O PROJECTO

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sábado, julho 10, 2004

 

Real ignorância



«Por vezes, os arquitectos insultam os gostos da generalidade das pessoas - e fazem, por exemplo, uma igreja que mais parece um quartel de bombeiros (como fizeram no Marco de Canavezes) ou um salão de congressos (como vão fazer em Fátima).» D. Duarte Pio, in Focus

Devo confessar que não sabia que o herdeiro da coroa portuguesa era um destacado crítico de arquitectura. Ainda assim, atrevo-me a discordar. Não me parece que a igreja de Marco de Canavezes se assemelhe a um quartel de bombeiros. É que não me parece mesmo. Mas não quero passar por imediatista, ou polemista. Quero fundamentar a minha arriscada opinião. Opinião essa, relembro, que não considera que a igreja de Marco de Canavezes seja parecida com um quartel de bombeiros, como o crítico e ensaísta D. Duarte aludiu. Assim, escolho um quartel de bombeiros ao acaso: por exemplo... a "Vitra Fire Station", de Zaha Hadid, na Alemanha. Foi assim a primeira que me veio à cabeça. Correndo o risco de fazer uma análise superficial baseada no sempre perigoso poder enganador da imagem, continuo a não fazer relacionar a igreja de Marco de Canavezes com um quartel de bombeiros. Mas, porque será? Reconheço que me faltam palavras para me justificar. Alguém que me ajude. Não consigo concordar com D. Duarte Pio. Estarei demente?
Comentários:
Não está nada demente. Está a ser arquitecto. Profissão que recusa, absolutamente, ser criticada ou "falada" por leigos, um tique profissional recorrente noutras actividades mas extremado neste caso. Estranho até, quando é actividade absolutamente pública. Todos (até bloguistas) falam de política e seus agentes, tipos da bola, cinema e sua gente, grandes ou assassinos médicos, juristas néscios ou autoritários, escultores, polícias, vendedoras de flores, publicitários e venham lá mais miles de actividades. Botar discurso sobre arquitectura? Nem pensar, sua corja de ignaros...Desculpará o tom, prezado e sempre visitado Projecto, mas há mais de vinte anitos que ouço esse cântico cooperativo, aprendem-no no primeiro semestre do primeiro ano do curso.
Saudações (muito pouco monárquicas, não vá julgar que é por isso)
 
Caro jpt,

Parece que há aí uma confusão. O mundo da arquitectura não é vetado a leigos. A não ser que por "leigo" se entenda "ignorante". Quando assim é o desprezo por essa opinião nada tem de "corporativista". E essa ideia que a arquitectura pertence a todos, logo deve ser discutida por todos, é uma ideia errada. Se assim é, para quê o arquitectos?
 
e a "coisa" da zaha hadid? parece um quartel de bombeiros?
 
Caro projectista. Desculpe o regresso à matéria. Mas aqui não haverá acordo. O que não implicará peleja. Mas, afianço-lhe, arquitecto é muito menos dialogante para fora do que a esmagadora maioria dos oficiais doutros ofícios. Mas fiquemos assim, que os males do mundo vêm mais de outras paragens.
 
Recordo-me do quartel de bombeiros da Marinha Grande, onde a torre de exercícios (mas apenas a torre, e não todo o quartel) tem fortes semelhanças com a igreja de Marco de Canavezes.

Talvez D. Duarte tenha passado por esses lados...

Embora não me lembre quarteis, a verdade é que não consigo admirar a igreja de Siza - parecem-me caixas de fósforos gigantes, e não desligo dessa ideia. Um pouco como quando alguém diz de um vinho "noto aromas de ameixas pretas" antes de eu próprio poder cheirar o vinho, e a partir daí é-me quase impossível pensar noutra coisa que não ameixas pretas quando meto o nariz no copo...

A igreja de Niemeyer em Brasília parece-me espantosa, genial. A de Siza no Marco, não. Por exemplo, Niemeyer faz um edifício de uma leveza formidável, apoiado numa forma de bomerangue, que repete uma dúzia de vezes, e preenche os intervalos com vidro, e a entrada pelo túnel ajuda a criar um impacto de luminosidade espantoso. Quando comparamos com Siza, o nosso mestre parece perder um pouco, e não consigo ligar-me ao movimento de idolatria da Igreja de Siza.

Pedro Janeiro, um mero curioso.
 
