O PROJECTO

Contribuições, insultos, projectos de execução, mas principalmente donativos chorudos para:

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segunda-feira, maio 31, 2004

 

estética

Fui cortar o cabelo. Mal comecei, entra no estabelecimento uma mãe com o filho pela mão. O meu cabelo está anormalmente grande e descontrolado. A mãe pergunta se demora muito. O barbeiro que está a cuidar de mim responde: «não, é um instante». Temo pela minha saúde. LAC
 

r. e. m.

(Confesso que tenho uma relação de amor-ódio com este texto. Deve ter sido escrito num dia em que acordei mal disposto. Paciência. Só faz sentido num blogue. Que seja. Façam dele o que quiserem. Inclusive ignorá-lo.)

«Apesar de sabermos tudo aquilo que sabemos sobre a emoção humana e os seus mecanismos, isso não impede uma visão romântica dessas mesmas emoções.»

António Damásio, citação livre


Há duas frases de Koolhaas que me inquietam. Não por serem dele mas porque se mascaram de veracidade. Representam uma deslocação dos objectivos da arquitectura, um recentrar das preocupações sobre o ambiente construído. Não me interessa citá-las agora. São duas ideias que atravessam todas as intervenções, construídas ou não, de Koolhaas. A primeira dá conta da demissão emocional da arquitectura; a segunda prende-se com a negação do fenómeno estético, assumindo-se como um paradoxo, pois gera uma outra estetização, tão válida ou presente como qualquer outra.

Diz o holandês que as pessoas podem habitar qualquer coisa, ser felizes em qualquer coisa e miseráveis em qualquer coisa. Não deixa de ser verdade, o que não permite uma extrapolação genérica. Koolhaas não acredita na emoção. É uma criatura hiper-racional. Um animal do século XXI, da informação sem limite, das redes digitais, da globalização. Mas não deixa de ser um arquitecto. Que produz espaços que irão dialogar com pessoas. E as pessoas não são hiper-racionais, regem-se pela emoção como bem nos vai tentando explicar António Damásio.

As criações de Koolhaas aspiram a uma verdade inatacável. Uma pretensão que só os números podem dar. E daí a negação do fenómeno estético da arquitectura, ou o apregoar dessa negação. Koolhaas sabe muito bem que isso é impossível. A Casa da Música é hoje um fenómeno eminentemente estético e emocional. Por isso diz que há uma discrepância entre o que diz e o que faz. Aliás, Koolhaas há muito que se desinteressou da arquitectura. Só a entende à escala urbana e da metrópole. Acredita na grandeza pela grandeza. É hoje um produtor de estudos económicos e sociais. A arquitectura da OMA sobrevive a Koolhaas de um modo totalmente dependente. A OMA não sobrevive sem Koolhaas e Koolhaas não sobrevive sem a OMA (cortesia cscf).

Este desinteresse é motivado pela ambição intelectual de Koolhaas. Ambição essa que não pode ser exprimida apenas através da arquitectura, das paredes, da textura, da luz. Precisa de um mapa mundo, com pontinhos e gráficos. Precisa de grandes slogans que são negados após 5 anos por outro da mesma natureza. Porque há sempre a justificação da permanente mutação da geo-política mundial. Tentou a migração para o West Americano. Delirious New York, nos anos 70, causou um impacto considerável. Por lá ficou, convencido a levar à prática as suas ideias. Tentou vários projectos. Todos falharam. E por isso fugiu para o East asiático. Para a China. As afirmações que faz sobre o modelo social chinês são de deixar qualquer um de boca aberta. Diz que a China desenvolveu o «Comunismo com a forma de um Estado que ainda pode fazer sentido». E critica a falta de fundos para as realizações culturais nos EUA, ao mesmo tempo que elogia o governo Chinês pelos seus investimentos (um problema chamado «democracia»?) Pelo caminho, acusa a SOM (que também anda na China a construir), de promover um «colonialismo cultural». Chavão típico de um antiamericano de catálogo (que Koolhaas não é). E, como diz Martin Pedersen, editor da revista Metropolis, «ele (Koolhaas) corre atrás dos dólares como outro arquitecto qualquer». Hoje esses dólares estão na China. Lá vai Rem para a China, com citações de Mao debaixo do braço.

Koolhaas transformou-se num pensador, num activista. É um portento. Um permanente desafio à escala global. Será no futuro considerado o maior arquitecto do seu tempo. Mas isso pouco terá a ver com a sua obra construída.

Ou talvez não. O problema está no modo de avalização da arquitectura de Koolhaas. Tal como as suas publicações, esta não pode ser avaliada sem um mapa mundo com pontinhos. Cada edifício da OMA insere-se num conjunto, numa rede. Revelam cada um uma pequena parte das preocupações do seu mentor. Mas isolados perdem. O que a arquitectura sempre foi capaz (e continuará a ser) é desprezado: a emoção. A simples fruição espacial, o esquiço ocasional de uma luz furtiva, uma fotografia que envelhece. Nada disto Koolhaas nos desperta. A arquitectura anula-se esmagada pela ambição global do arquitecto.

A Casa da Música assume-se como uma obra chave neste panorama. Porque Koolhaas apaixonou-se por aquela forma, aquele objecto. Uma moradia ou um centro de espectáculos, tanto faz, aquela forma fascinou-o. As paredes brancas que já recebem o sol do norte (de sul), que já projectam a sua sombra, provocam em nós uma reacção que Koolhaas apregoa ser inexistente. Eu quero lá saber da Generic City ou do S, M, L, XL: aquele edifício é bonito. É uma experiência estéctica forte, uma revelação com massa, com espessura, com defeitos. Conheça eu ou não o nome de Rem Koolhaas, a Casa da Música será sempre uma peça notável, uma arquitectura que influenciará decisivamente a minha ida ao espectáculo. Por muito que Koolhaas negue isso de uma forma provocatória. Por muito que diga a arquitectura é apenas a concretização de uma ideia puramente racional. Por muitas ideologias. Por muitos mapas mundos com pontinhos.

Mas voltemos à ambição intelectual de Koolhaas. Será que se emociona ao ouvir um elogio ingénuo de uma obra sua? Será que, abordado na rua por uma velhota que lhe diz gostar muito da Casa da Música, isso faz alguma diferença? Valoriza Koolhaas esta palavra, gostar? Não sabemos. Construiu-se à volta do seu trabalho uma protecção emocional. Quase intocável como gosta Koolhaas. A sua ambição, o seu desejo, o que o move, é ter razão. É impor, dispor, provar. É colocar-se numa posição exterior à sua condição. Isso passa, inevitavelmente, pela sua expurgação da arquitectura.

Ou a sua transformação. Embora a história prove que a arquitectura tem um papel social bastante diminuto (já explico), Koolhaas completa o círculo para a ela voltar, querendo através da arquitectura deixar uma marca física das suas pesquisas.Por isso a sua obsessão com o bigness. Quanto maior for a obra, maior é a transformação social. E com isto quer alterar o mundo. Se o conseguir será o primeiro arquitecto a fazê-lo. Corbusier, que foi indubitavelmente quem mais impacte teve na arquitectura moderna, mudou a arquitectura mas não mundou o mundo. Koolhaas já mudou a arquitectura mas não quer parar por aí.

Porque tem a arquitectura um papel social diminuto? Porque a arquitectura pela arquitectura não tem impacto (social) significativo. As considerações sociais são um imperativo arquitectónico, mas só ganham força se forem uma parte num todo transformador. A arquitectura é reacção, é expressão, é sinal. Não é doutrina.

O texto que agora termina pode parecer uma reacção negativa à influência de Koolhaas. Talvez seja, mas é motivado por uma inquetação sobre aquilo que nos move a fazer arquitectura. Porque Koolhaas baralhou as regras do jogo. Porque o mundo o obrigou a baralhar as regras do jogo. Não sei se a arte tem de ser tão conformada. Agora que tudo é parametrizável, terá a arte de se submeter a essa avalização? Que ambição é essa?

Siza diz sobre Souto Moura que as suas obras nos recebem bem, que tem a certeza que as suas obras nos receberão bem. Afinal, não é este o desígnio da arquitectura? LAC

 

oiça lá ó senhor Fado

Ando a redescobrir o Fado. Culpa do Público. Oiço Mariza. Acho muita piada a esta letra. É mesmo espantoso, ando a redescobrir o Fado sem nunca o ter conhecido. «Oiça lá ó senhor vinho»:

Oiça lá ó senhor vinho
Vai responder-me, mas com franqueza
Porque é que tira toda a firmeza
A quem encontra no seu caminho?

