O PROJECTO

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terça-feira, dezembro 09, 2003

 

Os Dois Caminhos

Actualmente na arquitectura sentem-se duas atitudes possíveis bem distintas. Numa época sem manifestos, sem estilos, sem correntes, essas atitudes não são explícitas, mas estão bem presentes. São, na minha opinião, duas abordagens radicalmente diferentes. Tem a ver com a própria visão do papel da arquitectura na sociedade, aquilo que ela pode dar, pode constibuir, pode influenciar. Tem também a ver com o papel do arquitecto, enquanto actor principal. Delas provêm todas as correntes que actulamente podem ser identificadas a nível mundial.
A primeira, que é mais presente em Portugal, aborda a arquitectura como pano de fundo, como suporte. O edifício deve acima de tudo dar as condições para que a vida se desenrole naturalmente. Integra-se o mais possível na envolvente procurando essencialmente a harmonia, o diálogo entre os vários intervenientes urbanos. Produz facilmente objectos inexpressivos, mudos. Produz contudo também obras magníficas, subtis e sublimes. Às vezes parece que se demite de existir, adoptando um altruísmo urbano, se me é permitida a expressão. Está também muito relacionada com o aspecto de desenhar cidade, não só desenhar edifícios. Gosta dos materiais clássicos. Considera-os a base de toda a construção. Respeita-os ao ponto de torná-los protagonistas.
Está claro que num país como o nosso esta atitude é mais pacífica. Ela confere uma segurança a quem desenha, uma segurança medrosa, receosa. O projectista encosta-se a esta opção como meio de defesa. É num certo modo uma demissão de tomar opções. Quando não se tem certeza sobre o que se quer dizer, o melhor é não dizer nada. Infelizmente este caminho é sem dúvida frequentemente uma maneira de não dizer nada, de nada acrescentar.
A sua inspiração é o silêncio.
A segunda atitude é como já se disse o oposto disto. Acredita-se que a arquitectura é um meio previligiado de comunicação artística. O edifício deve reclamar para si uma identidade, demarcando-se dos outros, falando em alto e bom som que está ali. É um caminho bem mais arriscado. Pisa o risco e sofre com isso.
Não esquece, como pode parecer à primeira vista, as pessoas. Acredita que a maneira mais correcta de ter respeito pelo utilizador é estimulá-lo. Interagir com ele, provocá-lo, não sendo neutro. Corre o risco de ser datável, de época. Sendo expressiva é produto do ambiente, social, político, artístico. Produz, como o primeiro caminho, obras excelentes, de puro deleite arquitectónico, como edifícios-aberração, descontrolados e medonhos. É preciso que o arquitecto esteja muito seguro.
Não escondo a minha preferência pessoal pela segunda opção. Apesar de admirar enúmeras obras que reflectem a atitude mais democrática, se quisermos. Tenho muito presente a impressão que me causou a anulação quase total do gesto que é a Casa das Artes, no Porto. O edifício resume-se a um muro de pedra, apenas, desconcertante. Apesar disso os edifícios onde mais me apetece estar são geralmente produto de uma visão mais expressiva do objecto arquitectónico. Visitem as piscinas municipais da Oturela, de Manuel Vicente, para perceber o que estou a dizer. O prazer de pura diversão, de pura fruição espacial.
Em Portugal há dois arquitectos que representam o expoente de cada atitude, sendo também, para mim, os arquitectos mais influentes e importantes da sua geração. Falo de Eduardo Souto Moura, autor da referida Casa das Artes, e Manuel Graça Dias, que com Egas José Vieira forma o atelier Contemporânea. Outros podem ser referidos. Como exemplo refira-se o atelier Promontório, como exemplo da primeira atitude, ou o atelier ARX-Portugal, como exemplo da segunda.
Como lição a tirar disto tudo é a convicção forte que uma só existe porque é oposição à outra. Complementam-se e enriquecem-nos culturalmente. LAC

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