O PROJECTO

Contribuições, insultos, projectos de execução, mas principalmente donativos chorudos para:

blog_oprojecto@hotmail.com (com minúsculas)

segunda-feira, outubro 25, 2004

 

a partir de hoje

Obrigado a todos os que se pronunciaram contra o fim deste blogue. Mas acreditem que neste momento preciso de parar. Talvez volte aqui um dia, muito provavelmente isso vai acontecer, mas por enquanto O PROJECTO vai de férias.

Acredito que os blogues definem um estilo. O que eu escrevo aqui está condicionado ao facto de ser escrito para aqui. Não sei se é inevitável ou não, mas acontece. Foi uma experiência muito enriquecedora, muito mais do que esperaria. Mas desgastante também.

No entanto, não vou parar de escrever. Num âmbito totalmente diferente, com outro ritmo, outro estilo, outros propósitos. Se calhar vai dar ao mesmo. Se calhar não. Mas o importante é que me podem encontrar aqui: Complexidade e Contradição.

 

Dois

O drama de se perceber que não temos nada para dizer. Um blogue carrega esse peso. Acordamos e não temos nada para escrever. Fica a dúvida se temos algo a dizer. Percebemos que não. Não. Hoje não tenho nada para dizer. É dramático. E estúpido. Devemos ter o direito de não ter nada para dizer.

 

Um

O desgaste. Escrever diariamente é um acto que nos consome. Um blogue só deve existir enquanto der prazer a quem o escreve. Já não tenho energia nem motivação para escrever este blogue.

domingo, outubro 24, 2004

 

Anúncio

Esta será a última semana de vida deste blogue.

sábado, outubro 23, 2004

 

Será que eles querem mesmo vender isto?

Já vi muita coisa no campo da simulação 3D, mas uma técnica como esta confesso que é a primeira vez (ver Expresso, página 16, está lá, «O Último Paraíso».) Ganhei o dia.


sexta-feira, outubro 22, 2004

 

manifes

Eu sabia que ia querer escrever sobre a manifestação de Coimbra, e do mártir João que passou umas horas na choça. Dois segundos depois percebi que não ia escrever coisa nenhuma, bastava-me esperar e apontar (Nem vi os resumos por causa disto!).

 

O velho que caiu

Tenho de discordar de JPP. A queda de Fidel Castro não é só um velho a cair. Não sei a que gozo se refere JPP, e admito que muitos «meninos» tenham perdido a noção desse gozo. A imagem de Fidel a cair fez lembrar a queda da estátua de Saddam: uma representação de um acontecimento real, no caso de Saddam existente, no caso de Fidel apenas sonhado. Ver Fidel tropeçar não é ver apenas um velho a cair, é uma sugestão demasiado sedutora para que possamos ter pena do velho que caiu. Ninguém deseja que Fidel tropece e «caia da cadeira» em directo e a cores, mas poucos são os que não desejam que isso aconteça de facto.

 

O efeito Luis Delgado

O DN mudou: agora tem uma nova imagem.

quinta-feira, outubro 21, 2004

 

Quando não tem nada para dizer, cite (rúbrica Oscar Wilde) #1

The only artists I have ever known who are personally delightful are bad artists. Good artists exist simply in what they make, and consequently are perfectly uninteresting in what they are. A great poet, a really great poet, is the most unpoetical of all creatures. But inferior poets are absolutely fascinating. The worse their rhymes are, the more picturesque they look. The mere fact of having published a book of second-rate sonnets makes a man quite irresistable. He lives the poetry that he cannot write. The others write the poetry they dare not realize.

[The Picture of Dorian Gray]

Nos próximos dias será assim. Estou com pouco tempo e energia para escrever, e calhou estar a descobrir Oscar Wilde no ano (na semana mesmo) do 150º aniversário do seu nascimento. Parece-me uma óptima altura para fazer aquilo que qualquer seu leitor faz, ou seja, citá-lo diariamente.

 

no comments

Maioria das Casas Vagas de Lisboa Está em Bom Estado

quarta-feira, outubro 20, 2004

 

explanar

Quando eu escrevi isto, o que queria mesmo dizer era isto (tirando a parte do cigarro porque não fumo nem faço tenções de começar a fumar):

«O princípio do frio
por Alexandre Borges

Só a habituação dos anos e aquilo a que a convivência social obriga me fizeram começar a gostar do verão. Hoje, reconheço, há nos meses quentes um efeito de regeneração que as sociedades não podem dispensar. Mas, por dentro, continuo a ser uma criatura do inverno e da aceitação de uma certa aura de sacrifício que o passar do tempo ganha quando principia a estação das chuvas. Por estes dias, isso começa a acontecer. O frio ganha horas ao calor e muitos pequenos prazeres redobram a sua importância. O duche quente matinal, as múltiplas peças de roupa onde nos aconchegamos, o café que nos recoloca em funcionamento antes de ir trabalhar, o cigarro que se lhe segue. O chá, o chocolate quente, a poltrona ou o pequeno bar acolhedor, conforme os estilos de vida. Os whiskies nocturnos, os abraços que abrem e encerram encontros. Porque o frio está lá para que o calor seja preciso.»

Vou ali deitar os dicionários fora porque depois disto nunca mais escrevo nada por vergonha.

 

Tens uma G3 a mais?

Adiro sem reservas a estas palavras, na certeza que não é a primeira nem a última vez que me atormentarão o espírito. A primeira reacção é lembrar outras palavras, ditas por quem jorra intuição a granel: «mas não podemo ir para cima da Serra da Estrela com uma G3 e desatar aos tiros.» Pois não podemos, principalmente porque na Serra da Estrela a única cidade considerável que se vislumbra é a Covilhã, e a Covilhã não é o alvo que pretendemos atingir, lá do cimo de Portugal Continental. Mas então o que fazer, como lidar com este conflito interior que nos revela o mundo à volta como o habitat natural de espectadores da quinta das celebridades? A culpa não é só da desilusão nacional que desceu sobre nós sem pedir licença. O problema é estrutral: vemos através dos nossos olhos, e enquanto não conseguirmos que os outros vejam o mesmo estamos limitados a simplesmente argumentar, sabendo que oitenta por cento da mensagem se perde entre o cérebro e a boca, isto é se falarmos, sendo que se perde entre o cérebro e os dedos se escrevermos. Descubro agora que perdi o rumo a este texto.

terça-feira, outubro 19, 2004

 

Dizem-me que lá fora o sol (não) brilha #6


O que é isto, o que é isto?
 