Lá por beber um copinho a mais
Até pessoas pacatas
Amigo vinho em desalinho
Vossa mercê faz andar de gatas

É mau procedimento e há intenção
Naquilo que faz
Entra-se em desequilibro
Não há equilíbrio que seja capaz

As leis da física falham
E a vertical, de qualquer lugar
Oscila sem se deter
E deixa de ser perpendicular

Eu já fui respão do vinho
A folha solta a bailar ao vento
Fui raio de sol, no firmamento
Que trouxe á uva doce carinho
Ainda guardo o calor do sol
E assim eu até dou vida
Aumento o valor seja de quem for
Na boa conta, peso e medida

E só faço mal a quem
Me julga ninguém, faz pouco de mim
Quem me trata como água
É ofensa paga, eu cá sou assim
Vossa mercê tem razão
É ingratidão falar mal do vinho
E a provar o que digo
Vamos, meu amigo, a mais um copinho

LAC

domingo, maio 30, 2004

 

Fora do Mundo, dentro de uma sala minúscula

Fui à apresentação do livro do Pedro Mexia (recuso-me a linkar para o Fora do Mundo). Tudo à pinha. Numa sala minúscula (alguns arriscam a palavra "auditório", mas eu não sou parvo), colocada estrategicamente ao lado do balcão das informações. Assim, enquanto tentava ouvir os oradores, a minha percepção batalhava com feirantes desorientados por entre berros de um puto mimado qualquer. Assim não, pá. A malta quer ouvir o homem. Bom, lá descortinei um ou outro post, todos vivos na minha memória. E ri, ri, ri. Como o post sobre a tradução da ficção e poesia portuguesas. O tal que desmonta o nobel de Saramago. «Já me tinha esquecido que o Saramago irrita uma certa direita». Uma certa direita? É a direita toda e arredores. O gajo é parvo. E parvos não aturo. Entretanto, Abel Barros Baptista estranhava a «música pop». A «música pop?», repetia. Mexia sorria outra vez. Como rira com a alusão à «nudez» do blogger, por parte de Pedro Lomba. Os posts ("textos" porque agora a coisa paga-se e está em papel) alusivos à libido humana repetiam-se. «Os meus pais estão chocados», disse PM numa nota para si mesmo. A temperatura mantinha-se estável: trinta e porra-de-sala para cima. Chegou ao fim. Grande livro. Grande livro. Tenho a certeza que o lerei. LAC
 

maresia

Miguel Esteves Cardoso escreveu: «O mar pode ser maravilhoso, mas não é nada comparado com o que sobre ele se escreveu.» (citado de memória) Sim, claro que concordo. É uma frase com um sentido arquitectónico muito forte. Uma janela que condiciona a visão, oferecendo apenas aquilo que quer oferecer. E então uma bonita paisagem natural ganha sentido, com um gesto, que contextualiza. O mar, então, só é o mar quando alguém o reconhece. Essa relação não precisa de ser inocente. Essa relação nunca é inocente. O meu mar não é o teu mar. Mas o mar é o mesmo. A possibilidade de lhe construir uma janela é quase metafísica. Mas é possível. LAC

sábado, maio 29, 2004

 

até logo à tarde

Deixemo-nos de merdas: a blogosfera é o Pedro Mexia. É claro que vai ter deixar de ser, mas até este dia não há dúvidas. Não tenho talento para elogiar o PM. É preciso talento para elogiar alguém. Conheço pessoas que são peritas nisso. Eu não sou. Só consigo dizer que vai fazer-me falta, o Dicionário. Principalmente pelo humor. E pela cortante viagem ao mundo do comportamento humano. No meu caso, há a agravante da coincidência de opiniões. Quer nos grandes temas como nas pequenas inquietações, geralmente o PM fazia-me o favor de pôr em palavras (perfeitas) aquilo que penso. Nem sempre, mas sempre. Nunca tinha lido nenhum cronista com tanta dedicação como leio o PM. Mesmo nos seus textos mais banais (como se transformou a sua participação no Independente, por exemplo) há sempre um prazer em lê-lo. Confesso que o seu registo no blogue era o meu preferido (as crónicas da GR andam lá perto). E por isso hoje não é um dia bom. Bem, pelo menos até logo à tarde. LAC

sexta-feira, maio 28, 2004

 

Lofts: uma importação trendy



Loft: tipologia, conceito importado de uma américa cinematográfica. Glamour. Independência. Dependências. Estatuto social negado, transformado em estatudo cultural. Habitar um loft é para «lofteiros» (acabei de inventar o conceito, parece-me bem). E o que é um «lofteiro» (ou um «lofter», ou «loftísta»)? Bem, parece que está bem definido. O «estudo de mercado» desenhou-lhe todas as curvas. É jovem, independente, bem na vida. Ligado às artes e/ou cultura e/ou media. Solteiro ou casado, sem filhos. Heterossexual ou não, ou os dois. Relativamente rico. E é aqui que a linha começa a ser traçada.

New York, terra-mãe do loft. Mas o loft nova-iorquino não é por definição um lugar de luxo. É o oposto. Um espaço aberto, amplo, semi-industrial, com um pé-direito considerável a convidar ao mezzanine. Quem o deseja? Aqueles que não suportam financeiramente outra opção. Está em bruto. Tijolo à vista, aço e ferro (porque na américa cinamatográfica constrói-se em aço e tijolo). Não é propriamente confortável. É duro. Precisa de disposição por parte de quem o habita. Mas na importação lusa que se fez do fenómeno houve qualquer coisa que se perdeu.

Em Lisboa o preço está bem adornado. Pela novidade? Pela projecção? Por toda uma carga imaginária que atribui ao loft um conceito de vida desejado. O arquitecto Raul de Abreu, responsável pelo projecto, sabe disso: «Estes espaços - a palavra LOFT significa espaço amplo destinado a armazém ou semelhante" - começaram pouco a pouco a ser aproveitados por gente mais ou menos jovem com poucos recursos, ou por ser diferente, ou por necessitar de espaços maiores, que foram adaptando às suas necessidades de habitação ou trabalho, até que viver num "LOFT" se tornou numa espécie de moda (...)»(1) Contudo, e numa manobra absolutamente subversiva, o conceito deturpou-se e os «jovens com poucos recursos» ficam arredados da tipologia. Um fenómeno absolutamente trendy. E o trendy inflacciona tudo onde toca, qual Midas. Logo acorre uma multidão sequiosa de diferença. E assinam no cheque «seiscentos e setenta e cinco mil euros», comprando uma fatia do sonho. Pois, é uma fatia. Porque na antiga fábrica da Osram tudo é às fatias. Lofts alinhados num comprido corredor (que se assemelha a um hospital ou prisão), uma reminiscência da galeria moderna, só que interior e interminável. O que só por si é uma contradição: os lofts precisam dessa independência, não podem estar alinhados qual sardinhas em metal.

O projecto inicial, ou a ideia inicial, previa comércio no piso térreo. «Esta mudança de planos é fundamentada pela seguinte razão: simplificando o programa limita-se as necessidades decorrentes do seu cumprimento e, portanto, os problemas a resolver e as alterações a fazer ao edifício existente, já que se pretende conservá-lo.» (2) Pois, pois. Mas compare-se o valor metro quadrado da loja de jornais, com o do loft trendy. Se fosse eu o promotor nem queria ouvir falar de «comércio» ou «serviços». Quanto mais Diogos Infantes cá enfiarmos melhor. Porque o negócio é sério. E com o dinheiro não se brinca.

Há também neste luso-loft uma ideia de comunidade. Uma ideia romântica que pressupõe relações de vizinhança fortes, entre pessoas que têm algumas afinidades. Como a lavandaria comum. Mas impõe-se a questão: quem paga «seiscentos e setenta e cinco mil euros» por uma casa, estará disposto a fazer uso de uma lavandaria comum? Até o trendy tem limites. Há um modo de estar mediterrâneo que levanta dúvidas sobre estas imposições comunitárias.

E há o caso da senhora cabeleireira famosa! Absolutamente sintomático. Toca de trazer uns perfis de alumínio e umas placas de gesso cartonado, a ver se eu não transformo isto num rico T5! Sem janelas, pois só há uma que ilumina e dá calor à sala. Loft? O quê? Não conheço, faltam aqui quartos e divisórias. Pode falar-se do revestimento da instalação sanitária? Sim, o tal que é debruado a... É melhor não dizer? Está bem, mas era uma boa ilustração.

Ilustração da desadequação entre o fenómeno loft e Portugal. «Primeiro estranha-se, depois entranha-se». Talvez eles consigam entranhar. Mas vai ser a custo. E não será permanente. Fartar-se-ão, como qualquer moda. Easy come, easy go. E a cidade, o que ganha com isso? Além da fachada renovada, de um carácter industrial de bom desenho, parece que nada. Talvez seja a escala. Demasiado ostensiva, impositiva, como que a dizer «aqui há lofts porreiros». O que ajuda à festa trendy. O «lofteiro» precisa que se saiba que ele ali mora. Precisa que isso o identifique. Senão, tudo seria em vão. E ficaria um traço de sabor amargo nas letras «seiscentos e setenta e cinco mil euros».

