O PROJECTO

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quinta-feira, maio 13, 2004

 

Habitar as paredes

«We attain to dwelling, so it seems, only by means of building. The latter, building, has the former, dwelling, as its goal.» (1)

O modo como reagimos aos espaços, às paredes, às janelas, às ruas, às praças, aos edifícios, revela uma interacção incontornável ente espaços e comportamentos. Porque a arquitectura tem sempre no homem a sua razão de ser. Faz-se à sua volta, tomando-o como referência (de escala, de texturas, de formas).

«Veremos, no decorrer da nossa obra, como a imaginação trabalha nesse sentido quando o ser encontrou o menor abrigo: veremos a imaginação "construir" paredes com sombras impalpáveis, reconfortar-se com ilusões de protecção - ou, inversamente, tremer atrás de grossos muros, duvidar das mais sólidas muralhas. Em suma, na mais interminável das dialéticas, o ser abrigado sensibiliza os limites do seu abrigo. Vive a casa na sua realidade e na sua virtualidade, através do pensamento e dos sonhos.» (2)

Uma das mais fortes consequências deste nosso envolvimento com o ambiente construído relfecte-se na ideia de pertencermos a um sítio, a uma terra. Não se explica facilmente. Há uma relação emocional forte que nos liga e torna-se parte de nós. Em Portugal pode assistir-se a um fenómeno muito interessante neste campo: a Aldeia da Luz. Condenada ao afogamento pela barragem, construiu-se uma réplica que se quis idêntica. Tratou-se da reconstituição integral de um sítio. Porque, e principalmente devido à idade da população residente, do sítio não se pode abdicar. Seria violento fazer desaparecer todas as referências espaciais de toda uma aldeia. A opção, reconstruir, é polémica. Põe-se a questão: as pedras estão lá todas, mas estará o sítio? Porque o sítio traduz-se em relações interespaciais. E são essas relações que têm o poder de nos envolver:

«The spaces through which we go daily are provided for by locations; their nature is grounded in things of the type of buildings. If we pay heed to these relations between locations and spaces, between spaces and space, we get a due to help us in thinking of the relation of man and space.» (3)

Chegamos então à cidade. Será a cidade um ambiente humano? A pergunta que se fez: as cidade fazem mal às pessoas? De facto, a cidade traz consigo muitas agressões ao ser humano. Mas, e como foi referido, nem sempre é mau estar com muita gente. A cidade é por natureza o local de todas as contradições. Um exemplo: uma mulher chega a casa, de noite, e é assaltada. A área é densa. Há muita gente à volta. Seguindo o bom senso seria de esperar que o grito de socorro da mulher fosse prontamente atentido, por várias pessoas até. Contudo, a cidade, por ser um local denso, cria no homem uma protecção ao exterior, um sentido de indiferença face ao outro, um forte individualismo. Por isso a mulher arrisca-se a não ver o seu grito socorrido.

A cidade representa uma sobrecarga cognitiva. Um excesso de estimulação. Porquê? Pela concentração. Tudo acontece bastante perto. E acontece frequentemente. Por isso há a tendência para esse alheamento da realidade. Uma habituação a essa sobrecarga cognitiva passa, invariavelmente, pela construção de um modo de lidar com ela. Ignorar o que deve ser ignorado, atribuindo significados ao que deve ser valorizado. Nasce a vida de bairro. O bairro como uma extensão urbana da nossa casa. O local onde nos sentimos bem. Onde cada esquina está catalogada mentalmente. Onde se cumprimenta as pessoas que passam, que se conhecem, que se vêem diariamente. A cidade transforma-se num aglomerado de bairros. De comunidades.

É neste sentido que nós conseguimos lidar com a escala urbana. Decompondo-a, em pequenos pedaços. E atribuindo sucessivamente valores memoriais a cada fragmento. É a domesticação de um acontecimento que ultrapassa em larga medida a escala humana. O acto de tornar nosso algo que é exterior. LAC

(1) e (3) Heidegger, Martin. Building Dwelling Thinking
(2) Bachelard, Gaston. A Poética do Espaço, ed. Martins Fontes

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