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segunda-feira, janeiro 12, 2004

 

Arquitectura Popular Portuguesa

Foi recentemente introduzido pelo GANG um tema que irá, sem dúvida, provocar muita discussão: a Arquitectura Tradicional Portuguesa, ou, se quisermos, a Arquitectura Portuguesa, aquela que revela uma identidade nacional, e não apenas a que cá é produzida. Há uma grande confusão que se instala quando se fala de «tradicional», «popular» ou de «regional». Sobre o assunto gostaria de identificar 3 expressões distintas que costumam ser baralhadas:

1. A arquitectura que foi identificada no Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa (IARP), puplicado sob o título: «Arquitectura Popular Portuguesa» (APP). Como se diz na introdução da publicação, que mais à frente referirei, trata-se de uma expressão eminentemente rural e regional, sem influências (fortes) eruditas ou exteriores
2. O fenómeno conhecido como «Casa de Emigrante», a que Graças Dias frequentemente se refere, que se traduz numa construção desligada do local (quer do sítio geográfico, quer do sítio cultural), amadora e, ao contrário da arquitectura popular, cheia de referências desadequadas.
3. Um aproveitamento comercial de um instalado gosto popular, este sim muito prejudicial para a paisagem urbana dos nossos dias. Basicamente trata-se de uma fusão de mau gosto entre um imaginário de «Casa Portuguesa», a de Raúl Lino, inspirada na arquitectura do sul do País, de paredes caiadas e rodapés azuis, com um imaginário (também deturpado) clássico, de colunas e frontões.

Como se vê a arquitectura popular não é um fenómeno negativo, nem podia ser, pois reflecte uma identidade pura e verdadeira que é indissociável da cultura nacional. Mal ou bem temos de viver com isso, com essa portugalidade.

Como mote para a discussão transcrevo aqui alguns excertos da introdução ao «Arquitectura Popular Portuguesa», de 1960. Peço desde já desculpas pela extensão do post, mas não duvidem do interesse do que se segue. Digo isto sem rodeios, trata-se do texto que resume as preocupações que levaram ao IARP, numa década de cinquenta preocupada e desiludida com o Estilo Moderno. Transcrevo também, no final, um excerto da introdução da 2ª edição, de 1980.

