O PROJECTO

Contribuições, insultos, projectos de execução, mas principalmente donativos chorudos para:

blog_oprojecto@hotmail.com (com minúsculas)

quarta-feira, agosto 25, 2004

 

Encontros Imediatos #2: «Por fora»

Quando se fala no Guggenheim de Bilbau é frequente ouvir-se frases começadas por «por fora», deixando bem claro que a apreciação que se segue diz apenas respeito ao aspecto exterior do edifício. É caso único? Certamente que não. Mas com Gehry o exterior é tudo. O seu modo de projectar, priviligiando a forma, o volume, a implantação, não deixa margem para dúvidas. É honesto, não engana ninguém. «Por fora» é ele quem manda.
O museu não se impõe ostensivamente. Estando na margem (do rio, da cidade), ocupa um espaço que lhe é dado de bandeja. Um palco. Nesse sentido não interfere com a malha ortogonal, repetida, de Bilbau. Confesso que era isso que esperava, um volume imenso e torcido, aos gritos por todos os lados, criando um ruído insuportável, qual criança chamando a atenção. Não. A malha regular da cidade, daquele bocado da cidade, recebe muito bem o intruso. Aceita-o sem reservas.
O edifício é bonito. As suas formas, «por fora», funcionam. O mundo de magia que sugere, tal é o afastamento da realidade, da gravidade, das leis naturais que sempre condicionaram os edifícios, garante-lhe facilmente o adjectivo de atracção. É dinâmico (palavra que parece ser imperativa nos «dias que correm»), proporcionado, sedutor. Brilha e rebrilha para nosso espanto. Dança à nossa frente, nu, sem qualquer tipo de pudor.
As pessoas navegam à sua volta, de boca aberta, meio à deriva, meio sem sentido.
O «fenómeno Bilbau» é positivo. Lembro-me de alguém perguntar, num debate, a Carrilho da Graça (acho que era ele, não me lembro e também não faz diferença), se não havia o «perigo» que o «efeito Bilbau» se instituisse como norma, tornando o arquitecto um exibicionista, uma estrela inserida no circuito pop. Carrilho da Graça respondeu energicamente «quantos mais efeitos Bilbaos melhor», já que se a arquitectura sofre de alguma coisa é falta de atenção, e não o contrário. Na altura não concordei, estranhei, mas a convicção com que disse aquilo impressionou-me. Hoje percebo. Apesar de como museu ser uma bela merda, apesar de ser bastante arcaico e sem graça como edifício de exposições, apesar de «por dentro» não fazer sentido, «por fora» é um êxito fenomenal, um acontecimento (quase) único, que tudo perdoa, que tudo justifica, que deixa Bilbau mais segura de si.
É claramente um edifício filho da internet, da multiplicação da imagm, da «fotocópia até ao infinito». É um produto do zeitgeist. Sem conteúdo, com muita forma. (continua)

Comentários: Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]





<< Página inicial

Arquivos

Junho 2003   Julho 2003   Agosto 2003   Setembro 2003   Outubro 2003   Novembro 2003   Dezembro 2003   Janeiro 2004   Fevereiro 2004   Março 2004   Abril 2004   Maio 2004   Junho 2004   Julho 2004   Agosto 2004   Setembro 2004   Outubro 2004  

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Subscrever Mensagens [Atom]