Depois dos escritórios em «open-space» que já vingaram, estando associados a uma ideia democrática do trabalho, chega a habitação «open-space». Mas o que será uma habitação democrática? Trabalho partilhado é democrático, é colectivo. E a privacidade da casa? Do quarto? Numa opinião puramente pessoal sujeita a todos os insultos e negações, tenho para mim que uma habitação «democrática» se aproxima perigosamente da palavra promiscuidade. Talvez seja por isso que falem em solteiros. Mas, e peço desculpa por me interrogar, o que faz uma pessoa só numa sala de 300 m2? LAC

(1) (2) - Boletim Lisboa Urbanismo, nº 16
 

O que é a arquitectura? (9)

Não sei. LAC
 

final de linha?

O Blog-sem-Nome está em risco de extinção. Por bons motivos, pode ler-se. Ainda assim, é com pena que o vejo (anunciadamente) chegar ao fim. Até um destes dias. LAC
 

sad but true

«Os Metallica são como aqueles tios matarroanos. Gostamos deles mas ao longe, aparecem de quando em quando, são muito barulhentos e sem maneiras, têm maus hábitos e deixam um rasto de confusão na sua esteira. Mas também é verdade que os dias em que cá aparecem são dias inesquecíveis, nos quais vestimos as roupagens de "rockers" e deixamos o "trash" invadir as nossas ruas e mentes. E desta feita há ainda mais um aliciante: após muitos anos de silêncio, o último "St. Anger" alcança níveis de aberrante ferocidade. Se não nos conseguirem conquistar ao vivo com estes arroubos de meia-idade, têm sempre as hiperbaladas para nos acalentar.»

Este parágrafo que o Público resolveu dedicar aos Metallica é uma coisa tão mal informada, tão distorcida, tão desinteressada, que me obrigam a escrever um post sobre os senhores. Me aguardem. LAC

quinta-feira, maio 27, 2004

 

serão paredes

É claro que as referências são sempre variadas. Os paralelismos, ainda que forçados, são infinitos. Uma palavra, um gesto, um som. Há sempre quem se inspire. A arquitectura sempre olhou para fora, bem fora, sedenta de informação. Por vezes esquece-se de si própria, tão distraída que passeia de braço dado com tanta coisa. Mas faz mal. Há no seu mundo matéria suficiente para a entreter. O discurso pode evocar mil e uma noites, numa argumentação apaixonada. No fim serão paredes. Com ou sem fábulas, serão paredes. LAC

quarta-feira, maio 26, 2004

 

estatística

No final do jogo, números reveladores. «Remates à baliza», anunciavam, «Mónaco - 0; Porto - 3». LAC
 

benfica

A única equipa no mundo que travou o Porto esta época. LAC
 

Porto

«É uma noite inesquecível que jamais irei esquecer.» Paulo Ferreira. LAC
 

sete e meio por sete e meio

A propósito da falta de fascínio pela «cidade moderna». É grave. Há uma sensação de confiança que parece ser inevitável: a «cidade moderna» é boa. É competente. É tecnicamente apurada. É pensada. É vanguardista. É organizada. Mas falha constantemente. Ouvia ontem, numa simplicidade cortante, alguém dizer que o Jardim da Estrela, apesar do seu desenho «rígido» e pouco «livre», era incomparavelmente mais eficaz que o espaço público da Expo. E é a mais pura das verdades. Ora, importa tentar perceber porquê. Eu não estou para isso. Mas importa. Os espaços públicos da Expo (que acabam de ser galardoados com o Valmor, e bem) são pouco naturais. Como se disse também, aí há um constante estímulo para o consumo. O rio é consumido, como são consumidas as bicicletas de aluguer. Tudo está catalogado, com legenda e sinalização adequada. Mas para quê? E então? Tudo funciona, dirão. Mas a cidade é tão mais bela quanto disfuncional. Que as coisas funcionem na macro-escala, é o que peço. Que tudo se desorganize na nossa escala. Mas afinal, onde é que se namora nessa cidade? Há coisas inconsumíveis. Nós já não sabemos o que isso é, ser inconsumível. Desisto. O mundo não é clarificável. Nada bate certo. O que aprendi, está desenhado na Expo. As regras, as ideias, os conceitos. Tiro instantâneos dessa modernidade. Catalogo. Arquivo. Desenho. Estudo. E chega. Vou para o Jardim da Estrela viver. Passem bem. LAC
 

modern

Não quis responder e arrumar a questão, Pedro. Mas se são essas as questões que queres ver respondidas, então a coisa é mais séria. O meu interesse pela sociologia é limitado. O fascínio pela «cidade moderna» também. Gosto da contradição, da sobreposição, da dúvida. Não quero certezas, nem respostas. As perguntas são sempre mais sedutoras. E o «hoje» interessa-me bastante mais do que o «amanhã». LAC
 

disputas

Elisabete Jacinto Venceu Corrida com Comboio por Entre o Trânsito do IC19

Fernanda Ribeiro já terá afirmado: «sinto-me capaz de bater o TGV.» LAC

terça-feira, maio 25, 2004

 

jaquinzinhos

O melhor blogue-com-nome-de-peixe-que-se-come-a-cabeça-e-por-acaso-até-é-a-melhor-parte faz hoje um ano. Manda-se daqui o desejo de uma longa vida. LAC
 

ser moderno

Para o Pedro, que está inquieto sobre a modernidade, lembro um post ido deste blogue. Bom, talvez ajude. LAC
 

new kids on the block

Dois jovens arquitectos desconhecidos, Tiago Pimentel e Camilo Rebelo, ficaram em primeiro lugar no concurso público para a elaboração do projecto do Museu do Vale do Côa, cujo resultado foi ontem divulgado.

Escusado será dizer que é uma óptima notícia. Sangue novo, ideias novas. Depois da atribuição do Secil a Pedro Maurício Borges, este é um acontecimento que lança para a praça pública novas referências. É um bom sinal. LAC

segunda-feira, maio 24, 2004

 

O que é a arquitectura? (8)

(esta li-a folheando o «Content», de Koolhaas, e cito de memória)

Uma ponderação entre a larga experiência adquirida no passado com o inevitável desejo de modernidade. LAC
 

ora ganhas tu

Um leitor faz uma sugestão para que se comente aqui a situação dos concursos públicos no nosso país. Dava matéria para um blogue independente (niguém se atreve?), com muita gargalhada à mistura. Lembro-me de um testemunho que ouvi há pouco tempo. Uma pessoa, chamemos-lhe X, tinha feito parte do júri de um concurso para um edifício de uma universidade em Lisboa. Contava-me que tinha sido uma experiência terrível. Poupando nos pormenores, passemos ao mais caricato. Concurso anónimo como mandam as regras, calhou o vencedor ser, oh heresia, um "desconhecido". Os grandes concorreram mas não ganharam. No dia da publicação dos resultados, X confessou ter recebido enúmeros telefonemas de "gente muito importante" indignada por não ter ganho "ninguém conhecido". A "classe" manifestou-se. Tal foi a pressão que X disse-me com um sorriso desesperado: "nunca mais, nunca mais". E fica uma dica: divirtam-se a observar os nomes que fazem parte dos júris dos principais concursos e prémios, e comparem esses nomes com o dos vencedores. Um misterioso ciclo anual que se permuta. Enfim. É a vida.

P.S.: Já para não falar no episódio recente no qual o presidente do júri de um concurso, amigo de um concorrente, passa a tarde no atelier deste a dar dicas sobre os painéis a apresentar e que ele iria posteriormente avaliar. Amigos amigos. A vitória calhou a um terceiro. Ainda assim... LAC
 

temporariamente

A Feira do Livro foi este ano deslocada para norte, puxada lá para cima, fugindo da retroescavadora que tem fustigado a praça do marquês. Para nosso bem, o projecto continua a ser assinado pela dupla Margarida Grácio Nunes e Fernando Sanches Salvador. A entrada inverteu-se. Em vez de se subir, desce-se. Ainda assim, o projecto é basicamente o mesmo. Há uma continuidade de um ano para o outro, o que confere àquelas estruturas temporárias uma validação qualquer, uma resistência, uma afirmação. E há arquitectura ali. Como a janela do Auditório 1, que oferece uma possiblidade de escape. Os olhos vão ali parar muitas vezes. O buraco está lá. Para deixar entrar a luz. Mas principalmente para deixar sair a mente. LAC

domingo, maio 23, 2004

 

saber ver

«O necessário é ver muito e, eventualmente, depois, copiar muito. Rafael, Miguel Ângelo usaram e subverteram a cópia: o que mudou hoje é que se vê muito mais (viagens, revistas, Internet, etc.): é uma nova esperança, mas também uma nova desgraça.»

