trazer-para-Oeiras-ou-lá-o-que-era. É altura de voltar à vida quotidiana. Por muito que isso custe.

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