« Desde que os homens conseguiram romper o isolamento que os continha em pequenas áreas, os aperfeiçoamentos técnicos e as inovações formais da Arquitectura alastraram pela superfície da Terra, acompanhando a expressão territorial de certos povos, das doutrinas religiosas e do intercâmbio económico e cultural.
Com a formação do Império Romano espalharam-se pela bacia mediterrânia e por vastas regiões da actual Europa os edifícios típicos, os processos de construir e as concepções plásticas greco-romanas. Posteriormente, o cristianismo levou mais longe, ainda, uma maneira especial de edificar – a do estilo românico. E quando os «mestres de obras» franceses aperfeiçoaram o sistema das abóbadas ogivais e criaram a partir dele um novo estilo, não se reduziu à França a sua área de utilização: irradiou por toda a cristandade, ignorando fronteiras, distinções éticas e políticas. A partir do século XV, impôs-se a feição renascentista da arquitectura a quase todo o mundo europeu. E, com os descobrimentos, as conquistas, a colonização, a intensificação do comércio, chegou das terras a América e da Índia um estilo comum – o Barroco.
[...]
Contudo, a par da renovação e da expansão que essas feições conheceram, outras há – as da Arquitectura Popular – que se mantiveram, através dos tempos, mais constantes e localizadas, como panos de fundo sobre as quais se vinham encastoar e destacar as peças ricas, evoluídas e desenraizadas do património comum dos povos que entre si mantinham afinidades materiais e espirituais.
[...]
Se atentarmos em certos aspectos das feições populares e das feições eruditas a edificar, ressalta claramente esse antagonismo.
Nas primeiras, assumem capital importância a correlação estreita com as condições naturais da região, o seu radical utilitarismo, a rusticidade e a permanência.
A Arquitectura popular regional não é urbana de origem nem de tendências. Pode «urbanizar-se», melhorar de cuidados construtivos e apuros formais, mas não se lhe cortam as raízes que a prendem fortemente à terra e aos seus problemas, desvirtua-se, perde a força e a autenticidade.
[...]
Nas feições eruditas da Arquitectura, a essa atitude humilde de cooperação com a Natureza e aceitação quase fatalista dos seus imperativos, contrapõe-se o desejo de a dominar, com o auxílio de técnicas, em constantes transes de aperfeiçoamento; ao utilitarismo, as preocupações estéticas e estilísticas; à rusticidade, a erudição e os requintes urbanos; à permanência, uma inquitação renovadora, com raízes em fenómenos de ordem económica, social, e de outras naturezas, cada vez mais generalizada e internacionalizada.
[...]
As zonas, ou áreas, nas quais se espraia e define uma feição peculiar da Arquitectura, raramente coincidem com as fronteiras nacionais. São, em geral, anteriores a elas e têm raízes mais fundas e sólidas. A Nação e os seus limites constituem, em certa medida, criações artificiais, que os azares de uma simples guerra podem alterar ou até suprimir. Mas nenhuma guerra até hoje modificou a natureza do solo, o clima, e outros factores determinantes da Arquitectura regional.
[...]
Portugal, por exemplo, carece de unidade em termos de arquitectura. Não existe, de todo, uma «Arquitectura portuguesa», ou uma «Casa portuguesa». Entre uma aldeia minhota e um «monte» alentejano, há diferenças muito mais profundas do que entre certas construções portuguesas e gregas.
[...]
Não existirá contudo, nessa diversidade de feições, qualquer coisa de comum, especificamente portuguesa? Cremos que sim, que há certas constantes, de subtil distinção, por vezes, mas reais. Não dizem respeito a uma unidade de tipos, de feitios, ou de elementos arquitectónicos, mas a qualquer coisa do carácter da nossa gente (...).
[...]
Mesmo sem arredar pé da aldeia, da vila, ou da pequena cidade onde a Vida nos lançou ou nos reteve, essa aproximação impõe-se. O fulgor dos grandes centros chega lá, insinua-se e instala-se. Através da imprensa, da TSF, do cinema e dos produtos e ideias que se pretende incultar, atinge as terras mais remotas, impressiona as gentes e perturba a placidez tradicional da sua vida estreita, monótona, mas regrada e coerente.
[...]
Não se exagera ao afirmar, por exemplo, que muitos lisboetas estão mais próximos de New-York, do que de Miranda do Douro; que entendem melhor as reacções típicas dos vaqueiros do Texas do que as dos rústicos de Montemuro; que sabem mais dos anseios hollywodescos das dactilógrafas norte-americanas do que das aspirações autênticas dos camponeses do Alentejo.
De igual modo o proprietário rural abastado, o presidente da Câmara ou da Junta, o professor, o abade, (...), estão agora mais perto, em pensamento e interesses, dos grandes centros, do que dos povoados erguidos em seu redor.
[...]
Eivados de influências citadinas, seduzidos pelo fulgor dos grandes centros e do aparato das suas realizações, desprezam as lições de sobriedade, de funcionamento e de coerência, que podia colher «in loco», para imporem aos burgos aquilo que consideram uma feição progressiva – e que é apenas, em enúmeros casos, parecida com a dos meios maiores. Feição inadequada, com excessiva frequência, que alimenta vaidades pacóvias mas não beneficia nem embeleza esses mesmos burgos.
[...]
A Arquitectura popular regional reflecte, como não podia deixar de ser, a perturbação reinante. Perturbação tão profunda que já se torna difícil, em certas regiões, encontrar meia dúzia de edifícios, funcional e harmoniosamente construídos, segundo princípios que ainda constituíam norma há quatro ou cinco dezenas de anos.
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Contribuir para salvaguardar o que merece ser mantido, é pois, uma das finalidades deste trabalho – e não das menores.
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(...) o fenómeno da Arquitectura popular e regional só há poucas décadas começoe a interessar vivamente os estudiosos, e a ser encarado com olhos limpos de preconceitos estilísticos, que lhe diminuíam o significado e a importância.
[...]
O claro funcionamento dos edifícios rurais e a sua estreita correlação com os factores geográficos, o clima, como as condições económicas e sociais, expressões simplesmente, directamente, sem interposições nem preocupações estilísticas a perturbar a consciência clara e directa dessas relações, ou a sua forte intuição, iluminam certos fenómenos basilares da arquitectura, por vezes difíceis de apreender nos edifícios eruditos, mas que logo ali se descortinam, se já estivermos preparados para os compreender e apreciar.
[...]
Tem-se admitido e proclamado que as construções antigas do nosso país podem e devem servir de inspiração para os arquitectos de hoje, e que o seu portuguesismo se revelará mais intenso e louvável quanto mais directamente se inspirarem num certo número de elementos e de aspectos, tidos e havidos por mais portugueses. Ideia simpática, mas ingénua!
Tem-se admitido também que para projectar um edifício, destinado a determinada região do país, se devem copiar ou estilizar os elementos arquitectónicos mais interessantes da região, para que o edifício se integre no ambiente regional.
Maneira primária de conceber o problema da integração em ambientes pré-existentes, e por consequência a própria arquitectura.
[...]
Do estudo da Arquitectura popular portuguesa podem e devem extrair-se lições (...) que em muito podem contribuir para a formação de um arquitecto dos nossos dias.
[...]
»


Da 2ª edição:

«
[...]
Das apetências do regime, e dos propósitos dos arquitectos que levam por diante esta obra, surge como que um equívoco que será intencionalmente mantido por estes para a viabilidade dos apoios financeiros indeispensáveis, enquanto o governo espera deste trabalho todo um formulário figurinista que venha a permitir a definição epidérmica da arquitectura, ou pelo menos das arquitecturas certas para cada província. Equívoco que a publicação dos resultados do inquérito vem destruir, juntamente com o mito, acalentado pelo regime, da existência de um «estilo nacional».
[...]
»


Comentários, reacções, estimulações, ficam para os dias que se seguem. LAC
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