«Álvaro Siza: A primeira última aula», fixação de texto de Manuel Graça Dias, revista Tabacaria nº12


 

Um milagre

«O Milagre segundo Salomé» é um filme competentíssimo. A realização é segura sem ser tarefeira, o elenco é irrepreensível (com Ana Zanatti e Sofia Sá da Bandeira resignadas a duas falas, com o menino bonito das novelas que não envergonha, com Nicolau Breyner igual a si mesmo, e com Ana Bandeira, que dá o corpo ao milagre), a banda sonora cumpre, o argumento é inventivo (da adaptação do romance) e tem a capacidade de abordar um tema porventura polémico de um modo bastante sensível, diria. Aqui está um óptimo exemplo do cinema comercial português (e europeu), provando que o comercial não tem de ser necessariamente uma importação de referências americanas. Depois de «Os Imortais», este pode ser mais um passo para a reconciliação entre o público e o cinema português. LAC
 

exposto

A exposição não é, por si, grande coisa. As imagens apresentadas são "fáceis", muito visuais, com um certo prazer pela côr e pela abstracção. Há algumas excepções, fotografias que são algo mais do que uma simples imagem, como por exemplo um close-up de uma fachada de um edifício em S. Paulo (não, não é obsessão por "prédios"). A própria apresentação não é famosa. E, claro, é um manifesto green, com todos os méritos e defeitos que isso acarreta. Ainda assim, gostei de ver o Terreiro do Paço (não a "Commerce Square", por favor) invadido por pessoas que desafiavam o frio que se instalava ao fim da tarde, princípio de noite. Por enquanto só lá vai com iniciativas de excepção. Mas abre os olhos para novas possibilidades. Será que um dia vamos poder estar no Terreiro do Paço? LAC
 

cerimónia

Ainda não consegui neste fim-de-semana prestar atenção à princesa. E o congresso acaba hoje. LAC

sábado, maio 22, 2004

 

O que é a arquitectura? (7)

(Manuel de Oliveira adapta uma frase de Godard sobre o cinema)

Nem é arte, nem é vida, é qualquer coisa entre as duas. LAC
 

Colóquio

Hoje, às 17h00 no Auditório 1 da Feira do Livro:

[Colóquios Bibliotecas LX] - (Re)Desenhar a Rede de Bibliotecas da CML: Desafios da Modernidade, com José Luís Borbinha, Paulo Leitão, José António Calixto, Ricardo Carvalho e um representante do Portal do Cidadão, moderado por Álvaro Costa de Matos.
Apresentação pública das novas instalações da Hemeroteca Municipal de Lisboa.

sexta-feira, maio 21, 2004

 

O que é a arquitectura? (6)

O desejo feito espaço. LAC
 

O que é a arquitectura? (5)

A expressão física e cultural de um povo. Ser regionalista, sem ser tradicional. Capaz de ser vernacular e contemporânea simultaneamente. LAC
 

rir a bandeiras despregadas

Em A Causa Foi Modificada, ver um post intitulado «Pode ser que se foda». Ainda me estou a rir, não aguento... LAC

Actualização: mantenho a minha gargalhada descontrolada.
 

Vida de bairro

No Rato, ao lado de minha casa, há um quiosque que fica junto ao "edifício amarelo" (nunca sei a que banco pertence). Só lá vou às sextas-feiras, comprar o Independente. Fui lá não mais do que três, quatro vezes. Nunca fiz conversa. Dediquei-me apenas a solicitar o jornal. Hoje, mal chego ao dito cujo, e ainda antes de ter tempo de dizer alguma coisa, já tinha o jornal nas mãos. Das duas uma: ou o Independente não vende um charuto, sendo eu o único cliente do senhor, ou então estamos perante uma enorme competência no trabalho. Pode ser apenas um pormenor, mas para mim faz toda a diferença. Aquele vendedor ganhou hoje um cliente fiel. E eu ganhei mais uma memória no meu novo bairro. LAC
 

Seattle Public Library



No Domingo inaugura-se a Seattle Public Library, um projecto de Koolhaas já famoso. Este objecto atrai-me. E já agora, fica um dado que não costuma ser divulgado: o edifício foi projectado tendo em vista a classificação "Silver" do LEED. Para que não pensemos que os edifícios "ecológicos" têm todos o mesmo ar. LAC

quinta-feira, maio 20, 2004

 

Referendos

O que se está a passar hoje em Lisboa, passou-se no ano passado em Londres. Um inquérito público sobre a viabilidade da construção em altura. Sobre o projecto da «London Bridge Tower», de Renzo Piano. Claro está, com outra dimensão: 306 metros de altura (relembram-se os 105 das torres do Siza). Apontaram-se 3 razões para a sua construção: (1) Londres necessita de ser densa; (2) a área precisa de uma renovação económica, com novos postos de trabalho; (3) e é necessária uma reabilitação urbana. O resultado? 70% sim; 8% não; 22% não sabe/responde. Esmagador. LAC


 

O que é?

O João define como "hercúlea" mas "inglória" a tarefa de "ir definindo" o conceito de arquitectura, na certeza de que "que não se pode resumir a uns quantos aforismos". Totalmente de acordo, João. O que se pretende é lançar tópicos, provocações, lembranças. Convidar o leitor (e nós próprios) a redefinir constantemente o conceito de arquitectura. Combater o conformismo. Olhar com olhos novos todos os dias. Descobrir o que está na penumbra. Penso eu que tenho respostas? Longe. É uma tarefa puramente pessoal. Um desafio diário. Na perseguição daquilo que, como disse Mark Wigley, nos foge e continua a fugir. E há mais inquietações. Sendo (também) uma arte visual, a arquitectura nunca poderá ser plenamente verbalizada. Por isso à partida a pergunta "o que é a arquitectura" não tem resposta. Ou melhor, tem uma resposta: abrir os olhos e o espírito, ver com olhos de ver. Dar atenção à luz, à forma, à materialidade, à vivência. E aos poucos, de fragmento em fragmento, dar espaço para que a paixão pela arquitectura cresça. É só isso que quero. LAC
 

O que é a arquitectura? (4)

A atribuição de significado a elementos por natureza inertes. LAC

quarta-feira, maio 19, 2004

 

ainda sobre a relação Estado-Religião

Transcreve-se um comentário ao post «O equívoco de Vital Moreira», que merece ser promovido a post. E não vou rebater as ideias aqui expressas. Não quero sofrer represálias. Obrigado Mariana. LAC

«O equívoco de quem tem uma visão endógena da coisa

Indiferença não significa ignorar. Significa não diferenciar. Em última análise, o que Vital Moreira pretende insinuar é que, vigorando um regime de separação constitucional entre o Estado e as igrejas, o princípio geral da igualdade expresso no artigo 13.º da CRP tem de ser respeitado nas relações entre o primeiro e as segundas. Como é evidente, a Constituição prossegue uma igualdade material e não meramente formal, pelo que permite discriminações positivas sempre que elas se justifiquem. Não me parece que Vital Moreira se esteja a insurgir contra discriminações positivas que estabeleçam regimes mais favoráveis à Igreja católica, sempre que eles se justifiquem, tendo em conta o serviço público que esta organização presta. Só faz sentido exigir a neutralidade do Estado perante as diferentes confissões religiosas enquanto organizações cívicas, quando elas estejam em igualdade de circunstâncias. Um tratamento igual para a Igreja católica e para a IURD não é neutro. É cego. É estúpido.

Porque é que "a Igreja não pode ser tratada como uma simples organização cívica"?! Porque "tem uma acção preponderante em campos ligados directamente ao serviço público: a educação, a saúde, a acção social"?! Mas muitas outras organizações cívicas a têm. E é por essa razão que beneficiam de regimes favoráveis por parte do Estado, nomeadamente no que diz respeito ao regime de tributação. Só por essa razão! Não por ser uma organização religiosa! Nesse aspecto o Estado tem de ser "indiferente", pela simples razão de que isso não lhe diz respeito. Um Estado de Direito Democrárico e laico tem de zelar pela liberdade de consciência, de religião e de culto, tem de impedir discriminações em função da religião, mas não tem, nem pode, tomar posição em matéria de religião. Não lhe cabe a ele esse papel. Assim que o fizer deixa de ser laico.