Caro Pedro Janeiro,

Também não alinho na idolatria à igreja de Marco de Canavezes. Aliás, acho que é um acontecimento menor na obra de Siza. Ainda assim sou capaz de olhá-la como aquitectura. A opção foi, nesse caso, depurada e minimal. Siza não é um minimalista, mas em Marco de Canavezes a opção foi por esse caminho. A noção unitária do espaço, a sua quase dessacralização, talvez não seja independente da militância comunista de Siza. Apesar disto, há elementos com interesse: a porta alta, demasiado alta, a parede curva, o janelão. Nessa igreja todo o espaço foi pensado segundo uma sensibilidade. Não é fruto do acaso, ou de imperativos funcionalistas. Não é um quartel de bombeiros. Posso não gostar, posso discordar das suas opções. Mas estou a discordar de acontecimentos arquitectónicos.

P.S.: Não é preciso ir a Brasília. Visite a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, ou a Igreja de Almada, ambas de Teotónio Pereira. Ou a Igreja de Paço de Arcos, de João de Almeida. Brasília é uma catedral monumental, rica, de Niemeyer. Não é comparável à dimensão e intenções de Marco de Canavezes.
 
P.S 2: E uma foto desse quartel de bombeiros, não há?
 
É verdade que os arquitectos são avessos a que os outros discutam os seus projectos ou obras. São, nesse aspecto, de uma sobranceria atroz, como se fossem os detentores da verdade!
E quando os seus edifícios metem água? E quando não funcionam? E quando são feios - sim, feios! - aos olhos de todos menos do(s) seu(s) autor(es)? É claro, a culpa nunca é deles...
Recordo, há uma vintena de anos, que era tabu mencionar sequer a possibilidade de meterem janelas de alumínio nas suas obras! Pois hoje é vê-los a fazerem-no alegremente desde que o Souto Moura atirou uma pedrada no charco. O que mudou? A moda? Tenham paciência...
 
Se a política é para ser discutida por todos, então para quê os políticos?

Antes de 74 alguém disse o mesmo.

Se a arte é para ser apreciada por todos, então para quê os artistas?

Se o futebol é para ser discutido por todos, então para quê os futebolistas?
 
como pode a ignorancia humana chegar a tal ponto em que criticamos algo que nao conhecemos???será que alguem questiona os medicamentos ou metodos de cura do médico que nos trata?obvio que nao. Nao percebemos a medicina por isso nao a questionamos.

a sociedade portuguesa nao sabe o que é a arquitectura, nao sabe para que serve o arquitecto. E nao sabe ao ponto de a criticar, poucos sao em portugal os que de facto percebem a arquitectura. Eu tambem posso nao saber mas procurarei entender a obra do arquitecto Siza neste projecto antes de a rotular de quartel de bombeiros ou caixa de fosforos
 
bom dia. Estava à procura de lugares para estagiar e encontrei esta micro-polémica por puro acaso e ri-me um pouco com ela.

O meu comentário é que a arrogância do "arquitecto" vem do seu percurso natural dentro da faculdade onde aprende o seu ofício. Quando lá cheguei, odiava as coisas do Siza, não percebia porque é que já não se faziam telhados e simplesmente abominava Igrejas que se parecessem minimamente com o quartel de Bombeiros da minha terra. Ao mergulhar nos "problemas" da arquitectura, comecei eu (e assim o fizeram todos) a compreender o porquê de determinados estilos e até a apreciar bastante a beleza contida deste tipo de linguagens.

No entanto, a minha mãe continua a dizer-me "essa casa é feia, parece um contentor". Estará ela errada? Ou será a "arquitectura" em geral? Desde os inícios do século XX que a população nunca mais se identificou com a arquitectura, à excepção dos "iluminados" do conhecimento, e isso parece-me errado.

É que, meu caro João Franco, eu posso não perceber nada de medicina, mas se depois da receita do médico me sentir melhor, dou-lhe valor. Se eu vir as minhas contas tratadas, dou valor ao contabilista. Se eu olhar para uma Igreja e não conseguir arrancar dela qualquer familiaridade arquitectónica e não me surgir sentimento que não o desprezo e frustração, algo se passa...
 
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Também o Duarte Pio parece o duque de Bragança e não é, é um grande impostor o verdadeiro duque é este www.realcasaportuguesa.org
 
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Igreja de Marco de Canaveses
Less is more.(Mies van der Rohe)
Simples mas não simplista.
 
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