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segunda-feira, janeiro 19, 2004

 

Entre o branco branco e o rosa-choque

Abordar o tema da cor é sempre delicado. Sobretudo em Portugal, nesse país onde «quando um gajo não faz uma coisa lisa e toda branca, está logo lá a televisão no dia a seguir a filmar e a fazer um escândalo». Parece que é necessário sempre de um argumento muito forte para não se utilizar o branco, para se fugir, para se querer fazer outra coisa, como se o branco, na sua pureza, fosse a cor oficial, o politicamente correcto. Num certo sentido é, no país de Siza. Resulta do nosso clima, quente, esta necessidade do guardião de branco, que repele o calor incómodo.
Mas a cor como elemento arquitectónico é um factor de enriquecimento, de aumento de significado, de vontade. É esta vontade que parece faltar a este manto branco que corre o país de norte a sul, falando da arquitectura que se faz hoje.
Convém identificar claramente duas situações completamente distintas da expressão da cor: aquela que resulta como consequência, e aquela que se apresenta conscientemente como opção. A primeira está claramente ligada à expressão natural dos materiais, à sua cor indissociável que imediatamente se afirma como a identidade do próprio material: a madeira é castanha, a cerâmica é cor de tijolo, o betão é cinzento, o metal é reluzente, o granito é escuro, o mármore é claro, o vidro é incolor. Uma gama cromática que se baseie nesta naturalidade é aceitável, está bem, não faz ondas, é reconfortante. A estas parece só ter direito juntar-se o branco das paredes.
Outra coisa completamente distinta é falar na cor com opção. Escolher um azul vivo é uma atitude muito mais forte, e por isso mais importante, do que deixar o betão à vista. Quando digo mais importante não digo que é mais válido, ou mais rico, mas apenas que é uma opção mais difícil de tomar. Porque quando a cor foge ao esperado corre o risco (não necessáriamente mau) de se tornar o elemento preponderante, relegando tudo o resto para segundo plano. Não é por acaso que o Taveira é o arquitecto às cores. Será que se pintássemos as Amoreiras de branco aquilo se mantinha o mesmo edifício?
Há também uma questão de gosto. O que vem baralhar esta história toda. Porque quando se introduz uma variável tão subjectiva como o gosto, perde-se o referencial e corre-se o risco de entrar na anarquia. Os brasileiros têm um ditado bastante revelador: «Se todos gostasssem do verde, o que seria do amarelo?»
Estará para inaugurar em breve o novo teatro municipal de Almada, já intitulado «Teatro Azul», numa referência ao mosaico que o reveste na totalidade. Como aconteceu esta opção, do azul intenso, tão intenso que se apropria do próprio nome do teatro? Graça Dias revelou-o numa conferância. Numa das muitas reuniões que os arquitectos foram tendo com o cliente, foi apresentada uma maquete em roofmate, material bastante apreciado na construção de maquetes e usado na construção civil como isolante térmico. Ora bem, acontece que este material é azul, sem nenhuma razão em especial. No final dessa reunião o cliente pergunta: «o teatro vai ser azul?» Obviamente não era essa a intenção, o que ali estava era apenas uma maquete de estudo volumétrico, sem nenhuma intenção cromática. Neste ponto os arquitectos entreolharam-se, numa dúvida instantânea, e, antes que pudessem dizer alguma coisa, o cliente continuou: «é que eu gosto muito do azul, gostava muito que fosse essa a sua cor». Imediatamente a resposta aconteceu: «sim, sem dúvida, o teatro será azul.» Assim foi e assim lá está, o Teatro Azul. A cor como referência mãe, assumindo as rédeas do edifício e mostrando-o ao mundo através da sua azulidade. Será que isto aconteceria do mesmo modo se fosse branco? LAC

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