Deadline

Duas datas aproximam-se. São distintas, apesar de estarem relacionadas. Mas se uma custa a chegar, a outra parece perigosamente perto. E são a mesma. Como é isto possível?

segunda-feira, outubro 18, 2004

 

Derrida e o futebol



«A bola não entrou.»

 

Muito, muito importante

A report compiled by Lisa Fay Matthiessen and Peter Morris of cost-management firm Davis Langdon concludes that building green can have minimal affect--if any--on construction costs if sustainability goals are discussed and integrated early in the design process.

Report Disputes Extra Cost of Building Green

 

at the Pawnshop



mais concretamente, faixa número três.
 

A boa educação do fiscal

Armando Teixeira (Petit para os conhecidos) rematou, lá de longe, mandando a bola na direcção de Vítor Baía que, e só espantando os mais distraídos, não conseguiu segurar, deixando a redondinha entrar (na totalidade do seu diâmetro) na baliza. O fiscal de linha, perdão, árbitro assistente, perdão, árbitro auxiliar deixou a bandeira junto à coxa, indicando que o que tinha acontecido não tinha realmente acontecido. Foi uma questão de respeito, perfeitamente compreensível: afinal, Baía é o melhor guarda-redes da europa e há que respeitar a CEE.

domingo, outubro 17, 2004

 

Estranhas associações

Há qualquer coisa de Lost in Translation em Collateral. A impossibilidade de conquistar a grande cidade, a cumplicidade entre dois estranhos (de modos bem diferentes), o anonimato da noite, vidas perdidas. Talvez só diga isto porque para um europeu Tokyo e Los Angeles fazem parte da mesma estranheza. São duas faces da mesma moeda, histórias que só podem acontecer porque a cidade o permite, porque a grande cidade está-se nas tintas para o que nela se passa, seja uma impossível história de amor perdido ou uma estranha cumplicidade entre um assassino e um taxista iludido.

 

ISCJ

Mas Pedro, nunca pus em causa a qualidade da igreja. Como a sua «gémea pobre» de Almada, é um acontecimento único na arquitectura religiosa. Uma assembleia bruta, pesada, austera, ao mesmo tempo delicada com a luz e rica no tratamento do betão à vista. Uma obra-prima.

sábado, outubro 16, 2004

 

"extrude"



Continuam a dizer-me que lá fora o sol brilha, apesar de estar frio.


 

O Inverno

Desde pequeno que gosto do Inverno. Mais do Inverno do que do Verão. Não fui uma criança diferente das outras, gostava de praia, muito de mar, de calor, das férias. Mas ainda assim, sempre que perguntado, respondia «Inverno». Até quando comecei a descobrir que as temperaturas mais altas faziam descer a área do corpo feminino coberta, o Inverno nunca deixou de ser a minha estação preferida. Não engano ninguém: eu gosto mesmo de chuva e frio. Há quem diga que goste do Outono, para ver as folhas cair, ou da Primavera, para ver a flores desabrochar. Há até quem se refira ao Inverno com gosto, mas para falar dos dias de Sol e céu limpo. Eu sou mais bruto. Gosto do Inverno por aquilo que tem de melhor: chuva, terra molhada, frio, casas quentes. Bachelard, no seu Poética do Espaço, refere que o Inverno acentua a sensação de protecção que a casa oferece (não vou procurar a citação, não tenho paciência). É isso mesmo. Quando chove lá fora, cá dentro vive-se melhor.

Não há imagem mais bela do que uma cidade minutos após a chuva. Do cheiro ao brilho da pedra húmida tudo se apura com a água. As coisas lavam-se. Talvez haja aqui um significado moral para a chuva, não sei, um ritual massivo de purificação pública. (Agora que penso nisso não sei porque é as religiões sempre adoraram o sol e não a chuva.) O frio ajuda-nos a concentrar, a estar mais calmos. Que não haja dúvidas sobre isto: todas as diferenças culturais entre a Suécia e o Brasil são devidas aos registos do barómetros. (Talvez seja por isso que o Brasil não me atrai. À Suécia nunca fui.) Uma cidade deve ser conhecida no Inverno. Nunca percebi esta mania de se fazer férias urbanas no Verão. Barcelona em Agosto é de se fugir. Veneza com chuva será inesquecível (premonição).

No Inverno estamos com os amigos; no Verão com conhecidos. O calor desperta a predisposição para a amizade fácil, coisa que repudio. O frio aguça o espírito. Apesar de ser bastante discreto nesse aspecto, a moda de Inverno sempre me pareceu mais interessante do que a sua congénere Primavera-Verão. Os casacos, cachecóis, luvas, sapatos, etc, dignificam bastante mais o ser humano. É notório que os calções e chinelos sõ são usados porque o calor afecta gravemente a actividade cerebral. Não, não me esqueço do pormenor feminino nesta história. Acontece que a sugestão sempre foi mais interessante do que a coisa explícita. Uma mulher que não consiga encantar no Inverno é uma mulher que não interessa.

Escrevo isto no Outono. Ainda faltam dois meses para o Inverno. Mas hoje acordei e a pedra da varanda ostentava o brilho da água salgada. Abri a janela e o frio fez-se convidado. Na casa de banho o pés descalços acusaram a temperatura. É o Inverno a anunciar-se. Está a chegar.

sexta-feira, outubro 15, 2004

 

scaipe

Ao primeiro dia, o homem inventou a roda. Ao segundo, o Skype. O mundo nunca mais foi o mesmo.

 

quinze do dez

Faz hoje dois anos que a Coluna Infame começou. Só para lembrar.

 

a euforia do colectivo

Ainda sobre Nuno Portas. A Igreja do Sagrado Coração de Jesus, co-autoria de Teotónio Pereira e Portas, tem capelas mortuárias comuns. O conceito é pôr dois velórios a partilhar um espaço. Câmaras mortuárias comuns. Ouvi Portas dizer que não percebia o fracasso da ideia. Ouvi mesmo. Há dois anos.

 

Impagável

Nuno Portas, em imagens de 1978, a preto e branco, com o cabelo ao vento, despenteado, a zurzir contra «os capitalistas que mandam construir edifícios altos e que, certamente, moram em moradias longe deste problema.» Há bocado, na RTP1.