Sejamos claros. Eu não excluo a hipótese de um Estado Católico (ou de outra qualquer confissão religiosa) poder garantir eficazmente a liberdade de consciência, de religião e de culto. Em abstracto, não há nenhuma razão para que isso não possa acontecer. Mais. Eventualmente, até admito que possa ser mais bem sucedido do que o Estado laico. Basta observar o imbróglio em que a França, o supra-sumo da laicidade, se encontra actualmente com a famosa Lei do Véu.
Agora, se é laico, não pode ter "uma relação com qualquer Igreja" enquanto confissão religiosa. Isso seria uma aberração lógico-jurídica. Pode tê-la, repito-o, se a igreja for tratada simplesmente como organização cívica e se os serviços por ela prestados à comunidade o justificarem. Precisar este facto pode parecer um pormenor, mas reveste-se, na minha opinião, da maior importância.»
(MDS)
 

de volta

Pedro Mexia de volta, e em grande forma:

«Fico sinceramente feliz que as pessoas considerem que valem alguma coisa. Se calhar valem. Eu faço apenas por ir aos ziguezagues conscienciosos, como um bêbedo pacato. Mas chego a casa e caio na cama. Ronco e bronco. A sedução, a dado momento, é apenas o embuste profissional. Um enfado quase agressivo. Esta mania de nos vendermos. A prostituição de cara lavada, mas com máscara por cima. Nem mesmo o Carnaval de Veneza é assim tão decadente e doentio.» LAC
 

O que é a arquitectura? (3)

A resposta mais simples à complexidade das exigências. Imaginar a evidência. (Siza Vieira) LAC

terça-feira, maio 18, 2004

 

O que é a arquitectura? (2)

(e continuamos a facilitar, desta vez pedindo emprestadas as palavras de Fréderic Levrat)

A constituição intencional do meio ambiente. A Segunda Natureza. LAC

 

O equívoco de Vital Moreira

Permito-me discordar de Vital Moreira. Ora vamos lá:

«(...)num regime de separação constitucional entre o Estado e as igrejas, como o nosso, o Estado só pode adoptar uma posição de neutralidade e indiferença em matéria religiosa

Não concordo com a «indiferença». Ser indiferente significa ignorar. Mesmo num Estado laico, não é razoável ignorar a presença das confissões religiosas, e especialmente num país onde a sua história se confunde com a história religiosa. Para o bem e para o mal (acredito que bastante mais para o bem), não faz sentido nenhum adoptar uma posição de indiferença. Neutralidade, talvez, mas indiferença nunca.

«A religião não faz parte da sua agenda. É evidente que não pode hostilizar as igrejas, nem muito menos os crentes.»

Outra confusão. Religião e Igreja. Sem dúvida que a religião não faz parte da agenda do Estado, contudo a Igreja não pode ser tratada como uma simples organização cívica. A Igreja, relembremos, tem uma acção preponderante em campos ligados directamente ao serviço público: a educação, a saúde, a acção social. Nenhum governo em Portugal pode prescindir desta experiência.

«Mas a liberdade religiosa não consiste somente em ter e praticar uma religião, mas também em não ter nem praticar nenhuma. E esta vertente "negativa" da liberdade religiosa também merece a mesma protecção do Estado. Para ele deve ser tão meritória, ou não, a posição do crente mais fundamentalista como a atitude do anticlerical mais militante.»

Não vou comentar a «posição meritória» do «anticlerical mais militante». Mas fica uma preplexidade: porque razão o facto do Estado ter uma relação com qualquer Igreja significa uma hostilização ou desrespeito para quem não tem religião? Onde está a exclusividade? A democracia, que me lembre, ainda se trata de tratar de modo igual aquilo que é igual, e de modo diferente aquilo que é diferente. Discrimiação positiva, caro professor. E neste caso só faz sentido uma discriminação positiva em relação à Igreja Católica. Por muito que isso custe aos «anticlericais mais militantes». Porque se, de um dia para outro, a Igreja deixasse de prestar os serviços que hoje presta, o país ficava a braços com um belo imbróglio.

Quer isto dizer que a Igreja Católica se permite ter previlégios que outras confissões não têm? Teoricamente não. Contudo, há motivos históricos para isso poder acontecer. Porque a Igreja Católica, além de ser uma confissão religiosa, é uma instituição que tem apoiado, substituido, reforçado, amparado, colaborado directamente com o Estado português. No futuro (já hoje se fosse possível), e é o que desejo, todas as confissões religiosas que manifestamente têm uma influência positiva na sociedade portuguesa serão sujeitas a uma discriminação positiva. Não me peçam é para aceitar uma «neutralidade» do Estado em relação à Igreja Católica e à IURD, por exemplo. Isso não aceito.

E pronto. Perdi oficialmente a cabeça. Discuto com um prestigiado professor assuntos onde o meu conhecimento é bastante rasteirinho. Ah, democracia! LAC

 

Sítio para estar

Esplanada Aberta no Terreiro do Paço

«Dezenas de mesas metálicas e cadeiras em tons de pano cru, cobertas por largos chapéus de sol, enfeitam, desde ontem, o Terreiro do Paço. A esplanada montada na praça lisboeta, com capacidade para 200 pessoas, vai manter-se em funcionamento até Setembro, enquanto decorrer a iniciativa "Lisboa em festa", organizada pela Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural. Para os apreciadores do ar livre que não se deixem incomodar com a proximidade dos carros, autocarros e eléctricos que passam a escassos metros das mesas, este pode ser o local ideal para uma refeição rápida ou uma bebida ao final da tarde ou à noite. Por enquanto, a esplanada estará aberta até à meia-noite, embora haja perspectivas de alargar o horário até às duas da madrugada, e oferece pizzas, crepes, saladas e tornedós. A partir de dia 30, um "buffet" de pratos quentes e frios permitirá aumentar a oferta. O espaço foi ontem inaugurado com a exposição de Yann Arthus-Bertrand, o fotógrafo francês que percorreu o mundo, capturando-o em imagens aéreas. Hoje, às 17h00, a esplanada concebida para dar apoio à exposição abre ao público, proporcionando refeições por uma média de cerca de 12 euros.»

Todas as iniciativas de tentativa de reanimação (por electrochoque) do Terreiro do Paço são muitíssimo bem-vindas. LAC
 

O que é a arquitectura? (1)

(como post inaugural, roubo a frase a Alvar Aalto)

A arquitectura é a humanização da técnica. LAC
 

O que é a arquitectura? - nova rúbrica

Dois acontecimentos recentes precipitam esta novidade. Primeiro: estou a ler um livro com este nome, supostamente destinado a servir como introdução a este complexo mundo. Digo-vos, não me quero armar em superior nem em conhecedor, mas confesso que tenho dificuldade em seguir a linha de raciocício aí exposta. Segundo: como explicar a alguém que a arquitectura não é simplesmente construir «edifícios bonitos»? Assim, inaugura-se uma nova rúbrica, pomposamente intitulada «O que é a arquitectura?». Serão posts curtos, de uma frase. Para estimular. LAC

segunda-feira, maio 17, 2004

 

eu mereço

«Tens uma namorada? Então vais passar a escrever menos para o blogue, não?» LAC
 

Facto

Passo o dia com a cabeça enfiada no frigorífico, os pés no congelador, e a suar desalmadamente. LAC
 

na rua

"Lisboa em Festa" Arranca Hoje com Exposição Fotográfica

E há vida no Terreiro do Paço. Quatro meses inteiros dedicados a uma exposição. Quem disse que a praça não serve para nada? Onde estão os cépticos? Escondem-se, nesta hora feliz? Nunca Lisboa esteve tão activa. O espaço público ao serviço do público. Uma exposição. Sobre a terra. Vista de cima. Afinal, o Terreiro do Paço é uma verdadeira praça da alegria. LAC

 

Les Halles

Vale a pena espreitar os projectos do concurso Les Halles. Jean Nouvel, MVRDV (Winy Maas), OMA (Koolhaas), e SEURA (David Mangin).
 

festeja-se

Oiço os carros que passam, buzinando alegremente. Cânticos ébrios numa rouquidão eufórica. Tudo pela janela, que está semi-aberta devido ao calor. A rua cheira a verão, libertando odores quentes. É domingo, mas ninguém se lembra que amanhã é segunda. Uns dizem que vem aí a retoma. Oito anos de jejum que chegam ao fim, devido a um homem que o outro diz ser uma farsa. Não acredito. «Fútbol es así», sem dúvida. Duas ou três coincidências, uma sorte inesperada, um poste que estava no sítio certo: eis que uma cidade sai à rua. Hoje fica tudo para trás. Amanhã será outro dia. LAC

domingo, maio 16, 2004

 

A morte II

O Estoril-Sol vai ser demolido. Não merece. Ao que parece, "fere" a paisagem. Não se "enquadra". Como é óbvio, isto dá pano para mangas. Fica para os próximos dias. LAC
 

A morte

Moro a um passo do Hotel Altis. Hoje, dia de final de taça, passo ao lado do autocarro do Futebol Clube do Porto e não reajo. Porquê? Morreu Bruno Baião. Dezoito anos, capitão da equipa de juniores do Benfica. Nunca o vi jogar. A sua morte teve contornos assustadoramente semelhantes às de Miki Féher. Com apenas quatro meses de intervalo. É duro. A festa da taça fica anulada. E mais uma vez um acontecimento que é sinónimo de saúde, o desporto, transforma-se na morte, no fim, em violência. Numa infinita incompreensão. Porquê, porquê. LAC

sábado, maio 15, 2004

 

Eu fico (contrariado)

