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quinta-feira, agosto 26, 2004

 

Gaudí

A questão atormenta-me: como se devem tratar os grandes génios? Podem submeter-se aos mesmos parâmetros de avaliação? Ou devem ser intocáveis, imunes na sua unicidade? Gaudí viveu um passo antes da arquitectura moderna. Mas percebe-se que, em Espanha como noutros países, a designação «Modernista» abrace já o período da transição, da arte nova, do ferro e do vidro. Para nós, «Modernista» é de Corbusier para a frente. Acho que é mais correcto. Findo este aparte, vamos ao beato. Numa conversa oiço dizer que «Gaudí é um verdadeiro artista, a sua arquitectura não é apenas arquitectura, é arte». Aliás, Jencks, na sua maravilhosa tentativa de resumir a arquitectura do sec. XX afirma:

«My argument for placing Antonio Gaudi the best architect of the century, even ahead of Le Corbusier, does not rest on his influence, city planning or theoretical contribution. Rather, it concerns his creative brilliance at turning city building and structure into a high art.»

Contudo, é forçado a admitir mais à frente:

«To say Gaudi was the architect of the century, however, reveals my partiality towards artistic and symbolic architecture, values that other critics, such as Ken Frampton, do not necessarily share.»

Aqui está a questão essencial, e sobre a qual giram todas as polémicas e balançam as diferentes sensibilidades. Considerar que Gaudí é mais artista do que Mies, por exemplo, é negar em parte a capacidade artística própria da linguagem arquitectónica (e eu não sou muito dado a Mies, como já tenho dito). Gaudí é único, ao passo que Mies não. Mies deixou escola. Lançou conceitos que outros continuaram. Gaudí, pela sua originalidade e criatividade, não possibilitou qualquer continuação da sua obra, ou interpretação. Em parte porque imediatamente depois chegou o modernismo (onde meto para facilitar o funcionalismo, o racionalismo, a abstracção, as formas puras, etc, etc), mas isso não explica tudo. Esse carácter meteórico e genial da obra de Gaudí é o que o torna, aos olhos de muitos, mais artista do que Mies, Corbusier, ou Lloyd Wright. Mas, e deixando de lado essa questão por agora, mesmo que Gaudí seja mais artista porque razão tem isso de significar que a sua arquitectura é melhor? Não sei. Não percebo. É, para mim, a negação da arquitectura, o reconhecimento que a arquitectura não tem, através da sua linguagem corrente, capacidade para ser arte, para ser cultura, para ser expressão. Acho esta postura incorrecta, e neste caso afasto-me de Jencks (que tantas alegrias me dá no seu elogio do pós-modernismo). O Guggenheim de NY, a sua rampa branca e abstracta, é uma experiência tão ou mais artística do que a visita à Casa Batlló. Aliás, o facto de Gaudí ter esbatido a fronteira entre a arquitectura e a decoração diz muito sobre a sua atitude. E é por isso que não pode ser considerado o maior entre os maiores. Se a arquitectura é a expressão construída do zeitgeist, então facilmente se percebe que o zeitgeist do sec. XX (se é que isso existe) não passa pelo simbolismo mas sim pela abstracção. Mas mesmo que se faça o elogio da «originalidade», como Jencks apregoa, mesmo assim não será Gaudí que poderá benificiar dessa postura. Se quisermos escolher o maior entre os maiores, se quisermos fugir a Corbusier (inevitável), então nessa altura seria Lloyd Wright que escolheria. Porque, não sendo abstracto como Corbusier, utiliza os meios próprios da arquitectura para criar o seu mundo e a sua simbologia (FLW era um místico, muito simbólico). Gaudí, por outro lado, sendo também um místico, não consegue trabalhar apenas dentro da arquitectura, e mesmo os seus gestos estruturais mais notáveis (e são muitos) aparecem invariavelmente adornados à superfície, como que a reconhecer que um bom desenho não chega.

Serve isto para tentar explicar a minha relação com Gaudí. Admiro, posso até gostar, mas não deixa de ser um dos «antigos», da história, do passado. Mies (e dá-me jeito usar Mies neste texto), pouco mais novo, já um dos «modernos», dos contemporâneos. E, não, não me convencem com essa do «artista».

P.S: Lembro-me de recentemente ter ouvido Ana Tostões dar a mão à palmatória. Sempre considerou que a Arte Nova (e Gaudí, por arrasto) não fazia parte da arquitectura moderna. Estudos recentes levaram-na a mudar de opinião, encontrando nessa arquitectura atitudes bem modernas o que elevaram a Arte Nova a um novo patamar na sua consideração. Eu continuo a não conseguir comparar, pode ser que chegue lá um dia.

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