 

a invasão dos meninos bloquistas

A ler, no Mar Salgado, os posts O COSTUME, O COSTUME II, O COSTUME III.

quinta-feira, outubro 14, 2004

 

Declaração de ódio ao Gesso Cartonado, pladur para os amigos, passe a publicidade

Toda a gente gosta do pladur (com mínuscula para se perceber que me refiro ao material, não à marca). As razões são muitas. Posso enumerá-las:

1. É leve (a delícia dos engenheiros, que vêm reduzidas as cp, cargas permanentes)
2. É fácil de montar, e muito mais rápido do que uma parede de alvenaria de tijolo
3. Permite vazios interiores para passa tubos e merdas
4. Facilita manutenções e reparações
5. Mas 4 já não chegam?

Enfim, é um mundo todo que se abre. Mas eu odeio o pladur. Detesto. Cartãozinho só para os tectos falsos e, e. Porquê? Já tocaram no pladur? O tacto é por vezes esquecido nas lides da construção. Não falo da textura, essa é lisa e agradável, falo da incontornável sensação que se tem que aquilo é cartão (estão aqui a fazer-me sinais que é mesmo cartão, só que com gesso lá dentro). Fragilidade, é esse o problema. A leveza, que há bocado referi como vantagem, é algo que eu não quero numa parede. Uma parede é grossa, pesada, e tem inércia térmica. Inércia. Como é que o pladur pode ter inércia? Não pode. O pladur é um corredor de 100 metros, musculado e ágil. Uma parede é um gajo enorme e pesadíssimo, onde não passa nada. O Ricardo Carvalho é uma parede, percebem? Ninguém diz que o Ricardo Carvalho é uma placa de pladur, francamente. O pladur é coisa de gaja. O tijolo é d'homem, vamos lá chamar os bois pelos nomes. Um gajo toca no tijolo, dá murros, pontapés, cabeçadas, e ele reage. Imóvel. Senhorial. Nada o deita abaixo. O pladur é montado numas calhazinhas de alumínio, frágeis e assustadas, com jeitinho e parafusos. Mas o que é isto? Parafusos? Mas está tudo doido, ou quê?

Morra o pladur. Pim.

quarta-feira, outubro 13, 2004

 

No tempo do Bóbó

O futebol é hoje mal amado. Mas há quem lembre com saudade os tempos quando, apesar da limitação a 3 estrangeiros, o União da Madeira jogava com 11 brasileiros. A Caderneta da Bola está de volta.

 

Construindo descontruindo

Morreu Derrida. Não me interessa o que ele escreveu. Interessa-me o facto de ele ter inspirado uma das mais consistentes correntes arquitectónicas contemporâneas: o desconstrutivismo. Digo mais consistentes sem que isso implique uma valorização positiva. É consistente porque tem muitos seguidores, muita teoria, gerou muitos estrelatos. Por coincidência fazia referência na semana passada à Coop Himmelb(l)au, que representa o expoente do movimento. Expoente porque empurram as suas obras até às últimas consequências. Mas claro que não são os únicos. Eisenman, Libeskind, Zaha Hadid, Gehry, Gunter Behnisch, Owen Moss, Tshumi, entre outros, todos vivem ou viveram o fascínio de se desconstruir. Agarrado a este fascínio vem a noção de que tudo isto é contrário à própria natureza da arquitectura, tudo é sedutoramente contraditório. Talvez por isso o desconstrutivismo tenha sido a coisa mais coerente e interessante que o pós-modernismo tenha gerado. Para quem estuda arquitectura e conhece minimamente as suas premissas e códigos, o desconstrutivismo é sempre interessante. E perigoso. Perigoso porque não deixa de dar a impressão de ser algo de masturbatório, passe a expressão, algo que se entretém sozinho. Uma obra desconstrutivista é exageradamente elitista. É snob. Só é acessível a alguns. Aos outros resta uma de duas reacções: ou espanto ou desdém, as duas baseadas no facto de ser algo de incompreensível. Por isso o desconstrutivismo não resolve nada, não acrescenta nada, não faz a arquitectura andar para a frente. São obras de orçamento elevado. O desconstrutivismo deve muito do seu sucesso aos media. Mais interessante do que uma obra desconstrutivista é a imagem de uma obra desconstrutivista. E as páginas das revistas agradecem.

terça-feira, outubro 12, 2004

 

Parece que isto sempre vai para a frente


Braço de Prata Housing Complex, Renzo Piano


The « Braço de Prata » residential and shopping complex in Lisbon is as much a urbanistic as an architectural project. Located in a "black hole", an empty area of the city which used to be an industrial zone, this projects aims to create ex-nihilo, and to link to the city, an area in mutation, halfway between Lisbon's centre and the 1998 Universal Exhibition site. If the aim of the project is to transform it in a lively place, the industrial memory will be an inspiration for the project.
 

debate

Na RTP discute-se Direita e Esquerda. É fantástico que não esteja lá ninguém do PCP. Pois claro, o Louçã tem de lá estar, e não se podia dar 2 lugares a radicais. Mas com a expressão que tem o PCP no país não se percebe esta discriminação.

Só mais uma nota. Toda a gente sabe que esta discussão é muito melhor aqui, na blogosfera. (Vejo o Pedro Lomba, que saudades da Coluna Infame.)

segunda-feira, outubro 11, 2004

 

Intervenções sonoras

Trabalho a ouvir Jazz. Anos 40, 50, 60. Farto-me. Mudo para música Barroca. Será que isso vai influenciar o projecto? Será que vou passar a ter, sem dar por isso, frontões quebrados, pilastras duplicadas, capitéis coríntios e plantas elipsoidais? E será que antes tinha uma coisa tardo-moderna? Cheia de regionalismos críticos e betão à vista?

P.S: Este post, apesar de o parecer, não foi escrito apenas para dizer que oiço Jazz e música Barroca. Quem me conhece sabe bem que se me tiram o Miguel e André tiram-me tudo.

 

Engenharia para impressionar arquitecto

Às vezes a situação inverte-se. «Olha, o que eu queria aqui era um vão de 20 metros, a voar, sem pilares, e só apoiado em meia secção, estás a ver, com 4 metros de consola ao longo dos 20 metros...» Para não dar uma de lunático, lá continuei «mas se tiver que pôr pilares, paciência, é uma questão de desenhá-los, estou preparado para os ter.» Eis que o engenheiro, depois de coçar a cabeça durantes um segundo vírgula trinta e sete centésimos, resolve a quesão: «pomos aqui um caixotão, de 4 por 1, que aguenta à vontade os 20 metros, apoiado nestas paredes estruturais que aqui tens.» Mais doze segundos e quarenta e dois centésimos. Refira-se que o "1" é de altura. 20 metros. 1 de altura de estrutura. E esta, hein?