Pois. Ontem pedia o exílio de Santana Lopes para a presidência da república. Hoje, o insuspeito Expresso noticia a continuidade de PSL na câmara. Ao que parece, amuou com Durão Barroso. Agora o problema que se põe é o seguinte: quem vai ser o adversário de PSL? Carrilho? Sócrates? Ai, vida minha... LAC
 

assunto

Parafraseando um post ido de Pedro Lomba: não tenho assunto para escrever, mas esperem aí que ainda não li o Expresso. LAC

sexta-feira, maio 14, 2004

 

era o que mais faltava

Juiz Não Reconhece Pretensões de Tomás Taveira Sobre Obras de Conceição Silva

Uma boa notícia, sem dúvida. Abriria um precedente perigoso e descabido. A Prototypo sai desta história com o nome imaculado. E ainda bem. LAC
 

Um política para a cidade

Falava entre amigos. Discutia-se a postura de Santana Lopes. É frequente ouvir-se exclamar a coragem do senhor. Porque ele enfrenta os interesses instalados, porque não tem medo de seguir as suas ideias, porque causa polémica. Eu, pelo contrário, acho que se há algo que define esta gestão camarária é exactamente uma profunda falta de coragem. Não há uma única ideia para Lisboa. Uma. Única. Leio hoje no jornal que a Bica e Santa Catarina vão ser interditas ao trânsito. Boa. E então? E quando não houver mais bairros onde por cancelas? Qual é o impacto destas medidas? A verdade é que PSL precisa de ser falado para existir, como bem escreveu Pulido Valente há uns dias. PSL é a sua projecção nos media; sem ela desaparece. Acontece que a gestão de uma cidade exige exactamente o contrário: recolhimento, projectos a longo prazo, coragem para enfrentar críticas anti-democráticas. O planeamento de uma cidade não se faz com concessões, com populismos. Gonçalo Byrne diz em recente entrevista: «A planificação em democracia é mais difícil do que no tempo do Marquês de Pombal ou do Salazar, em que havia uma autoridade.» É isto politicamente incorrecto? Não, é a mais pura das evidências. PSL acredita exactamente no oposto. Acredita, por exemplo, que o cargo de Presidente da Câmara é um cargo político. Nada mais errado. Não é, e não pode ser distorcido para parecê-lo. A gestão de uma cidade é uma tarefa eminentemente técnica, especializada. Requer ideias e projectos firmes. Não pactua com "medidas" de cabeçalho de jornal. Mas voltemos à falta de coragem. PSL teve nas mãos uma oportunidade única de mostrar que tinha um projecto. Nada de casinos, ou de gehrys, ou de fosters, ou de sizas, ou de rodas gigantes em monsanto: a questão da construção em altura. Sente-se que Lisboa terá de tomar opções. Como, quando, e porquê. Uma estratégia clara que todos entendam. Uma política para a cidade. E o que faz o corajoso PSL? Veste a túnica de Pilatos, lava daí as suas mãos, e chuta para canto inventando um referendo. Esta figura horripilante de exercício da democracia (?) ? que dá aso aos mais furiosos populismos - só produzirá um efeito claro: um alibi a PSL. Corajoso como é, não quer saber das consequências. Apenas se importa com o processo, rezando para o seu nome saia limpo desta trapalhada. Em vez de arregaçar as mangas e começar a definir a estratégia de construção em altura para Lisboa, bem como uma estratégia de ocupação da margem ribeirinha, lança um referendo sobre um caso isolado. Boa. Parabéns. Que grande estadista. Que grande líder. Seria tão fácil recorrer a metáforas sobre o túnel. Mas nem isso quero fazer. Só quero dizer isto: as câmaras não são lugares políticos. Não são. Mas o que dizer perante os factos? A vitória de PSL nas eleições fez cair um governo. E agora? Como se vai meter nas cabecinhas dos militantes que uma cidade não faz parte da retórica eleitoral? Eu não faço ideia. Privatizem-se as câmaras. Proibam os partidos políticos. Limpem o Alentejo da escumalha comunista. Prendam os Ferreira Torres todos, ou mandem-nos para o Brasil. Criem uma comissão de arquitectos, urbanistas e paisagistas para mandar na cidade. Estou-me nas tintas. Mas, por favor, decidam. E tirem-me o PSL da câmara. Por favor. Mandem-no para a presidência da república, onde fará muito menos mossa. LAC

quinta-feira, maio 13, 2004

 

famous leader

Segui as pisadas da Bomba Inteligente e deu isto. LAC



What Famous Leader Are You?
personality tests by similarminds.com



 

Obrigado Tiago

por dizeres tudo numa linha: «Eu tenho muitos mais diferendos. Estou cheio de diferendos. Respiro diferendos. Nem tão pouco confio em pessoas com as quais não partilhe uma quantidade razoável de diferendos.» LAC

 

Habitar as paredes

«We attain to dwelling, so it seems, only by means of building. The latter, building, has the former, dwelling, as its goal.» (1)

O modo como reagimos aos espaços, às paredes, às janelas, às ruas, às praças, aos edifícios, revela uma interacção incontornável ente espaços e comportamentos. Porque a arquitectura tem sempre no homem a sua razão de ser. Faz-se à sua volta, tomando-o como referência (de escala, de texturas, de formas).

«Veremos, no decorrer da nossa obra, como a imaginação trabalha nesse sentido quando o ser encontrou o menor abrigo: veremos a imaginação "construir" paredes com sombras impalpáveis, reconfortar-se com ilusões de protecção - ou, inversamente, tremer atrás de grossos muros, duvidar das mais sólidas muralhas. Em suma, na mais interminável das dialéticas, o ser abrigado sensibiliza os limites do seu abrigo. Vive a casa na sua realidade e na sua virtualidade, através do pensamento e dos sonhos.» (2)

Uma das mais fortes consequências deste nosso envolvimento com o ambiente construído relfecte-se na ideia de pertencermos a um sítio, a uma terra. Não se explica facilmente. Há uma relação emocional forte que nos liga e torna-se parte de nós. Em Portugal pode assistir-se a um fenómeno muito interessante neste campo: a Aldeia da Luz. Condenada ao afogamento pela barragem, construiu-se uma réplica que se quis idêntica. Tratou-se da reconstituição integral de um sítio. Porque, e principalmente devido à idade da população residente, do sítio não se pode abdicar. Seria violento fazer desaparecer todas as referências espaciais de toda uma aldeia. A opção, reconstruir, é polémica. Põe-se a questão: as pedras estão lá todas, mas estará o sítio? Porque o sítio traduz-se em relações interespaciais. E são essas relações que têm o poder de nos envolver:

«The spaces through which we go daily are provided for by locations; their nature is grounded in things of the type of buildings. If we pay heed to these relations between locations and spaces, between spaces and space, we get a due to help us in thinking of the relation of man and space.» (3)

Chegamos então à cidade. Será a cidade um ambiente humano? A pergunta que se fez: as cidade fazem mal às pessoas? De facto, a cidade traz consigo muitas agressões ao ser humano. Mas, e como foi referido, nem sempre é mau estar com muita gente. A cidade é por natureza o local de todas as contradições. Um exemplo: uma mulher chega a casa, de noite, e é assaltada. A área é densa. Há muita gente à volta. Seguindo o bom senso seria de esperar que o grito de socorro da mulher fosse prontamente atentido, por várias pessoas até. Contudo, a cidade, por ser um local denso, cria no homem uma protecção ao exterior, um sentido de indiferença face ao outro, um forte individualismo. Por isso a mulher arrisca-se a não ver o seu grito socorrido.

A cidade representa uma sobrecarga cognitiva. Um excesso de estimulação. Porquê? Pela concentração. Tudo acontece bastante perto. E acontece frequentemente. Por isso há a tendência para esse alheamento da realidade. Uma habituação a essa sobrecarga cognitiva passa, invariavelmente, pela construção de um modo de lidar com ela. Ignorar o que deve ser ignorado, atribuindo significados ao que deve ser valorizado. Nasce a vida de bairro. O bairro como uma extensão urbana da nossa casa. O local onde nos sentimos bem. Onde cada esquina está catalogada mentalmente. Onde se cumprimenta as pessoas que passam, que se conhecem, que se vêem diariamente. A cidade transforma-se num aglomerado de bairros. De comunidades.

É neste sentido que nós conseguimos lidar com a escala urbana. Decompondo-a, em pequenos pedaços. E atribuindo sucessivamente valores memoriais a cada fragmento. É a domesticação de um acontecimento que ultrapassa em larga medida a escala humana. O acto de tornar nosso algo que é exterior. LAC

(1) e (3) Heidegger, Martin. Building Dwelling Thinking
(2) Bachelard, Gaston. A Poética do Espaço, ed. Martins Fontes

quarta-feira, maio 12, 2004

 

difamatório

«A Autoridade Nacional de Comunicações (ANACOM) pretende acabar com os chamados «blogs», páginas de opinião muito em voga na Internet, alegando que estes sítios são frequentemente utlizados para difamação, afirmou ao EXPRESSO Online Pedro Amorim, especialista em direito para as novas tecnologias da informação.»

