O PROJECTO

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domingo, janeiro 04, 2004

 

As catalogações

É sabido que este tipo de coisas não se faz a quente. Para uma análise coerente e isenta é necessária uma certa distância temporal, capaz de fazer distinguir o essencial do acessório, o fundamental do epidérmico.
A pós-Modernidade na arquitectura sofre deste factor. Primeiro é ainda e apenas um pós. Ao abrigo desta expressão cabem expressões muito distintas. Confesso que ainda me baralho muito ao tentar definir o pós-Moderno. Fico-me lamentavelmente pela negação do Moderno, argumentação muito frágil. Talvez acrescente uma ideia ou outra sobre o significado da forma, ou da utilização de elementos reconhecíveis, mas mais do que isso trona-se difícil.
Ao reler a publicação de uma mesa redonda com Alexandre Alves Costa, Álvaro Siza Vieira, Domingos Tavares, Eduardo de Souto Moura e Sérgio Fernandez (JA nº 208), deparei-me com esta espantosa evidência:

« ESM: (...) Em relação às ideias de alteração da sociedade era uma coisa; outra coisa eram os meios com que se construía. E os meios com que o modernos se propõe construir são, os que estão aí, profundamente instalados hoje: são os do Mies e acabou-se! Se fizeres um corte nas Amoreiras é igual ao Mies! Portanto, as Amoreiras é um edifício moderno! (...) A “DOM-INO” originou o que está a acontecer, hoje: a “pele”!... Hoje, toda a gente constroi em “DOM-INO” e, depois, arrajam-se uma série de peles, umas com frontões, outras com vidro, outras com madeira, outras com não sei o quê... (...)»

(Reparo agora que esta secção de texto faz parte de um interessante diálogo que se instalou entre Souto Moura e Alves Costa. Vou calar-me e dar a palavra aos dois.)

«AAC: Tens duas opções: ou fazes estruturas em parede contínua ou fazes estruturas em sistemas pilar/viga!
ESM: E a história da arquitectura é a história dessas duas! Desses dois sistemas, e agora começamos a usar tudo misturado, sem carácter... O que eu quero dizer é que o modernismo é um projecto global, e por aí não falhou.Onde é que está o modernismo? Num conjunto de pressupostos, numa “gramática” para se poder materializar que continua válida. (...)
AAC: O problema que se levanta é que esses princípios modernos produziam uma arquitectura silenciosa.
ESM: Mas porque é que a arquitectura deve ser falante? A arquitectura abstracta moderna não é narrativa! A villa Savoye e o imóvel de Marselha não são narrativos! Mas aí o pós-modernismo enganou-se! Confundiu as coisas! Quem quiser ser narrativo escreve! Não faz paredes de betão! Portanto, o problema é o pós-modernismo ter querido que a arquitectura fosse narrativa! Querer que contasse uma história! Nesse ponto houve confusão! Quem quiser pintar paisagens, pinta um quadro; quem quiser contar uma história, escreve; quem quiser que não chova nas cabeças, faz telhados...
AAC: À arquitectura faltava-lhe significado, e Kahn – por exemplo – dá-lhe significado, mas não o faz através da pele...»


E O Projecto regressa. Um bom ano de dois mil e quatro.

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