 

A promoção do blogue

Uau. Hate comments.

 

Kryptonite

Morreu o Super-Homem.




 

antes um condomínio privado que uma ruína pública

A ler, no Planeta Reboque, A REABILITAÇÃO URBANA E LISBOA (X) - OS INGLESINHOS.

sábado, outubro 09, 2004

 

Outra vez

A 29 de Agosto tinha dado conta de uma situação extraordinária: no site da Ordem dos Arquitectos, Secção Regional Sul, na parte que tem como título «Recortes de Imprensa», aparecia uma notícia sobre a campanha eleitoral do PS. Nessa altura pus a hipótese da selecção ser feita automaticamente, tendo identificado a expressão «Ordem dos Arquitetos» na notícia (referência a Helena Roseta), justificando-se assim a sua aparição misteriosa.

Voltou a acontecer. Desta vez com uma agravante. Por uma razão que desconhecemos todos, a Ordem dos Arquitectos julgou importante colocar nos seus «Recortes de Imprensa» uma colectânea de artigos do Público sobre Sócrates e o PS, publicados no dia 3 de Outubro. Fiz o teste: nem uma única vez aparece a palavra «arquitectura», ou «arquitectos», ou, em desespero de causa, «Helena Roseta».

O que estão lá a fazer aqueles artigos?

 

Ilustração

Curioso. O post d'A Barriga de um Arquitecto que referi em baixo vinha ilustrado com uma imagem de Steven Holl. Confesso que não percebi. O Daniel alterou-a para uma imagem de um projecto de habitação de Manuel Aires Mateus. Um projecto, no mínimo, estranho. Uma casa sem janelas. Um objecto ultra-rígido. Um projecto que implica, necessariamente, uma vontade muito grande do cliente. Porquê essa imagem?

 

O convento e o condomínio

A ler, n'O céu sobre Lisboa, este texto sobre o caso da transformação do Convento dos Inglesinhos em condomínio privado. Vai de encontro ao que eu tinha dito aqui.

 

Notas finais (não são finais ,mas a expressão parece-me adequada aos dias que correm)

1. O Desesperada Esperança voltou à lista de links. Com em atraso imperdoável, depois do episódio que obrigou o Bruno Alves a mudar para uma casa nova, ponto.com e tudo.

2. O espaço de comentários dos Marretas chama-se agora O CANTINHO DO CONTRADITÓRIO. Eh, eh.

3. Como já se percebeu, ando à caça do link. Desde que bloqueei as minhas próprias visitas no Sitemeter isto nunca mais foi o mesmo. Por isso, e já que perdi a vergonha toda, aqui vai mais um link: AUTO-ESTIMA, OPTIMISMO, PATRIOTISMO, no Aviz. Brilhante.

 

Luzes sobre o assunto

As linhas que escrevi ali em baixo há dias motivaram o Daniel a lançar-se na tarefa de tentar perceber e explicar para que serve a arquitectura. Só me resta apontar e recomendar. Vale a pena. Ora vejam:

«Não é indiferente, por exemplo, crescer numa escola-prisão feita de blocos pré-fabricados, desconfortável, onde faz frio e nos sentimos mal, ou crescer numa escola luminosa, arejada, que melhora a interacção das pessoas, que nos dignifica e faz sentir bem e nos faz, por fim, sermos pessoas melhores. E isto é verdade na escola, no hospital, no local de trabalho, na rua ou na cidade.»

Nem mais.

 

O enigma de Railwosky


«Derrière la Gare Saint-Lazare, Paris, 1932»


Que faz uma boa fotografia? A rima da sua informação com a organização geométrica e cromática (se for caso disso); os jogos com a dinâmica ou a suspensão do tempo. Há fotografias paradas e outras em risco de desequilíbrio. O olho, tal como a óptica, é geométrico - a luz propaga-se em linha recta - e a visão julga e aprecia em termos de estruturas.

Começa assim a análise que Jorge Calado faz hoje no Expresso (Actual) desta fotografia de Henri Cartier-Bresson. Eu já tive o previlégio de assistir ao vivo a esta análise. Pude constatar o brilho nos seus olhos ao falar desta imagem. É uma viagem fascinante ao mundo dos objectos e dos seus significados, da dupla interpretação, da ambiguidade, das tensões e contrastes da vida humana.

Página 38, não há que enganar.

sexta-feira, outubro 08, 2004

 

Ventania

Finalmente, o Outono.

 

Sábios ensinamentos

A arquitectura não se ensina, aprende-se.

Ouve-se muito, mas raramente percebemos o que quer dizer. Mas é verdade.

Um professor que tive dizia, a propósito da localização das casas de banho em locais públicos (restaurantes, bares, teatros, etc...): «As casas de banho têm de estar onde esperamos que elas estejam. Um gajo tem de entrar num sítio e, mesmo sem nunca lá ter estado, ir directo a elas.»

E, no mesmo tema, explicava sobre o modo como se fazia a passagem entre a casa de banho e o espaço adjacente: «Tem de haver um espaço qualquer onde um gajo aperte a breguilha. Já saiu da casa de banho e está a acabar de secar as mãos nas calças, ou qualquer coisa do género. São coisas que não se devem ver.»

Ou então sobre restaurantes e bares: «Um gajo está com uma mulher e não quer ser visto com ela. Vocês percebem, somos todos adultos. E chega a um restaurante para jantar. É preciso que haja um sítio qualquer de onde se possa ver quem está mas sem ser visto. Para evitar situações desagradáveis.»

Já agora, um doce a quem perceber de quem falo.

quinta-feira, outubro 07, 2004

 

Os Velhos

Ainda sobre o património. Em Roma, o ex-libris da coisa, a regra é simples: não se pode demolir nada com mais de 100 anos. Ponto. Os exemplos são tantos e tão bons que torna-se difícil abordar a questão de outra forma. Por isso fecha-se a porta e deita-se fora a chave. Tem mais de 100 anos? Fica. Tão simples como isso.