Parece inacreditável, não é? Pois bem, parece também que é mentira. No sistema de blogs do Parlamento (desconhecia-o até hoje), Pedro Amorim exerce o muito merecido direito de resposta:

«No fim do Seminário «Ciberlaw'2004», fui abordado, em pleno corredor do CCB, por uma jovem jornalista estagiária do Expresso Online, que me faz uma pergunta relacionada com a minha intervenção e que se prendia com a questão da tutela dos direitos do consumidor na chamada Lei do Comércio Electrónico (DL 7/2004). Como será evidente para que me conheça, NUNCA disse que "o objectivo da ANACOM é acabar com a criação de blogs" e MUITO MENSOS que "espero que seja cumprido".»

Esou mais descansado. E o Expresso continua uma referência, como sempre. LAC
 

numa autoestrada à noite

Todas as luzes se vêem. As mais brilhantes, as mais tímidas, as periféricas, as ostensivas, as fugidias. Tudo fica para trás, excepto exactamente o que não se quer que fique para trás. Isso acompanha-nos, fintando a suposta solidão numa autoestrada igual às outras. Rasga o território, sempre a direito, sem pedir licença. E nós com ela. Prego a fundo no silêncio, com a janela ligeiramente aberta que deixa entrar cheiros indistintos, acompanhados por uma sensação de frio agradável. Ali, naquele momento, ao volante, desaparecemos. Qual electrão tornamo-nos invisíveis pelo movimento constante. Não há posição fixa. Apenas um número que o conta-quilómetros marca, sempre acima da lei. Passam motas de alta cilindrada, desportivos ruidosos, carros de executivos. Não ligo. Fazem parte da autoestrada. Uma autoestrada vazia é angustiante. À noite precisamos dos outros. Longe, reduzidos a um pontinho de luz, que se aproxima ou afasta, conforme a nossa velocidade e a velocidade deles. À noite, a mais ténue das luzes incendeia o espírito. LAC

terça-feira, maio 11, 2004

 

putos

Anda tudo a fazer um ano. Desta vez são os Putos. Paradoxo: ainda temos a questão da Luana Piovani para resolver. LAC
 

uff...

Muda a cor, reduz o tamanho da letra, risca ali, mete uma linha por baixo, em itálico, não, em bold! não gosto da letra, muda, sobe, cresce, chega para o lado, o amarelo é bom? passa, o blogger está melhor, mais funções, olha parece que já está. Minhas amigas e meus amigos (os inimigos passem por cima), eis a nova carinha laroca. LAC
 

logotipo

O logotipo voltará. Vou ali e já venho. Retoques. LAC
 

Cara

New template. Não resisti. E os comentários voltaram. Com mais pinta. Digam de vossa justiça. LAC

segunda-feira, maio 10, 2004

 

saúde, marujos

Venho atrasado, mas é imperdoável não congratular a tripulação do Mar Salgado, por este ano de blogosfera. Uma referência. LAC
 

palavras

A vida de blogger passa por muitas hesitações. Quem nos lê? Haverá leitores fiéis? Muitas vezes pensamos em desistir, cansados, olhando para tudo isto como uma fase, um devaneio. E então acontecem coisas extraordinárias. Que me fazem continuar com reforçado entusiasmo. LAC

sábado, maio 08, 2004

 

Fala-se da nossa Lisboa

Manuel Salgado omnipresente da imprensa deste fim-se-semana: uma entrevista ao Independente (sem link porque a página é uma miséria) e um artigo no Expresso (sem link porque é a pagar) com o sugestivo título «Já pensou como poderia ser Lisboa?» Esta pergunta deveria ser posta todos os dias. Como diz MS: «Já pensou como poderia ser Lisboa com uma extensa frente ribeirinha livre de construções e transformada num passeio público onde se pudesse passear, brincar, fazer desporto, pescar ou... namorar?» Não é preciso uma grande dose de imaginação para idealizar este cenário. Mas, infelizmente, as decisões sobre a cidade estão entregues a «uns poucos funcionários superiores nomeados pelo Governo (...)». A cidade precisa de uma política objectiva e coerente, sem medo de ser acusada de ser anti-democrática (que grande disparate esta ideia do referendo!). Mas a nossa língua não distingue os conceitos de «politics» e «policy». E em vez de termos uma política sobre Lisboa, temos um conjunto de politiquices. Eu gostava de ver essa Lisboa de que nos fala MS. Mas tenho muito poucas esperanças. Por isso agrada-me ler da parte de MS frases encorajadoras: «Sou um optimista por natureza e acredito que algo de extraordinário ainda pode ser feito.» Tanto sururu sobre uns objectos que se querem plantar à beira-rio, mas ninguém se parece importar com a tutela desastrosa (para a cidade) da APL sobre a área ribeirinha. Contentamo-nos com umas reabilitações pindéricas à laia das Docas? Uns quantos bares e restaurantes sobre o rio? Descontinuados, isolados, mal relacionados. Não admira que se tenha construído essa ideia maléfica de que Lisboa tem uma relação com o rio puramente «visual», e de «proximidade», recusando um contacto directo. Que falta de ambição! A margem ribeirinha está aí para ser conquistada. Sobre isto vale a pena conhecer o trabalho que recebeu o segundo lugar no Prémio Jovem Arquitecto Paisagista 2003, publicado na edição de Maio da Arquitectura e Vida. É uma proposta de um possível passeio ribeirinho de que fala Manuel Salgado, que impressiona pela sua clareza e evidência. Parece tão simples... LAC

sexta-feira, maio 07, 2004

 

«metros quadrados de cumplicidade »

Estou esgotado. Só consigo apontar. Caríssimos: ide ler, no País Relativo, um post de seu nome Andar a ver casas. LAC
 

Ciência

Hoje, na FNAC do Chiado às 18h30, lança-se o número 9 da Periférica, a «revista arrogante de Vila Pouca». Em princípio não vou poder lá estar, e ainda não tive oportunidade de a comprar. Mas estou mortinho... LAC

quinta-feira, maio 06, 2004

 

o café

Entre teatros, metido numa esquina com a «travessa dos teatros» ou qualquer coisa do género, há um café-restaurante. Espreita S. Carlos lá em baixo. Não lhe vê a cara, só os lados. Anicha-se tranquilamente aos pés do Mário Viegas, paredes meias com o S. Luiz. Tudo à volta parece ser de tardoz. É um espaço residual que resulta numa pequena variação geométrica. Dá-se pouco por ele. O Chiado está cheio de gente para cima e para baixo, numa sexta-feira de clima ligeiramente ameaçador para dia de primavera. A estátua de Pessoa está longe de ficar só. Sente-se o cheiro das pessoas. Mas ao dobrar da esquina, numa rua que mete para dentro, parece que alguém se esqueceu de descobrir aquele sítio. As pessoas passam, sem ligar. E espantam-se aqueles que aos poucos gostam de viver a cidade. Nos cafés. Naquele café, no centro de Lisboa agitada. Mas aí nada é agitado. Não se dá pelo tempo a passar. Conversa-se sobre os assuntos mais banais, sobre os assuntos mais sérios. Mas nada disso interessa realmente, naquele café onde até os empregados se desligam calmamente. O que interessa é dizer. E ouvir. Descobre-se mais um bocado de cidade, que ganha significado. Um imenso significado. Ao contrário do fingimento dos teatros que abraçam aquele café, aí nada é falso. LAC
 

Ponha a sua casa a render



Ter um apartamento num edifício com uma excelente projecção para uma das maiores avenidas da cidade compensa. «Querida, vendi a nossa fachada.» LAC
 

data

A blogosfera portuguesa tem no dia de hoje uma data importante: o Abrupto faz um ano. Foi há um ano que JPP se juntou a quem cá estava. É impossível menosprezar a importância desses, com especial destaque para a Coluna, mas JPP foi o primeiro sinal que os blogues se estavam a tornar numa «coisa séria». E veio preencher uma lacuna: não havia nenhum blogue escrito a partir de Estrasburgo.LAC

quarta-feira, maio 05, 2004

 

transformando

Dois textos n'|a|barriga|de|um|arquitecto| interessantes sobre a transformação da cidade. Tenho dúvidas sempre que se fala na «preservação» de uma identidade, como sinal de uma resistência à mudança. Como bem diz o Daniel, a cidade europeia carateriza-se pela herança histórica. Mas a cidade é por natureza o palco físico dos desejos de uma população. E se chegarmos a um tempo, como parece estar a acontecer, onde a cidade se torne imutável, teremos de avaliar bem as consequências dessa negação. Porque estaremos a negar o desejo de concretização contemporâneo. Pode provocar um afastamento entre a pessoa e a cidade, situação absolutamente catastrófica. LAC
 

conceitos

Tentou também definir uma pessoa numa só palavra. Se isto não fosse impossível, eu diria que esteve lá quase. Ou, pensado melhor, talvez não. LAC
 

estar

«Nem sempre me sinto bem em Lisboa» dizia-me, «faltam-me sítios para estar.» Sem o saber, ou sabendo-o na perfeição, tinha acabado de definir uma cidade toda numa frase. LAC
 

if everyone lived like you, we should need 2.7 planets

Lívia Tirone e Ken Nunes, além de serem duas pessoas muito simpáticas, trabalham há uns anos sobre o tema da sustentabilidade e arquitectura bioclimática. Por muitas críticas que se façam (algumas justas), quando ouvimos os números ficamos sem resposta. Porque é o futuro do planeta que está em jogo. LAC

terça-feira, maio 04, 2004

 

