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terça-feira, setembro 21, 2004

 

As Sete Falácias: #2, «A Falácia da Invenção Obrigatória»

[Muitos estudantes e profissionais sentem-se não só no direito como artistas individuais mas também obrigados a ser constantemente inovadores, provocadores, e críticos, se não mesmo espectaculares - em todas as escalas, desde o corrimão até à autoestrada. Apesar da preocupação com o edifício-objecto ser já antiga, a invenção da forma figurada deu recentemente lugar à invenção de campos abstractos, e na tectónica (ou a aparência de tectónica), especialmente superfície e pele, quanto mais liso e brilhante melhor. O choque do novo é hoje em dia ortodoxo e estranhamente conservador, exigindo cada vez mais energia. O conceito modernista transformou a audácia e a permanente mudança em fins em si mesmo, e não meios para um fim maior, ou a resposta a um problema. A invenção e re-invenção obrigatórias tornaram-se tão servis e previsíveis como os modernistas apregoaram em tempos acerca do ecletismo e historicismo das Belas-Artes. Liberdade para ser inventivo ou até mesmo chocante não é necessariamente sinónimo de ser livre.

A originalidade não é sinónimo de criatividade. Ambas requerem imaginação e engenho, mas a criatividade não é tanto sobre inventar do zero, mas mais sobre trabalhar dentro de um dado sistema. A imprevisibilidade e o acaso têm um lugar próprio, mas raramente há uma «luz no escuro». Os estudiosos do Talmude debatem há muito o significado da primeira frase da Bíblia - «No princípio Deus criou o céu e a terra.» Esta frase ainda desperta questões de interpretação sobre se Deus estaria a inventar do nada ou a organizar elementos já existentes de forma a dar-lhes ordem. Estamos ligados e em dívida com o nosso passado mais do que realizamos e estamos disponíveis a admitir. «... qualquer pessoa criativa é uma esponja em em negação,» para citar Robert Campbell. T.S. Elliot é mais abrupto: «O mau poeta pede emprestado. O bom poeta rouba.» É aceitável roubar e pedir emprestado, mas, nas palavras de John Habraken, devemos admiti-lo livremente e glorificar os nossos antecedentes. (Os escritos de Habraken, já agora, são dignos de louvor e eu admito sem rodeios que influenciaram este ensaio.)]

P.S: Já agora, e porque as coisas só têm sentido se as conseguirmos relacionar, lembro-me de um ensaio de Jorge Calado, que seguro agora nas mãos, intitulado «Em defesa da memória», onde às tantas se lê: «(...)O meu argumento é que a memória é o instrumento da detecção das semelhanças, isto é, a memória é a chave ou porta da Imaginação.(...)»


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