Esta atitude é perigosa. Perigosa por várias razões. Se, digamos, no período Gótico se vivesse esta histeria historicista que hoje se vive, talvez esta medida dos 100 anos fosse possível. Por isso, lá para os séculos XIII ou XIV trancar-se-ia a porta da evolução: acabaram-se as demolições. O Renascimento que vá assentar arraiais fora de portas porque o centro histórico é para ser preservado.

Pois. As cidades só são o que são, só são esse palco priviligiado da vida humana, porque vivem em permanente mutação. As demolições são necessárias. As células velhas têm de morrer para dar lugar às células novas. Porque a alternativa é a imobilização total da cidade. A protecção integral dos seus componentes. É a plastificação completa. A criação de um postal ilustrado vivo, ou melhor dizendo, embalsamado. Os habitantes dessa cidade onde não há nada com menos de 100 anos fartam-se. E saem. A cidade, ou o vestígio da cidade, permanece. As pedras permanecem. Mas a vida vai-se embora.

No Pixel Points fala-se da elevação do Modernismo a património. Fala-se do tempo, não muito distante, onde o Modernismo adquirirá a conotação emotiva de passado. Porque o património é isso. Tudo, bom ou mau, ganha valor com o tempo. O tempo é um capital valioso. Alfama, com a sua sucessão de espeluncas a que chama de «casas», é um capital valioso. Os habitantes que se lixem. Há uma cultura a defender.

O que acontecerá quando as cidades forem constituídas integralmente por edifícios com mais de 100 anos?

 

A demolição do Convento dos Inglesinhos

Outra vez a questão da defesa do património. De um lado o liberalismo económico; do outro a consciência do bom senso. Não sei que posição tomar. Parece-me que, em condições normais, o IPPAR resolveria a questão. Mas o IPPAR é o IPPAR. E o IPPAR aprovou a substituição do Convento pelo condomínio. E agora? Vamos tomar de assalto a sua sede e só sair de lá até que voltem com a palavra atrás? Não me parece. Como não parece também que as acções populares tenham algum efeito, principalmente, e aí o Manuel tem razão, quando a situação chegou ao que chegou sem que ninguém se tenha indignado. Parece-me que a indignação tem mais a ver com o que aí vem do que com o que vai, ou seja, um condomínio do Bairro Alto é mais ultrajante do que a demolição do Convento. A prova do que digo está no próprio texto de mobilização da vigília: «O Grupo Amorim aproveitou-se do desprezo da Câmara pelo património colectivo e quer transformar o CONVENTO DOS INGLESINHOS num Condomínio de Apartamentos de Luxo.» Como se vê, o problema parece ser o facto de um grande grupo económico ir construir apartamentos de luxo. João, a ideologia está bem presente.

Em condições normais a Convento não tinha chegado ao que chegou e seria um equipamento ao serviço da cidade. Mas chegou ao que chegou. E agora vai ser demolido. Acho que devíamos concentrar as energias no património que ainda pode ser conservado (ai como detesto esta palavra), não naquele onde manifestamente não há nada a fazer.

 

O caso Marcelo

A solução é evidente. Caro Professor, crie um blogue. Aqui ninguém faz pressões. Não há Paes do Amarais para chatear a gente. Força. Os gajos do Google nem saberão da sua existência.

quarta-feira, outubro 06, 2004

 

6.10

Se fosse vivo, faria hoje 117 anos.



Mas não é por isso que o dia de hoje é importante.

segunda-feira, outubro 04, 2004

 

Porque hoje é Dia da Arquitectura

Ouvi Helena Roseta há pouco, na RTPN, falar sobre o Inquérito à Arquitectura do Século XX em Portugal. Dizia que é importante que as pessoas «aprendam» a apreciar a arquitectura. O argumento é simples: quem não tem um mínimo de formação não pode apreciar a arquitectura de qualidade e, bastante mais relevante, distinguir essa arquitectura daquela «medíocre». Totalmente de acordo.

Mas muitas dúvidas que se põem.

É muito difícil que o povo se eduque de um dia para o outro. Adquirir essa formação mínima que torne possível a identificação da arquitectura de qualidade é algo que apenas estará disponível a muito poucos. Muito poucos mesmo. Por isso, será relevante apostar nesta formação pública? Ou será demasiado idealista?

O público leigo chega lá por outras vias. A arquitectura é um serviço que é prestado a alguém que compra esse serviço. Arquitectura de qualidade significa portanto um serviço de qualidade. Se quem paga não fica satisfeito com o resultado nenhuma crítica positiva da classe salvará a obra.

O primeiro passo é por isso este. Ganhar a confiança do público sobre a utilidade e as vantagens em contratar um arquitecto. Convencer, através de obras concretas, que a arquitectura é um meio para melhorar a vida das pessoas.

Não se trata de reduzir a arquitectura a uma questão imediata de causa-efeito. Não nos podemos esquecer da realidade portuguesa. Internacionalmente a crítica não poupa elogios à arquitectura lusa, mas dentro do país poucos são aqueles que estão conscientes disso, e ainda menos são os que valorizam esse facto. Há uma enorme discrepância entre o que é a arquitectura dos arquitectos e a arquitectura do público.

Só depois de afirmada esta posição é que se pode ambicionar à tal situação onde o transeunte passará a distinguir a arquitectura boa e a arquitectura medíocre. Isso só acontecerá quando ele próprio exigir em sua casa a presença da arquitectura de qualidade. E, convenhamos, isso significa despesa. A arquitectura paga-se. O pato-bravo é mais barato: é mais rápido, mais simples, mais tosco. É um grande passo assumir a predisposição para essa despesa com a arquitectura. Isso só é possível se em vez de «despesa» falar-se em «investimento». O que ganho eu em contratar um arquitecto? Esta questão tem de estar bem clara.

Querer passar do actual estado para uma mobilização nacional em torno da cultura arquitectónica apenas com um inquérito parece-me demasiado voluntarioso.

 

Bom dia!

O Abrupto hoje dá-nos isto:

É isto a cultura: uma invenção da imaginação humana, contra natura, contra o terror, contra o caos, por uma ordem superior feita de um teatro de convenções simbólicas que nos protegem, e que são a civilização. Tudo muito frágil, tudo construído, tudo inventado, tudo quase no limiar de nada. (...) A cultura é uma frágil defesa, mas existe. Está ali, em pedra, símbolo de obediência do homem a convenções abstractas que ele criou e que só existem quando há vontade que existam. Nada depende mais da vontade do que a cultura e a civilização. Somos nós que as fazemos, somos nós que as desfazemos.

domingo, outubro 03, 2004

 

logicamente, pois... na realidade hum!