A árdua e ingrata tarefa

Pensar sobre a cidade não é fácil. A tentativa de racionalizar, argumentar, esquematizar pensamentos sobre algo que nos toca emocionalmente é violento. Porque a cidade nunca é abstracta. Os seus problemas não têm soluções, têm abordagens. E por isso se discute tanto. Todos falam, todos opinam, todos sentem. Nos inquéritos de rua, quando o assunto é a cidade, raramente se ouve um «não sei». Porque todos sentem a cidade como sua. As memórias que se construiram nas ruas, praças, jardins, recantos, miradouros, tornam invariavelmente a cidade numa coisa nossa. Mas há quem tenha de se afastar. Olhar de cima para baixo, de fora para dentro. E, racionalmente, tentar decidir. Numa atitude cínica, mostrando uma falsa segurança. Jogando com representações mais ou menos abstractas, com números e índices, como se a cidade se usasse, em vez de se viver. É uma árdua e ingrata tarefa. LAC
 

património

Ippar Protege Obras de Fernando Távora e Raul Lino

Os dois nomes não aparecem por acaso. Representam duas posturas bastante distintas face à arquitectura do séc. XX em Portugal. Raúl Lino construiu a imagem da «Casa Portuguesa» que ainda hoje perdura. Durante muito tempo colaborou com o Estado, sendo apelidado de «arquitecto do regime». Muitas vezes injustiçado, por não ter aberto a porta à modernidade de um modo evidente, as suas obras representam um património a preservar. Por outro lado, Fernando Távora introduziu essa modernidade. Mas com um sentido vernacular de excepção, tendo criado um modo moderno de ser português. A ele se deve a formação de uma geração.
A classificação de obras de arquitectos ainda vivos (no caso de Távora) é um meio essencial para a consciencialização pública do património contemporâneo. Porque há quem ainda tenha dificuldade em associar as palavras "património" e "contemporâneo". LAC

segunda-feira, maio 03, 2004

 

ausência

O Pedro Jordão faz-nos falta. O Epiderme deixou-nos orfão. O Pedro está a trabalhar, obviamente, demais. Até porque gostava de trocar umas ideias. Sobre um tema que discutimos há uns tempos (o Pedro falou e eu aprendi, basicamente): a violência. Vem isto a propósito de A Poética do Espaço, de Gaston Bachelard. De qualquer modo, ansiamos pelo regresso do Epiderme. LAC
 

alvalade

A pressão do Sporting, Moreira inspiradíssimo, um Benfica sofrível, Tiago apagado, Miguel desastrado, Nuno Gomes invisível, tudo corria mal. Eis que salta Geovanni do banco, com aquele ar de quem não quer a coisa, despreocupado, lá no seu canto. Pegou na bola e pensou «vou chutá» e chutou e nós gritámos «golo!!!». LAC

domingo, maio 02, 2004

 

telefone

É frequente os meus amigos queixarem-se dos meus modos ao telefone. Dizem que sou «pouco simpático», ou «seco», e outras coisas que tal. Eu concordo. Mas não percebo a inquietação. Não se pode ter boas conversas ao telefone (são raras). Uma boa conversa precisa de silêncio. E o silêncio ao telefone precisa de ser consentido. Senão, paga-se caro. LAC
 

«A não-cidade portuguesa»

Há vida na nossa mailbox:

«Eu infelizmente não tive ainda a oportunidade de viajar, mas partilho da mesma visão desoladora sobre o panorama do urbanismo em Portugal, e não precisei de sair da fronteira para concluir tal coisa. Focando o problema de Lisboa, que é a realidade que melhor conheço, confesso que por vezes me sinto mesmo trucidada com aquilo que vou vendo. Se calhar ingenuidade da minha parte, não sei.
Em Portugal não existe respeito pelo espaço publico. Cuspir no chão é algo que faz parte da identidade nacional, e nem os patos de um qualquer lago ou repuxo se livram de serem "rapinados" para dentro de alguma panela. Não esquecendo a calçada portuguesa e os seus magníficos "extras", semeados porta sim, porta não, á espera de um pé incauto. Perante isto, resta alguma dúvida porque vão os portugueses enfiarem-se nos grandes centros comerciais, esses universos fantasiosos de uma vida urbana que não possuem?
Eu não quero uma Lisboa igual a Veneza, nem Barcelona, nem Amsterdão. Gostava de ver Lisboa igual a Lisboa. Mais pitoresca, mais ribeirinha, mais habiatada. Lisboa com lisboetas, não com criaturas suburbanas que a encaram de manhã com uma hora de transportes em cima. Uma cidade é feita de pessoas. Mas os portugueses querem mesmo é uma casita com um quintalinho de couves e nabiças, não importa como, nem que seja ao lado da autoestrada. Será que ainda estamos a mascar o ruralismo do Estado-Novo? São opções.
Eu vou aguentando, porque tenho um amor estranho por esta cidade, mas é difícil perante tanta aberração. A feira popular em Monsanto poderá ser a machadada final. Será. Ando desiludida.
» (Susana Alves)

Cara Susana: Obrigado pelo mail. Desiludidos andamos todos. Não restam dúvidas sobre a falta de cultura urbana do nosso país. Resta-nos a esperança que um dia os shopppings desapareçam quase por artes mágicas. As áreas comerciais da cidade morrem aos poucos. A Baixa já tem certidão de óbito (que triste é passear no Chiado ao Domingo). Campo de Ourique, por enquanto ainda “o” bairro, dizem-me que está sufocado por lojas de chineses, que em todas as esquinas há uma loja que se trespassa. As avenidas novas vão sendo engolidas pelo automóvel. E o que dizer daqueles monos nas Amoreiras, responsabilidade do arquitecto Arsénio Cordeiro? Mais não-sei-quantos metros quadrados de montras idiotas. Quanto à casita das nabiças talvez não concorde. Os que a têm ao lado da autoestrada não é devido a um desejo seu. Preocupa-me, isso sim, a opção de quem pode escolher: os condomínios privados. A negação total do fenómeno urbano. Voltam as costas à cidade. O triste é perceber que é a cidade que os obriga a isso. Finalmente, esse amor a esta cidade não é estranho: é bastante saudável. Que deprimente deve ser morar numa cidade que não se ama... LAC
 

europa

Sobre o alargamento: obviamente não pesco nada sobre as implicações deste passo no campo das relações internacionais, da economia, dos subsídios. Sou um euro-ignorante. Portanto, e alguma alma caridosa me ajude, pergunto: deixámos ou não de estar na "cauda da europa"? LAC

sábado, maio 01, 2004

 

Temas recorrentes

Gostei de ler este texto do Pedro. Aborda temas que já aqui referi: a questão da imagem, dos media, da forma, das utopias sociais. Estou sem fôlego para entrar num desejado diálogo. Espero pela continuação do texto. Mas a minha opinião sobre estes assuntos já é conhecida: não acredito em transformações sociais pela arquitectura. A arquitectura deve ser sempre resposta, tradução, reacção, não doutrina. E sou pelo objecto, sempre. Por sítios como as escadas da Casa dos Bicos, onde fiquei sentado numa escuridão silenciosa. LAC
 

newspaper

Excertos da imprensa de Sábado:

«Excepto no 24 Horas, ele ia a pouco e pouco entrando numa perigosa meia sombra e uma pop star não se pode esvair assim. O embargo do túnel é a salvação. Santana Lopes, no seu papel de vítima, vai concerteza refulgir. Lisboa que se lixe.» Vasco Pulido Valente, DN.

«Quanto tempo dizem que vai durar? Quatro meses? Não acredito. Estão todos muito contentes com o «exercício de cidadania», suponho. Pergunto: porquê agora, no meio da obra? Porquê agora? João Appleton, um especialista que sabe o que diz, alerta para os perigos desta paragem. Que mais nos vai acontecer? Vou acordar, um dia destes, com o tecto na cabeça?» Clara Ferreira Alves, Única

«Cem anos depois da morte de Eça, Eça morre pela segunda vez. É triste, mas é assim: os leitores da imprensa ainda não ginasticaram suficientemente o miolo. E o cronista treme. Liga o computador, começa o texto e, num estremeção, diz alto: “Não vou ironizar neste texto, tenho medo de que não percebam que é irónico.” E não percebem mesmo.» Pedro Mexia, GR

O ócio agarra-me neste dia do trabalhador. LAC

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