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sexta-feira, março 05, 2004

 

torres

José Júdice hoje, no Independente:

«Torres e torres erguendo

(...) Contra a construção das Torres foram levantadas várias objecções, de diversas proveniências. Dos ecologistas do costume aos ambientofascistas, para quem a visão de um tijolo provoca invariavelmente espasmos de alergia anticapitalista, ou de outras proveniências intelectualmente mais elaboradas como a elegante e displicente prosa de Miguel Sousa Tavares, a opinião profissionalmente preocupada e estaticamente sofisticada manifestou-se, previsivelmente contra as Torres. Os principais argumentos expressos (...) são três. Um, legalista, de que as Torres violam o plano director municipal; um segundo, conservadorista, de que desvirtuam o carácter de Alcântara; e um terceiro, paisagista, de que “cortará as vistas” e alterará o perfil da Lisboa ribeirinha.
O primeiro argumento é o único sério. Se o PDM não permite, náo permite, apesar de haver divergências sobre se permite ou não permite. Mas não sendo o PDM as Tábuas da Lei nem tendo sido ditadas por Jeová ao vereador do Urbanismo e Construção, e tendo sido feitas por homens, os mesmos homens, ou outros, podem modificá-lo se assim o entenderem. É uma questão política, ou de políticas.
O segundo e terceiro argumentos, sobre a preciosidade do carácter de Alcântara e a intocabilidade das belas vistas (sobre a parte de baixo da Ponte 25 de Abril) que se desfrutam dos becos, dos barracões fechados, das fábricas abandonadas, e dos prédios pobres da zona ribeirinha de Alcântara, são mais curiosos e, apesar da aparente fragilidade da sua sustentação, os mais difíceis de combater e rebater.
É o momento, talvez, de declarar um conflito de interesses, como dizem os anglo-saxões, nesta questão: Alcântara, em particular a zona da fábrica da Sidul, é um nojo urbanístico, um cemitério de arquologia industrial sem nada de especial arquitectónica ou historicamente preservável, uma zona da cidade totalmente dominada por vias de comunicação como o comboio, a marginal, vias rápidas e os acessos à ponte, totalmente invivível a não ser por quem está habituado ou não tem outro remédio. Não há “carácter” nesta parte de Alcântara que mereça ser defendido nem “vistas” (vistas? Que vistas?) que mereçam ser preservadas.
No entanto, é como se bastasse pronunciar as palavras mágicas “preservação” ou “paisagem” para que as forças do Mal possam ser travadas nos seus malvados instintos, como se em causa estivessem valores fundamentais do nosso património construído, da nossa identidade cultural ou da nossa riqueza natural.
Mas, ao contrário da costa algarvia, da região Sintra-Cascais e de muitos outros locais que ainda há três décadas eram paraísos naturais e hoje são florestas de betão, Alcântara é Lisboa. Faz parte de uma cidade que está a morrer, a perder habitantes, a degradar-se, a ficar desertificada, porque não é rendível construir os prédios antigos para os arrendar às mesmas pessoas pelas mesmas rendas (...). Dir-se-á que as habitações propostas para as Torres também não são para o “povo”. Pois não. Mas também não são para o povo os “lofts” resultantes da reconversão dos armazéns e barracões da zona ribeirinha (...). Façam-se as Torres ou não, uma coisa é certa: para os antigos terrenos da Sidul não irão viver os marinheiros, os funileiros, os marceneiros, os torneiros, as prostitutas e os fadistas da Alcântara histórica. Os que ainda sobram ou estão a caminho da reforma ou estão a caminho da Amadora, Oeiras ou Odivelas.
Por detrás do ódio ao construtor civil está o rancor ao progresso que destroi o Portugal rural, pobrete e alegrete, que é cada vez mais um prazer acessível apenas a quem tem dinheiro para comprar quintas e montes arruinados, e o horror ignorante à arquitectura moderna que desvirtua o “carácter” tacanho e tugúrico dos nossos bairros “populares”. (...)

P.S. – Já me ia esquecendo: até nem aprecio muito Siza Vieira.»

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