Jornalista da Sporttv, com um indisfarçável sotaque nortenho: «Nuno Gomes, eu sei que o jogo é só daqui a 15 dias, mas como é que vai ser, sabendo que o Porto está a apenas 2 pontos e pode passar o Benfica em caso de vitória?»
Nuno Gomes: «Pois, mas nós estamos a 4 pontos, e só pensamos na vitória.»

 

Des-con

Já tive o meu fascínio pelo desconstrutivismo. Toda a gente passa por isso. No meu caso, isso deveu-se a estes senhores da Áustria. E, de tempos a tempos, lá volto a cair na tentação. Confesso, sou um pecador.








 

TV Zapping

Ontem, na Sic Mulher, Guta Moura Guedes entrevistou Pedro Appleton e Paulo Martins Barata, co-responsáveis do Promontório. Infelizes daqueles que, como eu, não viram. Só apanhei o fim. Por exemplo, Martins Barata a dizer que hoje é difícil para aqueles que praticam uma arquitectura mais calma e silenciosa participar nos grandes concursos internacionais, tal é a enorme vontade da «espectacularização da forma» a que se assiste hoje. Ou Pedro Applenton reclamar uma «grande revisão» do RGEU, combatendo a actual situação de mil e uma leis que regem as edificações, frequentemente em contradição. A entrevistadora pediu então, em jeito de provocação, a reacção dos convidados a Frank Gehry. «Alguma curiosidade, mas certamente que nenhuma afinidade», respondeu Martins Barata. E, quando solicitado ao name dropping das influências, Martins Barata não hesitou: «Pardal Monteiro».
Sábias palavras, sábias palavras.

sábado, outubro 02, 2004

 

Serviço público

«Deixa-me ver o teu cu», dizia a senhora que me estava a atender para uma colega que acabava de chegar. «Estás muito mais magra». As pessoas que esperavam pela sua vez na estação dos Correios dos Restauradores, que esperassem. Ali tratava-se de assuntos sérios. Já tinha pago o que tinha a pagar, estava só a acabar de escrever a morada no envelope almofadado. A senhora, a tal que queria ver o cu da outra, podia ter chamado o cliente seguinte. Mas, como afinal só estavam 20 ou 30 pessoas para serem atendidas, a senhora achou que podia perguntar pelo cu da outra, dizer-lhe que estava mais magra. Continuou a apreciar a evolução da celulite da amiga enquanto eu acabava de escrever o que tinha a escrever. Acabei. «Já está tudo, amigo, já pagou, pode ir». Isso já eu sabia, obrigado. Só não sabia é que aquele pequeno episódio me tinha tornado amigo da amiga que queria ver o cu da outra.

quinta-feira, setembro 30, 2004

 

Sinais dos tempos

Tenho a idade que tenho. Para mim mandar um sms para o outro lado do mundo e receber uma resposta em 30 segundos não me impressiona. Estar num chat internético com uma ligação wireless com alguém a mil quilómetros de distância é banal. Video-conferência, been there, done that. Mas eis que aparece o reverso da medalha. Fui enviar uma carta, para longe. «Quer por correio azul, para chegar mais depressa?», perguntou-me o funcionário dos CTT, ali no Rato. «Não», respondi, não me dando ao trabalho de explicar que se quisesse urgência mandaria um e-mail, não uma carta. Fiquei a achar que a carta iria demorar uma eternidade a chegar. Demorou 3 dias. 3 dias apenas. Fantástico. Nunca pensei. Estas tecnologias...

 

As Sete Falácias: Ser lento e nu num mundo mediático e acelerado

[Os media não só apagaram o moderado e o local, como também encorajam e precipitam mudanças com um apetite que a arquitectura nunca será capaz de satisfazer. A ciência e a tecnologia podem oferecer essa mudança constante que os media exigem, mas a arquitectura e o urbanismo construídos são tipicamente muito lentos, complicados e caros. O ambiente construído está a ficar cada vez menos permanente, isso é um facto, mas ainda é o maior investimento da sociedade e uma das suas realizações mais antigas. A AIA (American Institute of Architects) e a ACSA (Association of Collegiate Schools of Architecture) bem podem organizar uma equipa para entrar na NBA ou na NFL para tentar competir com a velocidade da arte, da música, e da indústria do entertenimento. Os tijolos e as argamassas, o aço e o vidro, as árvores e os lagos, podem ser lentos, mas a sua imutabilidade e permanência são cada vez mais apelativos e potentes num mundo virtual.

Só a arquitectura virtual pode acompanhar este vício dos media da novidade e das grandes e excitantes descobertas da ciência e da tecnologia, bem como dos novos materiais e processos. A arquitectura também pode por vezes voar, mas precisamos de aceitar e saber aproveitar o facto de que o nosso meio é normalmente local, pesado, caro, diferente em cada sítio, humano, e mesmo humanitário - e lento e calmo, quando comparado com, digamos, a MTV. Todos os edifícios são realidade palpáveis e nus a todos os sentidos. São acontecimentos físicos, não realidades electrónicas como os media digitais, onde os erros podem ser simplesmente apagados já depois da fase de produção.

Como se os media não bastassem, a arquitectura precisa ainda de um cavalo de Tróia para ultrapassar o «Tribunal dos Grandes Inquisidores». A frase de Dan Solomon refere-se aos promotores, aos spin doctors, aos legisladores, aos burucratas, aos engenheiros, aos empreiteiros, aos banqueiros, e ao gosto público. A arquitectura sempre teve dificuldade em ser bem sucedida com base apenas no seu próprio mérito. Os projectistas também procuram alguma coisa que os faça sentir que não estão a ser arbitrários ou caprichosos. Foi a engenharia dos primeiros modernistas, a cultura social dos anos 60, a energia nos anos 70, o historicismo pós-moderno e a teoria literária dos anos 80, e os computadores nos anos 90. Hoje, as bases de apoio mais prometedoras de uma «boa arquitectura» são o urbanismo e a sustentabilidade. Estes impertativos gémeos são não apenas fins nobres, mas possuem também o apelo necessário para ultrapassar os Inquisidores, oferecem a bússola para reorientar o desenho, e têm a capacidade para revigorar a cultura arquitectónica.] FIM

quarta-feira, setembro 29, 2004

 

Momento Sic Radical do dia

This is a city that's dominated by a number of people who have been radically inventive in their professional lives but, at the same time, radically normal in their private lives, in how and where they live, the houses they buy, the way they dress. And I can understand it, I suppose--maybe you invent better if you live in a degree of conflict.

