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quarta-feira, dezembro 10, 2003

 

A Condição Arquitecto

Os arquitectos têm o (saudável) hábito de falar muito sobre os si mesmos. É uma característica do exercício da profissão, observar e avaliar o trabalho dos outros. Seja na crítica das revistas, na avaliação de concursos, em conferências, etc., o arquitecto fala sobretudo de arquitectos. Os nomes tornam-se marcas identificadas.
Como disse, isto só por si é bom. É sinal de abertura de espírito, de comunicação, de partilha, de aprendizagem mútua. Mas a realidade não é bem assim. E isso transparece para fora.
Os médicos não falam sobre outros médicos. Não me lembro de ouvir qualquer comentário numa consulta ao trabalho de outro médico. Os advogados também se abstêm de fazer comentários públicos sobre o trabalho dos seus pares. Porquê? Porque se regem por uma «ética» intrínseca. Há a preocupação de gerar uma credibilidade colectiva que permita a sua boa imagem na sociedade. Para o bem e para o mal há um estatuto social que é construído.
Os arquitectos estão-se marinbando para isto. Querem lá saber da imagem da classe. É frequente ver-se nos jornais arquitectos comentando obras polémicas dos seus pares, muitas das vezes revelando divergências de fundo. Que impressão é que isto dá para quem lê? O público, potencial cliente, vê hoje em dia nos arquitectos uma classe demasiado preocupada consigo mesma, que gasta demasiada energia sobre si própria. Uma pescadinha de rabo na boca.
A questão dos concursos é crónica. Sabemos que os critérios de avaliação não são tão objectivos como gostaríamos. Há sempre uma componente subjectiva que pode ser invocada para justificar todo o tipo de jogos de cintura, de falta de transparência, de processos menos claros. Invariavelmente, nos grandes concursos, são «sempre os mesmos», alternando o papel de júri e de concorrente. Isto gera um clima de desconfiança nada agradável. Mas este problema só por si é suficiente para páginas e páginas...
Voltemos à questão da classe. Os profissionais de arquitectura não se devem esquecer que para quem está de fora tudo isto cheira mal. A arquitectura não tem coesão ao nível do público. O arquitecto não coneguiu ainda ganhar o estatudo que merece. Para isto contribui a má gestão das condições base do exercício da arquitectura, a crítica e os concursos. Como se explica que, apesar de se criticar abertamente uma obra, não se deseja que ela nunca tivesse sido construída? Como se explica que mesmo criticando aquela obra será sempre melhor pela mão de um arquitecto do que outro profissional qualquer? Como se explica que a arquitectura só evolui discuntido-se?
Saluta-se por isso o inquérito à arquitectura portuguesa do séc. XX que a ordem está a promover. Mais do que uma feira de vaidades e favores, deverá ser uma enorme divulgação das qualidades da arquitectura, tentando provar os benefícios que traz à sociedade. Esta visão é um bocado simplista, eu reconheço. Mas às vezes temos de ser simplistas, deixar cair o manto intelectual e erudito, e falar directamente ao ouvido popular. Estando sempre consciente dos perigos que isto traz.
Não deixa de ser irónco que o movimento de maior base social na história da arquitectura, o movimento moderno, tenha sido aquele que mais se afastou da apropriação e identificação popular. Foi motivado por uma forte convicção que era possível tornar o mundo num sítio melhor, que era possível dar condições de habitação mínimas a todos, e acabou num fenómeno essencialmente teórico, onde só os arquitectos se emocionam.
Vão lá tentar defender a Villa Savoy face a qualquer casa da pradaria de Lloyd Wright para perceber o que estou a dizer. LAC


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