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quarta-feira, fevereiro 25, 2004

 

A Pior Casa do Mundo

Ainda lembrando o confronto Moderno vs. Pós-Moderno na arquitectura, devo confessar que uma das razões que me levam a afectivamente escolher a segunda condição é a Casa Farnsworth.
Concordo ainda assim que os elementos abstractos são a ferramenta principal da arquitectura contemporânea. A expressão cultural se quisermos do nosso tempo traduz-se numa arquitectura não figurativa, que busca o seu próprio significado. Esta é a minha maior distância em relação ao Venturi do «Complexidade e Contradição», e a minha maior surpresa por este ser discípulo de Kahn. Tento perceber esse facto lembrando a conjuntura Pop dos anos 60 e, de um modo paternal, tudo perdoo.
Leio que que a razão pela qual a Casa Farnsworth fracassou prende-se com o facto de o seu autor, Mies, ter reclamado para si a liberdade do artista: O que se põe em causa com esta obra, diz respeito ao uso e ao facto de a vontade do cliente ser preterida a favor da vontade do arquitecto. Mies sujeita o conforto da casa e a vontade da sua cliente ao desenho da sua obra de arte. (1)
O que se põe em causa com esta obra é a total desadequação entre o que foi solicitado e o que foi construído. Trata-se de um desrespeito pelo programa, uma abstracção do fenómeno de habitar que transforma uma casa noutra coisa qualquer. Não é uma casa obra de arte, é uma não-casa, que é algo completamente diferente.
O arquitecto desenha sempre para si mesmo, ou seja (e para evitar desde já más interpretações), deve sempre colocar-se no papel de cliente. Neste caso impõe perguntar-se de Mies seria capaz de habitar a Casa Farnsworth de um modo inocente. Seria capaz Mies de tornar a Casa Farnsworth na sua casa? A resposta, parece-me, é não.
Sendo Mies uma referência incontornável no Movimento Moderno e sendo a Casa Farnsworth um ícone por excelência, assola-nos (creio não ser o único) uma inquietação sobre (alguns d)os propósitos modernos. Talvez seja apenas um exemplo de radicalidade. Ou talvez não.
Para tentar perceber melhor esta relutância que alguns mantêm sobre a questão de ser ou não a arquitectura uma arte, continuo a ler e deparo-me com Loos: A casa tem de agradar a todos, contrariamente à obra de arte, que não o tem de fazer. A obra de arte é um assunto privado do artista. A casa não é. (...) A obra de arte não é solidária com ninguém; a casa é solidária com todos.(2) E continua com o mesmo tom.
Nota-se aqui mais uma vez uma radicalidade nos conceitos que me deixa inquieto. Não consigo analisar a Casa Farnsworth reduzindo a sua condição a obra de arte, até porque não lhe reconheço maior valor artístico do que muitas outras casas que não deixam de ser casas, e como tal agradam ao seu cliente e habitante, pois cumprem a primeira função da arquitectura, isto é, proporcionar-nos abrigo (3), (vejo a Casa Vanna Venturi umas páginas à frente...)
Isto levava a uma discussão sobre a arte como incomodidade. Mas interessa-me continuar a observar a obra de Mies...
Nunca foi habitada, nunca o poderia ser. Pelo menos inocentemente, sem segundas intenções que justificariam todas as contrariedades. A Casa Farnsworth é outra coisa qualquer mascarada de casa. E aqui reside todo o paradoxo. Quere-se analisar o fenómeno arquitectónico da Casa Farnsworth partindo do princípio que é uma casa, distorcendo todas as análises. Pelas simples razão, só por si justificativa deste argumento, que uma casa pressupõe habitação.
Podemos ver na Casa Farnsworth sugestões construtivas, manifestações formais, intenções espaciais, toda uma série de acontecimentos que nos ficam na memória. Quem sabe não os utilizaremos um dia mais tarde. Mas querer ver nisso uma casa é abusivo. E por isso tentar compreender o seu insucesso alegando uma liberdade excessiva do arquitecto, que se mostrou totalmente intolerante na relação com o cliente, é falacioso.
Não acho, ao contrário de Loos, que tudo o (..) que cumpre uma função deve ser excluído do domínio da arte (4). Não acho que um desejo de produzir uma obra de arte seja incompatível com o desenho de uma habitação. Não acho que a Casa Farnsworth falhe por ser uma obra de arte.
Nem discuto a sua forma, o seu conceito, o seu espaço. Não questiono a sua implantação, a sua escala, a sua proporção, ou o seu desenho. Questiono, isso sim, a sua rejeição em ser habitada. O seu pudor em relação à apropriação humana. A sua distância, o seu tacto, a sua materialidade. Questiono a sua pretenção de ser apenas conceito. Rejeito a sua pureza como rejeito a pureza humana.
E ponho Mies em causa. E fazendo isso ponho o Movimento Moderno em causa. Pela desumanização. Leio (o suspeito) Charles Jenks: Mies, por exemplo, constroi edifícios maravilhosos só porque ignora muitos aspectos de um edifício. Se resolvesse mais problemas, os seus edifícios seriam de longe menos potentes. (5)
A Casa Farnsworth não é uma casa. Quem a tentar habitar perceberá que se trata da pior casa do mundo. LAC

(1) (2) (3) (4) Um Retiro Demasiado Perfeito, Clara Germana Gonçalves, JA nº203
(5) idem, citando Jenks


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