Rem Koolhaas, in Metropolis, «Reading Rem: An Exclusive Q&A with Koolhaas», 27.09.2004

Ignorando a maravilhosa expressão «radically normal», esta ideia exposta por Rem Koolhaas é, no mínimo, pouco inteligente. Koolhaas acha que, pelo facto de uma pessoa se vestir de uma forma «radicalmente normal», pelo facto de ter uma casa «radicalmente normal», ou pelo facto de viver num sítio «radicalmente normal», deve por isso ter uma vida profissional «radicalmente normal». Como isso não acontece, já que estas pessoas de quem fala são profissionalmente muito inventivos, então só podem viver em conflito. Não espanta, vindo de uma cabeça que só pensa no Extra Large e no totalitarismo (intelectual, político, arquitectónico, etc...) É o velho complexo da esquerda contra o conservadorismo: até na maneira de vestir temos de ser progressistas, chiça! Bom, é deixá-los falar...

 

As Sete Falácias: #7, «Mais, Maior, Mais Alto»

[Até ao embargo de 1973, a arquitectura Modernista, bem como toda a sociedade Ocidental, vivia num alegre consumo e exploração dos recursos naturais. Mesmo com as massivas reformas ambientais e com as alterações universais de comportamento que emergiram durante as décadas de 70 e 80, os Americanos ainda consomem cerca de 5 vezes mais do que a sua cota energética e produzem uma quantidade semelhante de gases estufa. A nossa casa média ocupa hoje um lote maior e cresceu cerca de 40% na última geração, ainda que os agregados familiares tenham diminuído. Em 1900, a casa média americana nem tinha casa de banho; em 2000 a casa nova média tem menos ocupantes do que casas de banho! E gastamos mais nelas por metro quadrado do que em espaços públicos.

A responsabilidade legal tradicional do arquitecto na América de proteger «a saúde pública, a segurança, e o bem-estar» precisa de ser recalibrada: por saúde pública já não se entende o controlo de doenças infecciosas mas a limpeza dos terrenos livres e do ar poluído; a segurança é mais sobre ruas seguras e segurança nos edifícios do que a protecção a colapsos estruturais e controlo do risco de incêncios; o bem-estar é hoje mais sobre a conservação dos bons locais existentes e a criação de novos ambientes calmos e acessíveis num mundo cada vez mais caro e frenético.

As três bases da sustentabilidade - Ambiente, Economia, e Equidade - precisam de um quarto vector, a Estética, como Fritz Steiner e outros arquitectos paisagistas têm indicado. Porque se um edifício, paisagem, ou uma cidade não forem belos, não serão amados; e se não são amados não serão mantidos nem sustentados. Adicionar a Estética ao conceito de sustentabilidade é a chave que falta para tornar mais «verde» a cultura arquitectónica profissional e académica.

A arquitectura pode fazer muito mais com muito menos. Vamos ensinar a próxima geração bem como a nós próprios a construir menos mas melhor, e com menos; a reciclar; melhor ainda, a reutilizar; a projectar para o «agora a longo prazo»; a lembrar que a sustentabilidade e a justiça ambiental são intergeracionais bem como internacionais.]

terça-feira, setembro 28, 2004

 

n. 1981



E já que se fala no The Village, atenção a este nome: Bryce Dallas Howard.
 

The Village

O novo Shyamalan, e está tudo dito. Mas estará? Shyamalan aproveita-se da situação: o público já o conhece, sabe que há um estilo Shyamalan. E corre para as salas de cinema, à espera de. Todos criam os montros nas suas cabeças, mesmo antes de entrar na sala. A predisposição para o medo é evidente. Shyamalan sabe disso. O seu último filme, The Village, é um hino à sugestão. É uma obra-prima. É uma história de amor. Um filme que nos faz abrir os olhos, ou que nos mostra que às vezes o melhor é não os abrir. De uma certa maneira todos vivemos na nossa própria reserva territorial. Estará tudo na nossa cabeça?

 

A cidade do Barão

His work had destroyed much of the medieval city. It is estimated that he transformed 60% of Paris' buildings.

Confesso que, apesar de perceber que a esquerda goste do que Paris representa, nunca percebi como é possível que a esquerda goste realmente de Paris. (Nota: nunca fui a Paris, só a conheço através de fotografias, plantas e da história da arquitectura.) Explico o porquê desta minha perplexidade. Paris é, essencialmente, fruto de um urbanismo autoritário, quase sanguinário. A sua monumentalidade, o gosto pelo requinte académico, os quarteirões deitados abaixo e as pessoas desalojadas, tudo contribui para um fenómeno que nunca poderia ter acontecido em democracia. Este é o ponto fundamental: Paris não seria possível em democracia. Por isso achei normal este texto do Rui Tavares no Barnabé, A minha sentença de morte: Paris é pior do que o nó da Buraca. Apesar de não concordar, por exemplo na argumentação totalmente a despropósito sobre a torre Eiffel, é uma opinião que cai bem à esquerda. Ainda por cima o homem era Barão, quer dizer.



segunda-feira, setembro 27, 2004

 

Parem as máquinas, ou Ó meu amigo, o que aconteceu foi muito simples

É oficial. Em Novembro, vai sair o DVD do Gato Fedorento.

 

As Sete Falácias: #6, «O Centro Esquecido», ou «Apenas o Rico e o Pobre»

[Desde que a civilização construída existe os arquitectos têm servido o poder - quer seja o estado, a Igreja, a aristocracia ou oligarquia. O patronato das elites não é surpreendente, dado o elevado preço dos edifícios. O Iluminismo e o Modernismo, honra lhes seja feita, expandiram o repertório dos arquitectos de modo a incluir a habitação social e as estruturas utilitárias do dia-a-dia. Mas desde o declínio do Movimento Moderno, a academia e os profissionais têm de um modo geral desistido desta agenda social progressiva. As razões deste fracasso são estruturais e estão para além do nosso controlo, por exemplo, as correntes de resregulamentação, globalização e consumismo.

Também traímos a nossa obrigação profissional de não causar danos e a nossa confiança pública de contribuir para a alegria e diginidade humanas. A maioria dos nossos projectos são para os 5 ou 10 porcento priviligiados - ricos clientes privados, governo, instituições, e clientes empresariais. (As empresas de arquitectura cobram 50% da sua facturação a comissões institucionais.) Ainda fazemos muito pouco trabalho para os 5 ou 10 porcento mais desfavorecidos, por exemplo habitação para os pobres, os doentes, e estudantes universitários. Devemos expandir o nosso serviço, incluindo pro bono, para as classes económicas mais baixas, especialmente para os povos que não são americanos por escolha como os afro-americanos e os nativos.

Contudo, a grande omissão é a classe média. Nem patrões, clientes, ou classes protegidas, este «quarto estado» da clientela de arquitectura é o indivíduo, parte desse grande exército de consumidores que compra casas como quem compra carros e frigoríficos. Apesar do trabalho dos arquitectos influenciar indirectamente a sensibilidade vernacular, nós geralmente vemos o gosto da classe média como vergonhosamente banal e indigno da nossa atenção. Tirando os apologistas do New Urbanism, a maioria dos arquitectos receiam trabalhar neste mundo sem classe de construtores e empreiteiros, banqueiros, e casas-modelo, apesar de isso representar o núcleo do ambiente construído.]

domingo, setembro 26, 2004

 

As Sete Falácias: #5, «O Global triunfa sobre o Local»

Desde que Alberti e Palladio se abriram a uma audiência internacional (ainda que Ocidental), os arquitectos têm procurado empregos e reconhecimento bem fora da sua comunidade e clientela locais. Lidando não só com a construção de edifícios mas também com o mundo das ideias, os arquitectos (e artistas) tornaram-se rapidamente os pares sociais e intelectuais dos seus mecenas aristocratas. Também criaram uma rede, então continental, agora global, de crítica e publicação, onde os livros, os prémios, e as revistas são frequentemente o verdadeiro local de competição e status. E onde a fotografia - e recentemente a imagem digital - é priviligiada, às vezes mais do que e às custas do verdadeiro objecto. Se a rede global de hoje é electrónica, a rede local tem de incluir uma existência pública diversa, cara-a-cara, cada vez mais essencial quando as comunidades se polarizam.

Haverá sempre procura para edifícios de assinatura das grandes estrelas internacionais, devido ao seu elevado nível de talento. (Nós, os académicos, esquecemo-nos do díficil que é desenhar e construir um edifício de qualidade.) Seria culturalmente mais enriquecedor se estes edifícios de assinatura enveredassem por uma atitude de diálogo com os valores, tradições e sensibilidades locais (ex: o Centro Cultura da Nova Caledónia de Renzo Piano.) Projectos que são específicos para um sítio, clima, cultura, história, materiais de construção, e práticas determinadas - o que já foi chamado de Regionalismo Crítico - põem em sentido a força das grandes marcas globais.

sábado, setembro 25, 2004

 

raio de calor

A estação já mudou, mas o Outono custa a chegar.
 

Olha, afinal sou de esquerda

Fiz o teste. Fui insultado:



Eu só não percebo é porque razão num teste para se determinar opções políticas se colocam questões como: «Abstract art that doesn't represent anything shouldn't be considered art at all.» Enfim.

sexta-feira, setembro 24, 2004

 

As Sete Falácias: #4, «A arquitectura triunfa sobre o urbanismo»

[Se os estudantes e profissionais são em primeiro lugar artistas e só arquitectos em segundo lugar, são urbanistas em terceiro lugar. As nossas cidades são demasiadas vezes como uma Esposição Mundial de edifícios isolados, cada um a excepção à regra e gesticulando mais amplamente do que o próximo para chamar a atenção. São abstractos e sem escala, recusando-se de modo algum a convergir com os vizinhos. Um circo arquitectónico de estilos ou uma profusão tipológica não fazem uma cidade. Nem são emblemáticos de uma cidade democrática, como apregoa Frank Gehry, entre outros.

Uma hierarquia coerente de tipos arquitectónicos, de tipo de ruas, e de espaços públicos com uma distinção clara entre edifícios de primeiro plano e edifícios de segundo plano ? podem resolver e tornar legível a complexa mistura dos usos do solo e das funções dos edifícios que as cidades sempre tiveram. A tipologia gera edifícios menos egoístas que nem sempre clamam para ser o centro das atenções. À medida que voltamos a um urbanismo de usos mistos preocupado com o peão e com os cruzmentos entre pessoas - a única tendência sobre a qual toda a gente desde Krier até Koolhaas concorda - o tipo arquitectónico torna-se mais importante do que o estilo arquitectónico.

Devemos também ter presente que a arquitetura não faz escala. Porque o corpo humano é fixo na sua dimensão e alcance, a arquitectura não pode simplesmente ser ampliada ou reduzida como uma fotografia. Os princípios de composição e as experiências espaciais alteram-se com a escala, e isto é a razão pela qual Corbusier foi um grande arquitecto mas um perigoso planeador de cidades. A arquitectura tem de abdicar dos direitos adquiridos sobre o urbanismo nos últimos 75 anos, em que o planeta evoluiu de uma predominância rural para uma situação de semi-urbanidade.]

quinta-feira, setembro 23, 2004

 

Legalize

Passou por mim hoje um homem, nos seus vinte e tais, de aspecto moderado, vestido de preto, com uma t-shirt que ostentava em letras calmas e brancas: «LEGALIZE MURDER». Ele parecia tranquilo com isso.

 

As Sete Falácias: #3, «La Tendenza Estrema»

[Os movimentos contemporâneos não têm passado de tendências ou modas. São normalmente impulsos impetuosos e pormíscuos para posições extremas, frequentemente posições polares. O pêndulo está mais rápido do que nunca, balançando de um extremo para o seu oposto dialéctico. Por exemplo, o domínio da forma sobre o fundo na minha geração deu lugar a um domínio do fundo sobre a forma, e do padrão sobre a composição. O encanto recente por imagens e padrões hiptnóticos gerados por computador será mais positivo quando penetrar mais profundamente nos estratos físicos, económicos, ecológicos e sociais mais fundamentais.
E a máquina dos media, sempre à procura do choque, normalmente aborrece-se com o equilíbrio e a moderação, e tem vistas curtas sobre as consequências e efeitos colaterais do novo. O extremismo do centro, a moderação apaixonada, ou um equilíbrio extraordinário são exemplares, mas raramente reconhecidos ou recompensados, porque a acalmia do pêndulo não é do interesse dos media.]

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